Embriagados 20 ou mais vezes. E apenas com 13 anos

"Chocam-me estes valores em crianças. As raparigas estão a ultrapassar os rapazes"

Lugares preferidos: Bairro Alto e Santos, onde param mais jovens e não é preciso estar num espaço fechado. Marta e Pedro (nomes fictícios) têm 16 anos. Mas a primeira vez que experimentaram uma bebida tinham 14. Para ambos a estreia foi com vodka. Estavam com amigos e não quiseram ficar para trás. Pedro conta que nos dois anos seguintes era hábito ele e os amigos comprarem umas garrafas e ficar a beber. "Não ficávamos mal, talvez um pouco tocados", conta. Já ela, gostava de shots "de tequila e absinto. Bebia três ou quatro e depois vomitava. Na altura não pensava que podia ser perigoso, agora sim", referindo que com a nova Lei do Álcool, que penaliza a venda a menores de 18 anos, se tornou mais difícil.

Segundo o "Estudo sobre os Consumos de Álcool, Tabaco, Drogas e outros Comportamentos Aditivos e Dependências-2015", do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD), apresentado ontem, cerca de 30% dos jovens com 13 anos já beberam pelo menos uma vez na vida. Os valores sobem para dois em cada dez jovens desta idade quando se fala de consumos nos últimos 12 meses antes do estudo, que inquiriu cerca de 18 mil estudantes entre abril e maio de 2015 e que tem representatividade nacional.

Apesar do consumo ter descido em relação a estudos anteriores, os valores são preocupantes. Segundo Fernanda Feijão, autora do estudo, 5% dos alunoscom 13 anos já se embriagaram uma vez na vida, o que representa perto de cinco mil. Nos últimos 12 meses a percentagem é 3% (cerca de três mil) e nos últimos 30 dias antes do estudo é de 1,6% (cerca de 1600 alunos). O que é embriaguez? Cambalear, dificuldade em falar, vomitar, não se recordar do que aconteceu. O estudo quis saber também quantas vezes se embriagaram estes jovens nos últimos 30 dias. As percentagens são pequenas nos 13 anos, mas devem ser tidas em conta: 0,2% (cerca de 200 alunos) disse terem ficado embriagado 20 ou mais vezes.

Fernanda Feijão considera que "são percentagens muito importantes porque são substâncias que causam danos à saúde". E deixa um alerta: "Não é só a escola, os pais também devem estar muito atentos e chamar a atenção para os riscos que podem existir como violação, acidentes, efeitos no organismo, danos sociais com bullying ou publicações na internet".

No Binge Drinking (consumo de cinco ou mais doses numa só ocasião), 3,6% dos jovens com 13 anos já o fizeram - nos 30 dias antes do estudo - e as raparigas são as que fazem mais. Quanto a bebidas, elas preferem as misturas e as bebidas destiladas, cada vez mais consumidas de uma forma geral. "Chocam-me estes valores em crianças. As raparigas estão a ultrapassar os rapazes. A igualdade não vem por ai. O que parece mais significativo é que é mais fácil atingir um grau de embriaguez com as bebidas espirituosas. O aumento das bebidas espirituosas acontece muito à custa das raparigas", diz Manuel Cardoso, vice-presidente do SICAD.

15% toma tranquilizantes

O estudo refere que 15% dos jovens entre os 13 e os 18 anos já tomou tranquilizantes e sedativos pelo menos uma vez na vida. Mas os valores são muito diferentes entre rapazes e raparigas: 10% para eles e 19% para elas. A maioria dos medicamentos são com prescrição médica. "Isto significa uma em cada cinco raparigas. Temos uma percentagem muito elevada e por norma neste indicador estamos a acima da média europeia. Devemos perceber como é que há uma percentagem tão elevada de raparigas a precisar de medicamentos", afirma Fernanda Feijão.

Manuel Cardoso reforça que "é um valor muitíssimo alto" e que esta "é uma questão tem de ser estudada". O responsável salienta que é a primeira abordagem ao tema e que não consegue encontrar uma explicação para valores tão altos. "São consumos fundamentalmente prescritos. Em termos globais temos consumos de sedativos muito elevados", refere.

Quanto a drogas, as prevalências têm descido, à exceção dos 18 anos idade em que aumentou a experimentação. A canábis é a mais consumida (17% em jovens entre os 13 e os 18 anos). As outras drogas, como ecstasy, anfetaminas ou cocaína "têm hoje um uso muito residual, com consumos a variar entre os 2% e os 3%", referiu Fernanda Feijão.

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