Abrir os caminhos do coração com uma pata

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do 'The New York Times'. Histórias verdadeiras contadas pelos leitores. Leia-as no DN aos domingos

O jovem calmo tinha vindo ter comigo à procura de amor, idealmente à primeira vista. Eu fiz as minhas perguntas habituais sobre o trabalho dele, onde vivia, como passava os tempos livres. Fiz-lhe perguntas sobre os seus grandes amores do passado, o que tinha funcionado e o que não tinha funcionado nessas relações. Depois perguntei-lhe como ele se sentia se saltassem para cima dele, se o lambessem ou se ficasse com o sofá cheio de lama. "Não tenho problemas com isso", disse ele. "Posso conhecer Chance?" Ah, Chance. O cãozinho arraçado de labrador, com o entusiasmo de um cachorro pela vida, que gostava de roer as mãos dos voluntários do canil enquanto lhe púnhamos a trela.

"Porta-te bem, uma vez na vida", pedi a Chance enquanto abria a porta do canil.

Ele ficou quieto enquanto lhe pus a coleira e a trela, mas quando nos virámos para sair, ele começou aos saltos desarvorado. Fiquei com o coração apertado. Reparei então na expressão do jovem que esperava à porta. Ele estava embevecido. Só tinha olhos para Chance.

Para meu espanto, tinha-me tornado numa casamenteira. Nas tardes de sábado enfio a minha t-shirt cinzenta e dirijo-me para a Liga de Proteção dos Animais de Boston, onde ajudo as pessoas a encontrarem as suas almas gémeas caninas no meio do barulho dos latidos. Ao fazer este trabalho, eu aprendi não só a emparelhar pessoas e cães, como recebi também uma aula magistral sobre a expansividade do coração humano, uma lição de que eu muito precisava.

Ser uma casamenteira nunca esteve nos meus planos. Comecei a fazer voluntariado no canil para ajudar os cães. Apenas os cães. E quanto mais tempo passava com os canídeos, mais se desvanecia o meu amor pelos meus semelhantes.

No abrigo, eu passeava cães que haviam sido abandonados por razões triviais ou sem razão alguma. Cuidava de cachorros que tinham sido amarrados a postes públicos na rua no inverno, de outros tão magros que tinham de usar capas num clima já de primavera, porque não tinham a massa corporal necessária para se manterem quentes com a temperatura do ar a 16°. Quanto mais convivia com aqueles cães, mais me tornava uma pessoa amante dos animais.

Ser-se classificado como uma pessoa amante dos animais não é necessariamente um elogio, não quando implica que se ama os animais com uma paixão inversamente proporcional ao quanto se odeia a nossa própria espécie. Os amantes dos animais podem ser pessoas altamente críticas, sobranceiras e irritadiças, tudo o que eu me estava a tornar.

Descobri que quanto mais tempo passava no canil, menos paciente ficava com os seres humanos, até mesmo com o meu querido marido. Passear os cães animava-me, mas a minha disposição piorava quando me fixava na estupidez e descuido dos Homo Sapiens meus semelhantes. Na viagem de metro para casa, dei comigo muitas vezes a franzir a testa aos estranhos no comboio.

Depois percebi que se queria realmente ajudar os cães, precisava de fazer mais do que exercitá-los ou confortá-los. Tinha de os ajudar a sair mais depressa do abrigo, antes de a vida de canil os transformar em selvagens desequilibrados que ninguém iria adotar. Assim pedi para fazer uma formação para apresentar cães aos seus potenciais adotantes.

No início, ajudar com as adoções fez com que a minha triste opinião sobre as pessoas piorasse: eu tinha de responder a muitas perguntas tolas ("O que são aquelas coisas penduradas na barriga dela?"), e a requisitos sem sentido ("Eu quero um cão que possa deixar fechado 12 horas por dia, mas que vá correr comigo ao fim-de-semana.").

Depois, num sábado à tarde, reparei num jovem casal com aspeto de quem gostava da vida ao ar livre, a percorrer a fila de canis, parando para dizer "Olá" a cada cão. Perguntei-lhes se eles queriam conhecer algum.

"Podemos conhecer a Ciera?", perguntou o homem.

"Ciera?", espantei-me. "A sério? Quero dizer sim, claro que podem."

Nunca ninguém pediu para ver Ciera, uma jovem rafeira com pernas esguias que não parava quieta. Brilhante e preta como uma foca, ela era bonitinha, mas fazia regularmente as necessidades dentro do seu canil e a seguir corria de um lado para o outro. Ela achava divertido agarrar o nosso braço com a sua boca pequena com toda a força ou, se nos atrevêssemos a sentar no chão, a saltar-nos para a cabeça. Dava voltas ao canil como se estivesse a tomar anfetaminas.

