A seca vai obrigar a repensar a paisagem do Douro

Vindimas deste ano foram bem mais cedo do que o normal e prevê-se que as alterações climáticas levem à alteração da forma como se trabalha a vinha

Em Paradela, porta de entrada do rio Douro em Portugal, a água corre tranquila. Mas os efeitos da seca severa sentem-se por toda a região, do planalto mirandês às terras demarcadas onde se produz o valioso vinho duriense. Neste ano, as vindimas foram mais cedo do que nunca. E no futuro prevê-se que as alterações climáticas levem a alterar a forma como se trabalha a vinha e outras culturas. Durante esta semana, o DN publica trabalhos sobre a seca que o país atravessa

Situada no extremo Nordeste do distrito de Bragança, a aldeia de Paradela, em Miranda do Douro, tem a particularidade de ser a localidade do país onde o Sol nasce primeiro. O ponto mais oriental do território português goza ainda de outro privilégio: é a porta de entrada do rio Douro em Portugal. O miradouro situado junto às arribas é o spot perfeito para dar as boas-vindas às águas que correm por entre imponentes rochedos cobertos de vegetação, libertas da última barragem do troço do Douro internacional, a do Castro, que separa Portugal e Espanha, e perante a vigilância altaneira de um bando de aves de rapina que também têm na região o seu habitat natural.

Por estes dias, o Douro entra mais tranquilo do que o habitual em alturas de outono, mas no interior da aldeia de Paradela as fontes e as nascentes continuam a jorrar água sem sinais de escassez. Um par de burros mirandeses que Natália Gomes passeia, de volta do pasto, detém-se a beber junto do tanque central. "Aqui a falta de água ainda não é muita", constata esta transmontana de 58 anos. "Até os espanhóis vêm cá abastecer-se", acrescenta Catarina Vicente, de 83, à porta de casa, apontando para o fundo da paisagem, "já ali", onde a terra passa a ser Espanha.

A ilusão de abundância que jorra da fonte quase não permite crer que a nascente do Douro, lá longe do dia-a-dia de Paradela - nos picos de Urbión, na província espanhola de Soria -, tenha chegado a secar completamente, como "mostrou na televisão", numa imagem que serviu de poderoso alerta sobre a seca severa que a Ibéria atravessa. Mas estes mirandeses sentem também que "o tempo está a mudar".

E se nas fontes não se dá pela falta de água, na pastagem dos animais é notória a consequência de meses a fio sem se ver chuva - terrenos secos e áridos que os primeiros pingos de água caídos do céu, precisamente neste dia, não chegam para atenuar.

Vindima em agosto

Do planalto mirandês, o Douro desce até às terras demarcadas onde se produz aquele que é o maior cartão-de-visita da região: o seu vinho. A importância económica da atividade vitivinícola faz recair sobre a cultura da vinha grande dose de atenção em relação aos efeitos dos cada vez mais frequentes períodos de seca prolongada. Neste ano, as temperaturas muito quentes, acima da média, fizeram antecipar o início das vindimas para mais cedo do que nunca, logo na primeira quinzena de agosto, em boa parte da região. A nível das quantidades de produção as consequências não foram ainda muito gravosas. Segundo os dados divulgados pelo Instituto da Vinha e do Vinho, a produção no Douro subiu 6% em 2017, embora abaixo dos 20% previstos. Mas é sobretudo o futuro e a adaptação da cultura da vinha (e não só) às alterações climáticas previstas que levantam as maiores preocupações. "É expectável que haja impactos significativos se não forem tomadas medidas de adaptação", admite João Santos, investigador do Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas (CITAB) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Apesar de a vinha gostar de "algum stress", adaptando-se bem a ambientes quentes e secos, algumas não resistem à secura extrema - "as mais fragilizadas, como acontece com o ser humano: as mais velhas, as mais novas ou as doentes", exemplifica. Por isso é importante um planeamento atempado na adaptação a um clima que se prevê cada vez mais quente no futuro.

O debate sobre a rega

Uma questão relevante, que tem ganho cada vez mais eco entre as vozes dos produtores, é a da rega, por norma proibida na região demarcada do Douro, com exceção de casos extremos previstos na lei. "Já o meu avô dizia que a única água que a videira deve beber é a do suor dos seus trabalhadores", recorda Pedro Garcias, proprietário da Quinta de Vale das Taipas, em Muxagata (Foz Coa), de onde retira as uvas com que, desde 2009, produz os vinhos Mapa.

