A pioneira que descobriu o VIH 2 e impulsionou a luta contra a sida

Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa homenageou a investigadora e professora catedrática jubilada Odette Ferreira. Auditório que ela ajudou a construir tem agora o seu nome

Quando se deparou em 1985, em amostras de doentes provenientes da Guiné-Bissau, com um vírus HIV com um comportamento diferente, a investigadora e professora catedrática da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, (FFUL) Odette Santos Ferreira, percebeu que aquilo tinha de ser estudado. No ano seguinte, publicava na revista Science, com a sua equipa luso-francesa, a descoberta de um segundo vírus da sida, o VIH-2.

Foi um trabalho pioneiro: mudou os estudos epidemiológicos e o diagnóstico da sida a nível mundial. Mas não foi o único. Determinada, corajosa, incansável, Odette Ferreira presidiu com a mesma força e espírito visionário, entre 1992 e 2000, à Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA, para prosseguir, desde aí, o seu trabalho académico, na investigação e no ensino - que mantém, mesmo jubilada. Ontem a FFUL, "a sua casa de sempre", prestou homenagem " à professora catedrática, cientista pioneira e mulher inspiradora", atribuindo o seu nome ao auditório da faculdade.

Distinguida com inúmeros prémios e condecorações nacionais e internacionais - França condecorou-a em 1975 com a Chevalier dans l'Ordre des Palmes Academiques e, em 1987, com a Chevalier de la Légion d' Honneur -, Odette Ferreira recebeu o Grau de Comendador da Ordem Militar de Santiago de Espada da Presidência da República em 1988, ganhou as Medalhas de Honra da Ordem dos Farmacêuticos (1989) e da Universidade de Complutense de Madrid (1995), foi o primeiro prémio da Universidade de Lisboa (2007), e tem ainda um prémio de investigação com o seu nome, criado em 2010 pela Ordem dos Farmacêuticos. A homenagem de ontem, porém, sentiu-a de forma "muito especial". "Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida", confessou, emocionada. "De todos os prémios e distinções, este é o que me toca de maneira muito especial, por isso agradeço aos alunos que fizeram esta proposta, e espero que este auditório, que ajudei a construir [foi sua a iniciativa que levou à construção do atual edifício da Faculdade de Farmácia] acolha muitos mais momentos de alegria e de boas concretizações da faculdade."

Foi dos alunos, da Associação Académica da FFUL que partiu, há um ano, a ideia da homenagem - os da nova geração, portanto, que Odette Ferreira, que mantém a sua rotina de ir diariamente à faculdade, continua a inspirar. Os testemunhos dos alunos, muitos dos quais hoje seus colegas e amigos, sucederam-se ontem no auditório com o seu nome, a confirmá-lo.

Presente na homenagem, Maria de Belém, ministra da Saúde entre 1995 e 1999, numa altura em que Odette Ferreira presidiu à Comissão Nacional de Luta Contra a Sida, lembrou a sua "visão e determinação"; a "mulher vanguardista, corajosa e com capacidade de realização que deixou uma marca na vida das pessoas, para melhor", e que conquistou "o respeito pelas mulheres na ciência e colocou Portugal na ciência mundial".

Um episódio durante o trabalho de investigação que levou à descoberta do VIH-2, partilhado por Maria de Belém, resume a pessoa desafrontada e corajosa da homenageada: foi ela própria que levou debaixo do casaco, para Paris, o frasco com a amostra que permitiu a identificação do novo vírus no laboratório de Luc Montagnier, com quem Odette Ferreira colaborava no Instituto Pasteur. "Tinha de ser conservada à temperatura de 37 graus, mas teve sorte por aquele ser um tempo em que não tínhamos ainda de despir os casacos no aeroporto", comentou Maria de Belém, arrancando uma gargalhada aos presentes. "Hoje seria acusada de bioterrorismo, como nos filmes que se veem por aí."

Mais tarde, na Comissão Nacional de Luta Contra a Sida, Odette Ferreira manteve-se fiel à sua marca: foi ela que lançou o programa de troca de seringas que contribuiu para reduzir drasticamente a transmissão da sida entre toxicodependentes - foi muitas vezes ao Casal Ventoso falar com eles -, foi ela que ajudou a derrubar os mitos da época sobre a transmissão da doença. Foi ela também que criou os primeiros apoios para os doentes que não os tinham.

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?