Esta era a sua grande hipótese. Eu não queria enganar o casal sobre a dose de loucura que ela tinha, mas queria que ela encontrasse uma casa. Pedi-lhes que me seguissem até uma sala despida cujo único mobiliário era um tapete e um sofá manchados.

"É melhor ficarmos de pé", sugeri.

Quando comecei a ler as notas sobre Ciera em voz alta, larguei a trela e esperei pelo melhor. Ela começou a correr ao redor da sala, saltando do sofá, batendo nas pernas do homem e arrastando a trela atrás dela. Era uma mancha preta, de boca aberta e cheia de alegria nos olhos. Numa passagem, ela arrancou a prancheta da minha mão e continuou a correr.

Abafei um suspiro e o casal riu-se. À gargalhada. Levantei o olhar para eles. Os seus rostos brilhavam.

"Adoro-a", disse o homem.

"Eu também", acrescentou a mulher. "Queremos ficar com ela."

Toda a gente sabe que os cães podem ser grandes distribuidores de amor desinteressado. Os seres humanos, em contraste, sempre me pareceram mais recetores do que doadores, amantes inconstantes que são cautelosos com os seus afetos e corações. Mas, ao observar as pessoas a apaixonarem-se por desatinados como Ciera, percebi que a minha própria espécie anseia também por distribuir amor desinteressado, talvez até precise, algo que raramente fazemos com outros seres humanos, mesmo com um companheiro.

Um cão pode comer os nossos sapatos italianos, mas nunca nos vai evitar ou dizer: "Precisamos de ter uma conversa". Com eles, podemos ser nós próprios. No abrigo, é isso o que as pessoas fazem com os nossos cães zarolhos, velhos e com peladas, e jovens que pulam como cangurus.

Ao observar as pessoas apaixonarem-se tão completamente pelos cães, comecei a ver como os seres humanos anseiam por entregar os seus corações.

Naturalmente, há exceções: clientes finos fixados em buldogues franceses de um certo tom, ou pessoas que torcem o nariz a pit bulls, até mesmo aos cachorrinhos de focinho esborrachado. E as dificuldades das relações humanas podem impedir o amor de fluir.

Eu passei uma tarde a apresentar cão pequeno atrás de cão pequeno a um homem balofo e à sua mulher. Enquanto o homem suspirava feliz à vista de cada cão, a mulher passava a mão sobre o pelo do cão e depois cheirava os dedos de unhas pintadas para verificar as suas alergias.

"Este não. Ele faz-me fungar."

Ao fim da tarde, o homem estava sentado na entrada com a cabeça entre as mãos enquanto a mulher enfiava os dedos num emaranhado de pelo branco chamado William.

"Estás a partir-me o coração," gemeu ele.

Apetecia-me dizer-lhe para levar William e deixar a mulher para trás.

Mas a maioria de nós é como o casal de meia-idade que veio em busca de um cão adulto e pequeno que coubesse no seu apartamento T1, à beira-mar. Não tínhamos miniaturas naquele dia, mas numa tentativa desesperada apontei aos homens um pachorrento cão arraçado de pastor alemão, com bom feitio, um pelo que parecia um tapete e do tamanho de uma mota.

"Ele pode ocupar metade do sofá", disse-lhes eu, "mas vai ficar feliz deitado o dia todo".

"Ele é gigantesco!", exclamou um deles, sorrindo.

"Temos de ir", disse o outro.

Durante a hora seguinte, cada vez que eu entrava e saía da área dos canis, lá estava o casal, sorrindo para o gigante. Observando-os a apaixonarem-se pelo gigante peludo - um cão completamente diferente do que eles disseram querer - senti que a frieza que restava no meu coração em relação à minha espécie se começava a desvanecer.

Eu queria ajudá-los. Eu queria ajudar as pessoas a fazer o que tão obviamente precisavam de fazer: amar com todo o coração, com um abandono sem reticências. Eu sempre pensei no amor como uma resposta, mas este e outros casais mostraram-me que o amor é um sentimento inato, algo com que nascemos e precisamos de expressar.

Muitos de nós temos mais amor dentro do nosso coração do que aquele que sabemos utilizar, mas estamos demasiado fechados. É aí que os cães podem entrar. Com eles, podemos deixar o nosso amor fluir livremente sem medo de sermos julgados ou rejeitados. Eles são como válvulas de segurança.

Sem dúvida que eles se tornaram isso para mim. Mas, ao ver o casal a fazer ruídos de beijinhos para o pastor alemão através da porta do seu canil, percebi que tinha confiado apenas nos cães para isso. Com os seres humanos, eu tinha-me fechado. E o amor não gosta de ser fechado. É assim que se acaba a franzir a testa aos estranhos no metro.

Ver as pessoas apaixonarem-se é contagioso. Eu comecei a ficar derretida com a cena. Eu amava o cão. Eu amava o casal.

