A internet pensa que eu ainda estou grávida

Quando cheguei a casa abri a aplicação e terminei a minha gravidez virtual com um toque num botão. A aplicação respondeu imediatamente com um e-mail de consolação e limpou os meus dados. Foi então, quando o avatar de chocolate desapareceu, que eu finalmente me deixei ir e chorei.

Descobri que estava grávida da maneira normal: fiz um teste de gravidez que comprei na farmácia mas não fui ver o resultado imediatamente. Há muito tempo que eu o meu marido e estávamos a tentar ter um filho e tinha sido um ano difícil, por isso evitei olhar para a caneta o máximo tempo que consegui para lhe dar tempo para pensar na resposta que me ia apresentar.

Enquanto estava a tomar banho materializou-se um belo sinal positivo de cor magenta.

Corri para o quarto e lancei-me sobre meu marido ainda adormecido com um grito de alegria. Tentei falar, mas arruinei o momento ao dar a notícia com a voz embargada e estridente. Enquanto eu chorava, ele abraçou-me e chamou-me querida.

Estávamos os dois imensamente felizes. Como muita gente de vinte e poucos anos, eu tenho uma aplicação para quase todas as coisas importantes na minha vida. Tenho um monitor de saúde que ignoro, um monitor de orçamento que ignoro, uma aplicação para pagar as minhas contas que tento ignorar e outra que monitoriza o meu período e com a qual sou obcecada.

Todas as semanas verificava religiosamente o meu humor no monitor do período juntamente com a minha temperatura, a viscosidade de vários fluidos, quantas vezes eu e o meu marido fazíamos sexo, se o esperma estava presente, etc. A aplicação tinha um conhecimento mais íntimo do meu comportamento reprodutivo do que o meu marido ou qualquer médico.

No dia do meu teste de gravidez positivo entrei na aplicação para partilhar a boa notícia. Quando o fiz, ela sugeriu uma aplicação de gravidez da qual fiz o download imediatamente. Estava cheia de cores brilhantes e de gráficos interativos.

A aplicação usava palavras como zigoto e blastocisto, que não eram nomes de Pokémons, mas sim estágios de desenvolvimento, em que tronco cerebral ou grupos de células formavam o que viriam a ser ouvidos, rótulas, narinas, dedos, lábios e tudo o mais. Com um simples toque no ecrã eu podia ver o tamanho das mãos do meu bebé, antecipar as coisas novas e estranhas que o meu corpo iria fazer nos próximos dias e semanas, e ler blogues de mães novas e experientes. Tudo o que me foi pedido foram algumas informações pessoais básicas: e-mail, endereço, idade e data da minha última menstruação.

Digitei toda essa informação sem pensar duas vezes. De acordo com a minha aplicação, o meu bebé era do tamanho de um botão de alfazema: minúsculo, perfeito e meu.

Abortei um mês depois. Aconteceu por volta das duas horas da manhã do dia 27 de dezembro, dois dias depois de termos comunicado às nossas famílias, no dia de Natal, que estávamos à espera de bebé.

Tive o aborto perfeito. Não sou eu que o digo; a médica usou exatamente essas palavras enquanto tinha a mão entre as minhas pernas. Em casa, o meu corpo tinha rejeitado a gravidez e o meu útero já havia recuado para a posição pré-gravidez.

A médica garantiu-me que dentro de um ou dois dias o inchaço iria desaparecer e tudo voltaria ao normal. Ela ficou impressionada.Tentei sentir-me lisonjeada, mas nunca fui boa a receber elogios. "Obrigada", respondi.

A médica tratava-me como se eu fosse de vidro. Quando descrevi a massa que tinha expelido anteriormente e que poderia caber na palma da minha mão em concha, ela estremeceu com empatia e confirmou que era improvável que eles pudessem ter salvo a gravidez.

"Sim", foi a minha resposta. "Também pensei isso."

Depois perguntou-me pela terceira vez se o meu marido sabia onde eu estava. Achei normal a sua preocupação. Eu tinha o cabelo por lavar e nadava dentro de uma camisola do meu marido, já usada por ele. Tinha ido comprar pensos higiénicos às três da manhã e passado horas a andar entre o meu quarto, o sofá e a casa de banho tentando aliviar as minhas dores de parto, enquanto esperava que a clínica abrisse às dez horas.

Sim, eu estava bem, disse mais uma vez à médica. Sim, o meu marido sabia que eu estava grávida. Eu não tinha pensado que fosse necessário ele acompanhar-me para ser vista, mas tomei nota mentalmente para o trazer comigo se alguma vez voltasse a passar por isto.

Depois de a médica ter saído, a enfermeira perguntou-me se eu estava bem.

Assegurei-lhe que sim. Passei as semanas seguintes a assegurar às pessoas que estava bem.

"Uma em cada três primeiras gestações termina em aborto", dizia.

Ou "eu realmente nunca me senti grávida".

