Alguém salvou a minha vida nesta noite

A fundação de Sir Elton John tornou-se um dos maiores símbolos da luta contra o VIH/sida.

David Furnish continua irritado por ter deixado que o seu marido, Sir Elton John, falasse com um falso Vladimir Putin. "Foi uma fraude muito sofisticada", diz ele, apontando-me um dedo cheio de anéis do outro lado da mesa. "Nós verificámos e eles passaram nos testes, tinham os nomes certos e os números de telefone corretos."

"No momento em que veio a chamada eu disse "por favor, por favor, vamos verificar que isto não é uma brincadeira", porque todos nos lembrávamos do falso telefonema de Sarah Palin para Sarkozy."

Quando transpirou que Elton John tinha sido enganado, aquilo deu manchetes. "Depois, claro, ligou o verdadeiro Putin", acrescenta Furnish. "Ele foi muito simpático e educado, foi muito, muito amável ao telefone."

Ser casado com Elton faz que, aparentemente, o facto de falar com líderes mundiais em alta voz no conforto da sala de estar pareça normal - tão normal como receber os Beckham para o chá ou ver futebol com o príncipe Harry.

Os burlões, um par de comediantes da televisão de Moscovo, alegaram que o presidente russo desejava falar com o músico de 68 anos sobre a legislação antigay preconceituosa que tinha levado a um rápido aumento dos espancamentos homofóbicos e forçado milhões a viver nas sombras, como acontecia antes da queda do comunismo.

No final, o ridículo parece ter valido a pena. Putin tirou realmente algum tempo ao que tinha dedicado a invadir a Síria e pegou no telefone. Ele vai mesmo encontrar-se com Elton pessoalmente para responder às preocupações deste, especialmente à da noção implícita nas leis do Kremlin de que os homossexuais são um perigo para as crianças. "Estamos em negociações com a embaixada russa agora mesmo, estamos a trabalhar para encontrar uma data", diz Furnish. Os sete membros do pessoal a tempo inteiro da Fundação Elton John de Luta contra a Sida estão já a trabalhar num dossiê de factos e estatísticas sobre o efeito pernicioso que as leis tiveram na comunidade lésbica, gay, bissexual e transgénero da Rússia, para que o seu chefe o possa usar na tentativa de influenciar positivamente o desfecho da reunião.

"A verdade é que é uma oportunidade única para ele se sentar frente a frente com alguém como o Putin e dar o seu melhor", acrescenta. "Suspeito que vai ser no próximo ano. A agenda de Elton é planeada com seis a doze meses de avanço. Não posso simplesmente metê-lo num avião e levá-lo de um lado do mundo para o outro."

Podemos ter alguma dificuldade em imaginar que um dos artistas mais histriónicos da história da música consiga alguma vez ser capaz de manter uma conversa séria com o líder mundial mais perigosamente desequilibrado do século XXI.

Certamente que toda esta encenação é apenas mais um capítulo dramático na vida de um casal de celebridades que parece ter vivido a sua vida numa nebulosa coberta de brilhos e purpurinas feita de iates e compras. No entanto, os Furnish-John estão numa cruzada para transformar o mundo num arco-íris das nações. Depois de 22 anos juntos, e com dois filhos de uma mãe de aluguer - Zachary, de 4 anos, e Elijah de 2 - eles também tiveram de crescer um pouco.

Furnish encontra-se comigo no salão do hotel St. Regis em Nova Iorque - uma casa longe de casa há mais de duas décadas. Está vestido de preto, com um lenço de seda e joias a pender de ambos os pulsos. A sua barba grisalha está bem aparada.

As datas das digressões de Elton, explica Furnish, encaixam agora nas férias escolares de Zachary - "os dois horários são colocados literalmente lado a lado", diz ele. E apesar de manterem casas por todo o mundo, o seu caríssimo ninho perto de Windsor - que foi palco dos seus celebérrimos bailes de gala durante 14 anos - tornou-se um lar permanente. "Nós costumávamos ser uma espécie de ciganos, vivendo em casas diferentes em diferentes partes do mundo", diz. "Mas agora estamos verdadeiramente convencidos de que as crianças precisam de fazer parte de uma comunidade escolar regular e não de ser retiradas da escola e levadas a viajar pelo mundo constantemente."

