Alimentação do futuro faz-se entre o prazer de comer e a racionalização do que se come

Portugal Saudável juntou vários especialistas para analisar tendências de hoje e lançar pistas sobre o impacto da tecnologia na alimentação de amanhã.

Voltar à terra com as tecnologias do futuro e aliar o conhecimento do passado às expectativas criadas pela inovação são os primeiros quilómetros do caminho que se fará no sentido do futuro da alimentação, debatida, ontem, na conferência Portugal Saudável.

Organizada pela Missão Continente, a terceira edição destas conferências - este ano subordinada ao tema "Alimentação do futuro" - reuniu na Fundação Oriente em Lisboa um conjunto de especialistas de várias áreas, que refletiram sobre os hábitos de hoje e lançaram pistas sobre como a tecnologia poderá ajudar-nos a conhecer melhor os alimentos que comemos e influenciar a sua produção.

Ficção e realidade

O universo da ficção científica é o ponto de partida para muito do pensamento de Bertalan Mesko, o clínico e investigador húngaro que se apelida de "médico futurista". "A ficção científica pode ajudar a pensar o que muda a seguir", explica Mesko, que defende o potencial da tecnologia certa para nos ajudar a comer melhor sem perder de vista o prazer de comer. "Em 2018, não sabemos nada sobre o que comemos", atira, antes de elencar alguns produtos que começam a aparecer no mercado. Scanners que revelam os ingredientes e toxinas que estão no prato; um mapa nutricional baseado no ADN de cada pessoa; talheres que anulam o tremor das mãos dos doentes com Parkinson ou um garfo que nos alerta quando estamos a comer demasiado rápido são algumas das inovações que poderão mudar a relação do consumidor com os alimentos. "Quero ter prazer em comer, mas saber o que comer, quando comer e como comer", resume.

Saber o que se come já é uma preocupação de muitos consumidores. No universo da Sonae, os produtos biológicos representam menos de 1%, porque também são mais caros, mas os semáforos nutricionais criados pela marca foram um passo importante para que os consumidores soubessem o que transportam das prateleiras do supermercado para casa. "Ao colocarmos os semáforos nutricionais queremos fazer que as decisões sejam mais sustentadas", justifica Inês Valadas, administradora da Sonae MC. Francisco Goiana, do Ministério da Saúde, elogia a medida e sublinha a importância de ajudar o consumidor a "descodificar o que têm os alimentos".

Na sua intervenção, Nick Barnard, cofundador da marca de alimentos saudáveis Rude Health, sublinha a importância de se saber exatamente o que se come e a sua proveniência. "A comida do futuro é a que os nossos antepassados comiam", explica, sublinhando a necessidade de se reforçar a relação do homem com a natureza. "Comer de forma consciente, responsável e apreciar a comida" são algumas das dicas de Nick Barnard, que no final da conferência fez questão de oferecer um exemplar do seu livro Eat right ao ministro da Saúde.

O impacto das tecnologias na produção foi o tema central do último painel, em que os oradores abordaram a necessidade de se produzir de forma sustentável. A tecnologia Crisper - que permite a edição dos genomas das plantas - foi apresentada no debate por Nuno Ferrand, diretor do centro de investigação em biodiversidade da Universidade do Porto, que a considera uma "verdadeira revolução". O futuro aponta para que se produza mais, mas de forma sustentável.

Ler mais

Premium

Ricardo Paes Mamede

O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Os relatórios das instituições internacionais sobre a economia e a política económica em Portugal são desde há vários anos uma presença permanente do debate público nacional. Uma ou duas vezes por ano, o FMI, a Comissão Europeia (CE), a OCDE e o Banco Central Europeu (BCE) - para referir apenas os mais relevantes - pronunciam-se sobre a situação económica do país, sobre as medidas de política que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades nacionais, sobre os problemas que persistem e sobre os riscos que se colocam no futuro próximo. As análises que apresentam e as recomendações que emitem ocupam sempre um lugar destacado na comunicação social no momento em que são publicadas e chegam a marcar o debate político durante meses.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.