Ameixoeira. O dia em que os polícias foram às casas e "partiram tudo"

A PSP foi à procura de armas ilegais: apreendeu duas mas fez seis detidos e revistou 13 andares. Nas ruas, a revolta cigana

"Venham ver que eles partiram-me a casa toda!". A voz da cigana ecoava na avenida Glicínia Quartim, no coração da Ameixoeira (Alta de Lisboa), já depois das carrinhas do Corpo de Intervenção da PSP e da Intervenção Rápida terem saído do bairro, pelas 11.00 da manhã de ontem. "Eles", os "bófias", como são descritos pela comunidade, fizeram buscas por armas ilegais em 13 apartamentos e levaram detidos cinco moradores. Apreenderam ainda um revólver, uma espingarda pressão de ar e uma outra arma. Foi a resposta musculada da polícia à rixa de terça-feira entre ciganos rivais, na Ameixoeira, que atirou um agente e duas mulheres baleados para o hospital.

A cigana vestida de preto conduziu os jornalistas ao prédio número 12, 3ºB, da Glicínia Quartin . "Partiram tudo, olhem!", gritava a mulher, com gestos dramáticos, mostrando a porta arrombada, as gavetas de roupa reviradas na sala e nos quartos, e um sofá cujo fundo foi aberto por baixo.

Um seu familiar, Joaquim Lino da Conceição, queixava-se que o mandado de busca que a polícia lhe mostrou, para o prédio número 12, só tinha o seu nome. "Este prédio tem seis andares e eles foram a todos. Mas o mandado só tem o meu nome. Eu não sou o dono do prédio!", reclamava aos jornalistas.

Um drama em ruas de atores

Foi em duas ruas com nomes de atores consagrados do teatro e do cinema português, António Vilar e Glicínia Quartin, no coração da Ameixoeira, que esteve montada a "encenação" policial com 150 elementos da PSP. No "teatro de operações", como se diz na gíria, desde as 7.00 até às 11.00, estiveram os "artilhados" agentes do Corpo de Intervenção, os "paisanas" da Investigação Criminal e ainda as equipas da Intervenção Rápida.

Na confluência das duas ruas, as famílias ciganas com os seus velhos, chefes de clãs e com as suas crianças vivaças, enxotavam os jornalistas. "Só nos dão má imagem! Desopilem!".

Na rua António Vilar fica a sede da associação de moradores do bairro. A porta estava fechada. Um dos ciganos apontou para um líder da comunidade que poderia falar com o DN sobre o bairro. Mas esse abanou a cabeça em sinal negativo: "A polícia ainda anda aí".

Outra mulher da comunidade bradava a quem a queria ouvir que a rixa de terça-feira não tem nada a ver com o que o bairro é habitualmente: "Foram zangas entre ciganos, só isso. Houve dois que nem moram aqui mas vieram cá armar confusão". Pelo menos um deles será também conhecido na zona da Ajuda, em Lisboa. Alguns estarão ligados ao tráfico de droga.

Dos 13 mandados de busca por armas ilegais, apenas três não foram executados na Ameixoeira mas noutros locais.

"Não tocamos à campainha"

O comandante da Divisão de Investigação Criminal da PSP, intendente Resende da Silva, acompanhou a operação no terreno. Em declarações ao DN, explicou porque as portas têm de ser arrombadas nestas situações. "Em buscas ao abrigo da Lei das Armas, como foram estas, coloca-se a questão da segurança. Por isso não tocamos à campainha nem ficamos à espera que alguém abra a porta". Assim que os agentes fazem a entrada na casa, segue-se a "limpeza" para "ver se está alguém" e se há pessoas armadas escondidas na casa. "Depois da casa segura e de se garantir que não há problema em avançar prossegue-se com a busca. Tem de se assegurar também que alguém assina o mandado: pode ser um vizinho, não tem de ser o dono da casa".

No caso das buscas por estupefacientes "exigem muita rapidez para evitar que os suspeitos se livrem da droga no autoclismo, por exemplo".

O comandante Resende da Silva justificou as buscas como uma resposta à rixa de terça-feira. "Percebemos que havia pessoas com armas ilegais no bairro. Tínhamos de fazer alguma coisa".

Três detidos no Santa Maria

Fora do alcance destas buscas na Ameixoeira, a PSP deteve ontem três elementos da comunidade cigana junto ao hospital de Santa Maria, por alegado envolvimento na rixa de terça-feira no bairro. É nessa unidade de saúde que se encontram internadas as duas mulheres de etnia cigana e o polícia feridos na rixa. O agente já saiu dos cuidados intensivos.

Recorde-se que na terça-feira à noite três agentes da PSP e duas mulheres foram baleados durante confrontos no bairro da Ameixoeira. Os agentes, segundo a polícia, foram feridos quando tentavam pôr cobro a conflitos entre grupos rivais no bairro. A Polícia Judiciária identificou entretanto os dois alegados autores dos disparos e ontem a PSP deteve mais três suspeitos.