O que era verdade. A coisa mais próxima do real na minha gravidez, curiosamente, tinha sido o avatar do botão de alfazema na aplicação do meu telemóvel que tinha crescido até ao tamanho de uma pepita de chocolate antes de morrer.

Quando cheguei a casa abri a aplicação e terminei a minha gravidez virtual com um toque num botão. A aplicação respondeu imediatamente com um e-mail de consolação e limpou os meus dados. Foi então, quando o avatar de chocolate desapareceu, que eu finalmente me deixei ir e chorei.

À medida que os meses passavam, sentia-me cada vez pior em relação ao aborto. Não era que tivesse afetado a serenidade ou a aceitação na altura. (Senti-me realmente no controlo da situação e um pouco desligada.) Sentia-me grata por o meu corpo ter feito exatamente o que tinha sido projetado para fazer.

Mas à medida que o tempo foi passando dei comigo a chorar em momentos inesperados ou muito na defensiva quando alguém que não tinha conhecimento do que se passara me perguntava se estávamos a pensar ter filhos. Enquanto isso, todos os marcos que eu tinha antecipado chegaram e partiram: a primeira ecografia, ouvir o batimento cardíaco, o desenvolvimento das unhas, a revelação do sexo do bebé e assim por diante.

Se eu estivesse grávida, cada uma dessas fases me teria enchido de emoção, ansiedade e deslumbramento. À medida que cada não marco chegava, eu ficava acordada à noite imaginando a pequena pepita de chocolate a crescer até ao tamanho de uma noz e, em seguida, de um pêssego, enquanto a tristeza tomava conta de mim e ficava comigo até eu adormecer.

Eu não tinha percebido, no entanto, que quando tinha dado entrada das minhas informações na aplicação da gravidez a empresa tinha, em seguida, partilhado essas informações com grupos de marketing que tinham as novas mães como alvo. Embora tenha dado entrada do meu aborto na aplicação e deixado de a usar, essa mudança de estatuto não foi aparentemente comunicada.

Sete meses depois do aborto, poucas semanas antes da data prevista para o meu parto, cheguei a casa do trabalho e encontrei um pacote no tapete da entrada. Era uma caixa de leite em pó para bebé com a seguinte nota: "Todos podemos fazê-lo de forma diferente, mas a alegria da paternidade é algo que todos nós partilhamos."

Levei a caixa para dentro e li o cartão de felicitações que empurrava gentilmente as jovens mães na direção da alimentação com leite em pó. Examinei os vários tipos de leite e interroguei-me sobre a qualidade nutricional de um produto que podia ficar ao sol durante horas antes de ser consumido por um ser recém-nascido.

Depois de pôr os pacotes de leite de volta na caixa, tirei uma fotografia e mandei uma mensagem para a minha melhor amiga. "Bem, a internet ainda pensa que estou grávida", escrevi. "E agora talvez o carteiro também."

Depois ri-me, que outra coisa poderia fazer? Parecia ridículo que a única prova remanescente da minha gravidez fosse um produto enviado por engano, que eu nunca tinha tido intenção de usar, por pessoas a quem eu nunca tinha dito de uma empresa da qual nunca tinha ouvido falar. O meu marido e eu tínhamos tido o cuidado de contar apenas à família e aos amigos mais próximos sobre a minha gravidez. Nós não queríamos partilhar a notícia para além desse círculo restrito até ter passado o primeiro trimestre, por razões óbvias: nós não queríamos dar explicações se alguma coisa corresse mal.

Depois de passarmos meses a gerir cuidadosamente as nossas notícias, foi a internet, entre todas as coisas, que estragou o nosso plano. A mesma internet que parece saber tudo sobre nós - os programas de televisão a que assistimos, os soutiens que eu prefiro, as nossas filiações políticas e religiosas - não fazia ideia de que o nosso bebé tinha morrido.

Poderia ter ficado chateada com isso, mas em vez disso ri-me. E encontrei conforto no riso.

Parte de mim gostou da ideia de que uma entidade faminta de dados como a internet, que está tão intimamente envolvida em cada um dos aspetos mais triviais das nossas vidas, tenha perdido completamente a notícia mais importante de todas. Também gostei de que o nosso bebé se mantivesse vivo na base de dados de alguém.

No que respeita à internet, a minha gravidez prosseguiu normalmente e eu dei à luz e tornei-me mãe no mês passado. Daqui a dois anos ela provavelmente irá supor que eu estou a lidar com o treino de tirar as fraldas e enviar-me-á amostras de cuecas de treino. E dentro de cinco anos, certamente aparecerá com ofertas de material escolar para o meu aluno do jardim-infantil.

Onde é que isto irá parar? Um dia ela pode pensar que eu estou preocupada com um fundo universitário insuficiente e, em seguida, expressar a sua inquietação sobre se o meu marido e eu estamos a lidar bem com o nosso ninho vazio.

No final, porém, é este o pensamento de que mais gosto: a minha pequena pepita de chocolate, há muito tempo apagada, está de facto lá fora em algum lugar, flutuando no ciberespaço, a desestabilizar a internet.

Exclusivo DN/The New York Times

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