Ainda sem luz nem telefone, Arganil renasce a conta-gotas

Almerindo recorda, entre destroços, o que foi a sua casa; Rosinda solta a cólera guardada na garganta; Arménio agarra-se ao que lhe sobrou; Pedro e Joana recuperam do susto entre minis e uma rara TV a funcionar: num concelho ainda a meio gás, tenta-se recomeçar

"Foi uma sensação de querer ser Deus e sentir-me impotente para fazer fosse o que fosse": atrás do balcão, Pedro Tavares, recorda as emoções de uma noite sem fim, a combater chamas até lhe dizerem "ou sai daqui agora ou não sai com vida". No final, como as casas da sua família, também o café da sede da Comissão de Melhoramentos de Monte Frio - de que assumira a gestão há um mês - escapou incólume. É lá que, entre minis e uma rara TV ligada, se afasta a solidão, numa pequena aldeia ainda sem eletricidade nem telecomunicações: um cenário que ontem se estendia a grande parte do concelho de Arganil.

O município do distrito de Coimbra renasce, a conta-gotas, dos incêndios que "deixaram 25 mil hectares de área ardida, fizeram três vítimas mortais, destruíram 50 primeiras habitações e vitimaram largas centenas de cabeças de gado" - contas do presidente cessante da Câmara Municipal de Arganil, Ricardo Alves. Comunicações, energia e abastecimento de água começaram a ser repostas na terça-feira mas, numa autarquia "com uma área muito extensa", nem o edil consegue prever quando é que esse trabalho ficará concluído.

O problema, como a paisagem pintada de negro, estende-se a quase todas as freguesias do concelho. São Martinho de Árvore é só uma delas. "Perdemos um cidadão, que faleceu queimado em casa, em Poços. Temos seis casas de primeira habitação completamente destruídas, 10/12 parcialmente destruídas, como centenas de barracões/arrumos. Morreram mais 500 cabeças de gado, a floresta foi dizimada e na maior parte dos lugares ainda não há energia elétrica nem comunicações. Quem sofre mais são as populações idosas", descreve o presidente da junta local, Rui Franco.

É ele, que a custo salvou das chamas a sede da Junta de Freguesia de São Martinho de Árvore ("só ardeu a cobertura porque eu é a minha mulher não desistimos, Deus nos livre que este edifício tivesse ardido, com os serviços que cá temos dentro"), que conforta, de mão no ombro, de Almerindo Oliveira Carvalho, de 77 anos. O septuagenário, recorda, entre escombros, o que foi a sua casa de sempre, onde morava com a mulher, em Vale de Moinho: "tinha o barracão daqui até acolá, ali eram os currais das cabras...". "Duas máquinas de cortar mato, duas moto-serras, caldeiras de aquecimento, compressor..." - enumera, desolado, no piso térreo da habitação - "ardeu tudo". "Vai ver, vamos erguer-nos todos", diz-lhe Rui Franco.

As telhas desfeitas agitam-se debaixo dos pés, enquanto Almerindo aponta em volta, sem subir ao piso cimeiro da casa - de móveis queimados e louças destruída. "Para já, não posso mexer no que está lá dentro, por causa do seguro", explica. Entre os barracões destruídos, resiste o cavalo do neto, único a dar préstimo à agua que já brota dos canos.

Água ainda não há em Portela de Cerdeira - como não há luz nem telefone. "As pessoas com furos conseguem tirar alguma e a junta e os bombeiros também nos têm trazido. Para cozinhar, usamos de compra", resume Arménio Filipe, habitante da localidade, da freguesia de Cerdeira. Para ter energia elétrica, vale a partilha entre vizinhos: "Servimo-nos de geradores, que vamos revezando por uns e por outros, porque até se esgotou o stock nas lojas...".

"Assim vamos vivendo", diz Arménio, construtor civil, a quem os fogos levaram "dois estaleiros" mas não a esperança em dias melhores. "Muitos ficaram sem animais e coisas de casa - batatas, feijões, cebolas - mas nós somos solidários e quem ficou com alguma coisa vai repartir", diz, feliz ter "conseguido salvar a casa, apesar de ter queimado os olhos" (teve até de receber assistência hospitalar). "A gente agarra-se ao que tem, que é a vida", diz, depois de lamentar a morte de duas pessoas da freguesia (as outras vítimas mortais no concelho de Arganil).

Quilómetros adiante, em Monte Frio (freguesia de Benfeita), Rosinda Nunes não está tão conformada. "A Proteção Civil levou as pessoas e não ficou cá ninguém a ajudar a defender a aldeia! Onde é que estavam os Canadair?", dispara, soltando a cólera guardada na garganta - "não deitei uma lágrima, aguentei-me muito tempo e agora explodi", desculpa-se a sexagenária, que sem luz ("um primo emprestou-nos um gerador, que já tinha as coisas na arca todas a descongelar") nem telefone, se deslocara a um extremo da aldeia, para tentar "telefonar a uma irmã emigrada na Áustria".

Então, ao fim da tarde, junta-se meia dúzia de homens no café de Monte Frio, de mini na mão e olho na TV. "Reabrimos na terça-feira, depois de fazermos limpezas e arranjarmos um gerador", diz Joana Sérgio, que assumiu com o marido, Pedro Tavares, a gestão do espaço. Para ela, estar ali, é uma maneira de recuperar do susto que ainda lhes ocupa o pensamento. Ao mesmo tempo "presta-se um serviço à comunidade" que, lentamente, começa a renascer.

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