"O.K., chegou a hora de se ficarem a conhecer uns aos outros", anunciei, pegando numa trela.

Pouco depois, os três foram para casa juntos, para se encaixarem no aconchegado apartamento. Eu voltei para os canis para ajudar mais pessoas a entregarem os seus corações.

Escritor, mora em New Jersey.

Exclusivo DN/The New York Times

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".

Premium

António Araújo

Virgínia, a primeira jornalista portuguesa

Estranha-se o seu esquecimento. É que ela foi, sem tirar nem pôr, a primeira jornalista portuguesa, a primeira mulher que exerceu a profissão de repórter nos moldes que hoje conhecemos. Tem o seu nome nas ruas de algumas localidades (em Lisboa, no bairro de Caselas), mas, segundo sei, não é sequer recordada pela toponímia da sua terra natal, Elvas, onde veio ao mundo às cinco da madrugada do dia 28 de Dezembro de 1882. Seu pai era oficial de Cavalaria, sua mãe doméstica (e também natural de Elvas), seus irmãos militares de fortes convicções republicanas; um deles, Carlos Alberto, chegou a estar na Rotunda em Outubro de 1910 e a combater as tropas de Couceiro por bandas de Trás-os-Montes.

Premium

Marisa Matias

É ouro, senhores

Chegar à União Europeia não é igual para toda a gente, já se sabe. Em vários países da União Europeia - treze mais em concreto - ter dinheiro é condição de porta aberta. Já se o assunto for fugir à morte ou procurar trabalho, a conversa é bem diferente. O caso a que me refiro é o dos vistos gold. Portugal integra a lista de países com práticas mais questionáveis a este respeito. Não sou eu quem o diz, os dados vêm do Consórcio Global Anticorrupção e da Transparency International.

Premium

Germano Almeida

Parlamentares

A notícia segundo a qual dois deputados nacionais ultrapassaram a fase dos insultos verbais e entraram em desforço físico junto ou dentro do edifício do Parlamento correu as ilhas e também pelo menos a parte da diáspora onde chegam as nossas emissões, porque não só a Rádio Nacional proporcionou ao facto abundante cobertura, como também a televisão lhe dedicou largos 22 minutos de tempo de antena, ouvindo não só os contendores como também as eventuais testemunhas da lide, e por fim um jurista, que, de código em punho, esmiuçou a diferença entre uma briga e uma agressão pura e simples, para concluir que no caso em apreço mais parecia ter havido uma agressão de um deputado a outro, na medida em que tudo levava a crer ter havido um único murro. Porém, tão bem aplicado e com tanta ciência, que não houve mais nada a fazer senão conduzir o espancado ao hospital para os devidos curativos. E para comprovar a veracidade do incidente mostrou, junto a uma parede, uma mancha de sangue que por sinal mais fazia lembrar o local onde uma galinha poderia ter sido decapitada.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Desta vez Trump tem razão

A construção de uma Europa unida como espaço de paz, liberdade, justiça e prosperidade sustentável foi o maior projeto político da geração a que pertenço. É impossível não confessar a imensa tristeza que me invade ao observar mês após mês, ano após ano, como se caminha para aquele grau de exaustão e fadiga que faz pressentir a dissolução final. O que une, hoje, a Europa é a mais elementar pulsão de vida, o instinto de autossobrevivência. Não dos seus governantes, mas dos seus mais humildes cidadãos. O tumultuoso Brexit mostra bem como é difícil, mesmo para um grande país com soberania monetária, descoser as malhas urdidas ao longo de tantas décadas. Agora imagine-se a tragédia que seria o colapso da união monetária para os 19 países que dela participam. A zona euro sofreria um empobrecimento e uma destruição de riqueza exponenciais, como se uma guerra invisível, sem mortos nem ruínas, nos tivesse atingido. Estamos nisto há dez anos. Os atos políticos levados a cabo desde 2008, nada mudaram na gravidade dos problemas, apenas adiaram o desfecho previsível. Existe uma alternativa minimalista ao colapso. Implicaria uma negociação realista baseada nos interesses materiais concretos dos Estados, como aqueles casais que coabitam, mesmo depois do divórcio, para nenhum deles ter de ir morar na rua. A prioridade seria uma mudança das regras absurdas do tratado orçamental, que transformam, por exemplo, os 2,8% da derrapagem orçamental francesa prevista para 2019 numa coisa esplêndida, e os 2,4% solicitados pelo governo de Roma num pecado mortal! Contudo, os mesmos patéticos dirigentes políticos dos grandes países europeus que economizaram nos atos potencialmente redentores do projeto europeu, não nos poupam à sua retórica. A evocação do primeiro centenário do fim da I Guerra Mundial ultrapassou os limites do aceitável.