O VIH/sida é algo que eles sempre levaram a sério. Foi o medo da doença que fez que Elton ficasse sóbrio há 25 anos, levando-o a criar a fundação, que começou por levar as refeições a vítimas de sida moribundas que viviam perto da sua casa em Atlanta, na Geórgia. "Normalmente, eu já não deveria estar aqui."

"Eu deveria estar morto, debaixo da terra numa caixa de madeira", disse-me Elton mais tarde. "Eu deveria ter contraído o VIH na década de 1980 e ter morrido na de 1990, tal como Freddie Mercury. Ou como Rock Hudson."

O empurrão final para se tornar um militante ativo veio da luta pública do adolescente americano Ryan White (morreu em abril de 1990), um hemofílico que contraíra a doença a partir de uma transfusão de sangue, mas que se manteve solidário com a comunidade gay para ajudar a mudar a imagem da doença. "Naquele tempo, eu estava a viver uma vida de vício, muito autocentrada, e a humanidade da família White atingiu-me como um raio", diz Elton. "Aquilo fez-me recordar que ser um ser humano decente significava realmente preocupar-me com os outros e lutar por coisas para além de mim mesmo."

"Naquela época, a sida era a doença gay. À medida que os meus amigos homossexuais iram morrendo, num grande sofrimento, percebi que era nesta luta que eu, como homossexual, tinha de participar e de fazer alguma coisa. Fiquei sóbrio e dei início à Fundação Elton John de Luta contra a Sida. Desde aí que todos os dias, todos os projetos, viagens, discursos ou angariações de fundos, todas as vezes que conheço alguém que vive com VIH/sida, visito uma clínica ou pego num bebé que nasceu livre de VIH/sida reforçam a ideia de que fazer parte de alguma coisa muito maior do que nós é o que faz a vida valer a pena ser vivida."

Furnish conheceu Elton John alguns anos depois de a fundação ter sido criada. Com vinte e poucos anos num Canadá socialmente conservador, Furnish voltou para o armário depois de o ator Rock Hudson ter morrido da doença. A capa da revista People na época especulou que Hudson tinha passado o vírus à atriz Linda Evans, da série Dinastia, na sequência de um beijo nas filmagens. A abstinência total parecia ser a solução mais segura.

Furnish só começou a viver uma vida abertamente gay depois de se mudar de Toronto para Londres, como executivo da agência de publicidade Ogilvy & Mather. Ele foi sugado para o mundo glamoroso do "planeta Elton" depois de se terem conhecido num jantar. "Há uma ressaca dos tempos das sofisticadas angariações de fundos da Fundação Elton John de Luta contra a Sida", diz Furnish. "As pessoas pensam que todo o nosso interesse era dar festas com pessoas glamorosas. Na verdade, temos conseguido um tal nível de influência e eficácia no terreno que estamos a atrair parcerias de financiamento como, por exemplo, o governo dos EUA."

A Fundação Elton John tornou--se, sem alarde, uma autoridade mundial na luta contra a doença, angariou perto de 300 milhões de dólares (cerca de 280 milhões de euros) e ajudou 150 milhões de pessoas. Cerca de 900 mil mulheres com VIH positivo, a maioria em África, deram à luz bebés saudáveis, livres do vírus graças aos medicamentos providenciados pela fundação.

"Não devia haver novas infeções pelo VIH com o que temos à nossa disposição atualmente, com o arsenal de que dispomos", diz Furnish. "Nós não temos uma cura ainda, mas estes medicamentos são tão eficazes que com as informações corretas e a comunicação certa não teremos novas infeções."

A luta contra o VIH/sida, diz Furnish, já não tem que ver com a medicina. São as atitudes em relação ao vírus e à homossexualidade que estão a matar as pessoas, razão pela qual uma discussão pública com um homofóbico notório como Putin é tão importante. "Pode parecer piegas um artista falar sobre o amor, mas, na verdade, é isso que precisa de mudar", acrescenta Elton. "Nós temos a ciência: medicamentos baratos, fáceis de tomar. O que precisamos é do amor e da compaixão para garantir que os recursos são disponibilizados para que todos recebam esse tratamento. Para isso temos de parar de julgar as pessoas e preocuparmo-nos o suficiente com o que acontece às pessoas na nossa sociedade. Na maioria das vezes hoje, isso significa preocuparmo-nos com os que são pobres ou que não estejam em conformidade com os estereótipos, ou que têm pouco poder sobre o seu futuro, especialmente as mulheres jovens."

