Acidente em França pode dar força a Portugal contra Almaraz

Situação relança debate sobre segurança do nuclear na Europa. Carlos Zorrinho aponta o dedo a 66 "fukushimas" potenciais

O acidente que ontem ocorreu na central nuclear de Flamanville, em França, "sem libertação de material radioativo", segundo as autoridades francesas, poderá vir a dar força a Portugal no diferendo com Espanha por causa do novo armazém de resíduos na central de Almaraz.

Essa é a expectativa dos ambientalistas portugueses e espanhóis do Movimento Ibérico Anti-nuclear (MIA), até porque as duas centrais são exatamente do mesmo tipo. Ambas têm dois reatores de água pressurizada e começaram a operar na mesma década - Almaraz iniciou a operação em 1981 e Flamemville em 1986.

O governo português não se pronuncia sobre essa hipótese, mas o DN sabe que o acidente, e o risco potencial que este tipo de situações implicam, pode fazer parte dos argumentos a usar junto de Espanha e das instâncias europeias, no que diz respeito à central espanhola.

Para o eurodeputado Carlos Zorrinho, que nos últimos meses já questionou a Comissão europeia sobre as condições de segurança em Almaraz e a construção, ali, de um novo armazém de resíduos nucleares, este é um problema mais vasto. A central ontem acidentada, explica Zorrinho, "é uma das 66 identificadas numa comunicação da própria Comissão, em abril do ano passado, como estando fora do seu período normal de vida e que têm de ser tendencialmente fechadas". Isto, sublinha, significa que "a Europa tem um monstro nuclear com duas dimensões, a da segurança e a financeira, e que não podemos continuar a viver com 66 fukushimas sobre as nossas cabeças, e Portugal com uma fukushima sobre a cabeça, que é Almaraz".

Risco potencial e sistémico

O acidente na central de Flamanville, perto de Cherburgo, aconteceu por volta das 9.40 locais (menos uma hora em Portugal) quando se produziu "uma detonação" num ventilador da casa das máquinas do reator número 1, que causou um incêndio, prontamente debelado pelo pessoal, de acordo com a EDF, a empresa francesa de eletricidade. Cinco pessoas sofreram "uma intoxicação ligeira" e o reator foi parado por precaução, não havendo previsão sobre quando voltará a funcionar, diz a EDF, que está a investigar o caso. A empresa ainda não classificou o acidente quanto à sua gravidade, mas garante que "não houve consequências para as instalações, as pessoas e o ambiente", nem qualquer contaminação radioativa.

Foi, essa, de resto, a informação que a Agência Portuguesa de Ambiente (APA) recebeu das autoridades francesas, e publicou na sua página de Internet.

O acidente relança, no entanto, o debate sobre a segurança das centrais nucleares, tanto mais que muitas delas estão a atingir o limite de vida útil na Europa. Como diz Carlos Zorrinho, "felizmente, desta vez não houve um acidente nuclear, mas é sempre possível um risco sistémico, porque estes equipamentos são muito antigos". Por isso, embora separe as duas questões - uma "é a construção do armazém de resíduos nucleares em Almaraz, que não faz sentido junto à fronteira portuguesa, outra diferente é esta situação", sublinha -, o eurodeputado socialista admite que "um acidente como este demonstra que a solução para as centrais como a de Almaraz é o seu encerramento, não pode haver outro tipo de decisão".

É também essa a opinião dos ambientalistas do MIA, para quem o acidente confirma os riscos "nunca totalmente controlados na indústria nuclear", nas palavras de António Eloy, o coordenador do movimento para Portugal. Por isso, o MIA defende o fecho de todas as centrais nucleares, incluindo Almaraz. Em relação a esta, o movimento acredita que "Portugal é a peça-chave" para que isso se concretize e espera "do governo português uma posição mais firme", nomeadamente na próxima cimeira ibérica, em maio.

Falta saber se Almaraz estará na agenda. Tudo indica que sim e Carlos Zorrinho tem essa convicção. "O Tejo e a bacia hidrográfica estarão lá e, portanto, Almaraz, automaticamente, também", afirma o eurodeputado. O gabinete do primeiro-ministro, no entanto, não confirma e diz apenas que "a agenda ainda não está definida".

Com Carlos Ferro e Manuel Carlos Freire

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