Mas este duriense, natural de Alijó, que não tem "memória de uma vindima tão precoce e tão difícil quanto a deste ano", concede que "tem de ser reequacionada a forma como se trata as vinhas". "Eu não rego as videiras nem sou adepto da rega, mas reconheço que em algumas zonas mais secas um pouco de água ajudava." João Santos concorda que o uso da rega "terá de ser obrigatoriamente revisto", mas isso levanta outros problemas, como a gestão dos recursos hídricos, numa zona onde não há grandes reservatórios. "Não podemos ir todos buscar água ao Douro, senão o rio acaba", ilustra Pedro Garcias, que aponta ainda os elevados custos do regadio: "É muito caro regar no Douro, pela sua orografia."

Incontornável é que este novo clima "levanta nos desafios", diz o produtor. E pode mesmo alterar a paisagem da região demarcada do Douro. "Vai ter de se rever a tipicidade dos vinhos produzidos. E isso não é uma questão apenas específica do Douro, mas de todas as regiões", aposta o investigador João Santos. "Tem de ser feita uma análise caso a caso, porque o Douro tem muitos microclimas, cotas diferentes, exposições solares diversas, e há que ver que castas se adaptam melhor a cada caso e ao tipo de vinho que se quer produzir. Mas pode levar a uma alteração da paisagem da vinha, das cotas mais baixas para cotas mais altas, onde o clima é mais fresco. As zonas que eram ótimas há 50 anos, junto ao rio, nas zonas mais quentes, se calhar já não serão as melhores no futuro", explica.

Pedro Garcias, que já tem as suas vinhas a quase 500 metros de altitude, reforça: "Se calhar não podemos fazer viticultura em todo o lado. Por alguma razão, no Douro, os antigos só faziam vinho do Porto. Para os vinhos do Porto não vai haver grande problema. Para os vinhos tranquilos é que há mais necessidade de rega."

O problema estende-se a outras culturas, como a do olival (quebras de 15% na produção de azeite e de 30% na quantidade de azeitona) ou a do castanheiro (produtores de castanhas da região reportam quebras na ordem dos 50%). "Se calhar temos de ir ao Norte de África e tentar perceber se há variedades regionais, no olival ou no amendoal, que se adaptem melhor à secura severa. Ou se não teremos até outras plantas que possam tornar-se mais lucrativas, como a alfarrobeira. Há plantas, como o castanheiro, que estão claramente ameaçadas na região", diz o investigador João Santos.

Produção hídrica parada em Vilar

Em alturas de seca, ganha especial relevância a capacidade de armazenamento de água. Ao longo da bacia hidrográfica do Douro em território português, com uma área total superior a 19 000 km2, são várias as barragens e as albufeiras: cinco delas no curso do Douro e dezenas de outras espalhadas pelos afluentes. Uma delas, a de Vilar-Tabuaço, no rio Távora, está com a produção hídrica parada desde junho, para assegurar o abastecimento de águas às populações de Moimenta da Beira, Tabuaço e Penedono, concelhos do distrito de Viseu, onde a seca se fez sentir de forma mais severa, revela Vítor Silva, responsável pelas centrais hídricas da EDP, cuja produção a nível nacional está com uma quebra de 60% face ao ano passado (compensada pelo aumento da produção de energia eólica, a gás e a carvão). "A gestão das nossas albufeiras é efetuada em articulação com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), e onde existem captações de água o consumo humano é sempre considerado prioritário", diz.

Vítor Silva diz que o rio Douro é dos "mais suscetíveis" às alterações em alturas de seca porque, "tal como acontece com o Tejo, trata-se de um rio internacional e já sofre consequências da gestão feita em Espanha". "No Douro, como no Tejo, a EDP não tem albufeiras com grande capacidade de armazenamento e consequentemente não tem grande capacidade de gerir a exploração. Estamos bastante dependentes do que é feito em Espanha", explica. Mas garante: "A gestão que tem sido feita tem sido suficiente para as necessidades." O único pedido excecional que a EDP recebeu na gestão das albufeiras do Douro foi das Águas do Norte para manter a cota de água no Carrapatelo acima do que seria normal, para abastecimento da Régua, "porque uma das captações deles não tinha tanta capacidade quanto a necessária".

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