O progresso da fundação na luta contra o VIH tem sido um sucesso extraordinário. Furnish lembra que na sua primeira viagem com a fundação para a África do Sul, há cerca de 20 anos, a maioria das vítimas com quem eles tinham planeado encontrar-se tinham morrido antes que eles conseguissem chegar até elas. Agora, em muitos dos mesmos lugares, mães jovens usam T-shirts em que declaram ser VIH positivas - orgulhosas por, ao tomarem a medicação, terem sido capazes de evitar a transmissão do vírus aos seus filhos.

No entanto, existem anomalias. As taxas de infeção de VIH/sida têm vindo a aumentar na América do Sul, em parte devido a um aumento do consumo de heroína e da partilha de agulhas, mas também, afirma Furnish, devido ao estigma continuado da homossexualidade entre jovens negros. Em muitos dos países africanos onde a fundação atua as pessoas a que eles estão a tentar chegar têm pouca consciência de serem homossexuais e, normalmente, têm mulheres e namoradas, bem como parceiros do sexo masculino, ajudando à continuação da disseminação do vírus.

A guerra da propaganda continua também. Em setembro, o Papa Francisco descreveu o tipo de programas em que a fundação está envolvida como fazendo parte de um processo de "colonização ideológica", onde a aceitação de medicamentos para o VIH está quase condicionada ao aceitar a existência da homossexualidade. "Eu sou muito pró-Papa Francisco numa quantidade de coisas que ele disse e fez até agora", diz Furnish. "O histórico da Igreja Católica neste assunto é terrível. João Paulo II disse, emitiu mesmo uma mensagem oficial, de que os preservativos alastram a sida. Na minha opinião, isso é genocídio."

Para Elton John é difícil subestimar o impacto psicológico de estigmatizar a doença. Mesmo tendo assumido parcialmente numa entrevista à Rolling Stone em 1976, declarando-se "bissexual", foram precisos mais 12 anos (quatro dos quais passados num casamento heterossexual) para se assumir totalmente.

"Como homem gay que cresceu em Inglaterra nos anos 1950 e 1960, eu tinha aquilo que todos os homossexuais partilhavam, que era o estigma interiorizado", diz ele. "Quando somos ensinados desde muito novos a considerar que a homossexualidade é uma coisa suja, feia, uma aberração, mesmo ridícula, isso penetra na alma. É mais difícil protegermo-nos ou cuidar de nós mesmos, e isso faz que as pessoas que de outra forma estariam por perto se afastem. Isto é o que está a acontecer em dezenas de países em África, onde a homossexualidade é criminalizada, com a consequência de as comunidades LGBT terem demasiado medo de fazer o teste do VIH e obter tratamento devido ao receio de serem condenadas ao ostracismo ou, pior, espancadas, presas ou mortas."

A fundação acabou de receber cinco milhões de dólares (cerca de 4,5 milhões de euros) do Plano de Emergência do Presidente para a luta contra a Sida, criado durante a administração de George W. Bush, para, em conjunto, criarem serviços de aconselhamento e centros de tratamento de VIH em dez países africanos onde a homossexualidade é reprimida pelo Estado. A fundação de Elton John, por outras palavras, vai estar a funcionar como um canal clandestino para as operações do governo americano.

"Se se fizesse disto uma operação oficial do governo dos Estados Unidos, então tornar-se-ia um problema diplomático enorme", explica Furnish. "Ao passar por nós, que trabalhamos no terreno, com as pessoas nos seus próprios países, sabe-se como encontrar e fazer passar as mensagens e as informações para as pessoas que precisam de as receber."

O perfil de Elton é "uma bênção e uma maldição", confessa Furnish. Ele abre as portas que de outra maneira poderiam não ser abertas, como a do gabinete de Putin. Ele também significa que pode ser uma luta para se ser levado a sério, mesmo que os dias dos bailes extravagantes tenham acabado. Em vez disso, eles organizam jantares de angariação de fundos - neste ano, a Fundação Melinda Gates apresentou o seu projeto para a juventude.

Exclusivo The Sunday Times

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