A geração que começou a fazer Ciência Viva ainda na escola

A Ciência Viva faz 20 anos. Estas são histórias de quem participou nas suas atividades e ali encontrou inspiração para a vida

Se não fosse pelos frascos a borbulhar, cheios de algas, sobre uma mesa, a sala estaria vazia. Mas não será assim por muito tempo, diz João Nunes. Dentro de poucos meses há de andar por ali mais gente e os recipientes serão bem maiores. Aquele é ainda "um projeto-piloto de demonstração laboratorial", explica o jovem empreendedor de Oliveira de Hospital que está a fundar ali um polo tecnológico, para criar mais emprego qualificado e ajudar a desenvolver a região. Mas, para este engenheiro mecânico de 33 anos, doutorado em energia e ambiente na Universidade de Coimbra, e agora jovem empresário, esta história começa lá atrás, em 1998, na Escola Secundária de Oliveira do Hospital, quando tinha 15 anos e um dos professores propôs que participassem num projeto Ciência Viva. "Lá estavam já as microalgas", diz ele, a rir.

A ideia do professor José Carlos Santos era reproduzir em aquários vários ecossistemas aquáticos. A verba para os materiais veio do projeto, que também deu o apoio científico, e João e os colegas recriaram na escola mares, rios e climas de todo o mundo.

"Havia o aquário do Amazonas, o do Pacífico, outro do Índico, um do Atlântico, com água do mar que fomos buscar à Figueira da Foz, um de água doce, daqui da região da beira-serra, e um terrário com espécies de cá também", conta.

"Para nossa grande pena, não tínhamos futebol, dedicámo-nos aos aquários", conta, divertido. "Vínhamos à escola aos fins de semana e nas férias, para tratar dos peixes, produzíamos nós mesmos as microalgas, para os alimentar, criámos um sistema de controlo para monitorizar a produção. Aprendi na altura coisas que estou hoje a usar no projeto das microalgas."

Correu tão bem que o então ministro da Ciência Mariano Gago (falecido no ano passado), que criou o programa Ciência Viva em 1996, quis conhecer o projeto. "Veio cá ver o nosso trabalho", recorda João Nunes. "Ter participado no projeto durante dois anos e meio foi um marco para a minha formação cultural e fez o click para o meu perfil de hoje, entre a indústria e a investigação", garante.

Dos alunos mais ligados ao projeto - "éramos uns 15", recorda -, só ele permaneceu em Oliveira do Hospital. Ou melhor, regressou, depois de ter passado um tempo como investigador em Lisboa, no Instituto Superior Técnico, e depois na Universidade de Coimbra. "Mas seguimos todos percursos ligados às tecnologias", sublinha.

João Nunes criou a sua empresa em 2010, a BLC3, direcionada para a inovação, que inclui uma incubadora de empresas com 28 investigadores, e está agora a criar em Lagares, perto da cidade, um campus de tecnologia e inovação na antiga Acibeira, que devia ter albergado um parque empresarial, mas ficou mais de 20 anos ao abandono.

Agora, o espaço renasce, e prepara-se para o arranque dos vários projetos. A produção de biocombustível a partir de resíduos florestais, a criação de cogumelos e a produção das microalgas, que servirão para filtrar os efluentes difíceis de tratar das queijarias da região, são alguns deles. Outro, já a rolar há três anos, é o Lab-Iduca, uma espécie de "Ciência Viva" à escala local, que põe os miúdos a fazer atividades científicas nas escolas. "Já participaram perto de dois mil alunos." Afinal, as boas experiências são para repetir.

Passar férias num laboratório

Criada em 1996 por Mariano Gago, para levar a experimentação científica às escolas, a Ciência Viva completa neste ano duas décadas de atividade intensa. O que começou por ser um programa baseado em projetos de investigação, envolvendo alunos e professores das escolas, do básico ao secundário, com a colaboração de cientistas e centros de investigação - e que se revelou um sucesso de popularidade -, cresceu rapidamente. Diversificou as suas ações, chegou às famílias, propôs atividades de verão, criou estágios em unidades de investigação para os alunos do secundário durante as férias e expandiu-se numa rede de centros por todo o país. E, se criou uma geração de jovens mais atentos, ativos e curiosos, não é menos verdade que mobilizou e marcou também os professores, investigadores e as famílias que participaram em toda esta dinâmica.

Graças ao seu próprio êxito, o programa ganhou traços de movimento social, como mostrou o estudo "Cultura Científica e Movimento Social, Contributos para a Análise do Programa Ciência Viva", que a equipa do sociólogo Firmino da Costa publicou em 2005. A Ciência Viva influenciou, assim, milhares de jovens a seguir estudos nas áreas das ciências e tecnologias, ajudou a promover o sentido crí-tico nos mais novos, gerou uma maior abertura à ciência na sociedade portuguesa, e é hoje uma referência internacional na promoção da cultura científica.

João Nunes, um dos mais de meio milhão de estudantes que nestes 20 anos participaram em projetos Ciência Viva, é um desses exemplos, como ele próprio reconhece: "Para nós, que passámos por essa experiência, a ciência tornou-se importante nas nossas atividades profissionais e económicas, e até no dia-a-dia."

Isabel Castanho, 27 anos, que está a fazer o doutoramento na Universidade de Exeter, no Reino Unido, com uma bolsa da Alzheimer Society daquele país, tem opinião idêntica. No seu caso, o click foi um estágio de férias num laboratório, no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), na Universidade do Porto. "Marcou--me, sem dúvida. Percebi que era aquilo que queria fazer", diz.

Em 2005, ela estava no 11.º ano, na Escola Secundária da Boa-Nova, em Leça da Palmeira, e um dia deparou-se com o cartaz a anunciar os estágios nas férias. "Nesse ano, tínhamos dado as células e o DNA e gostei imenso. Fui ao site, fiz uma busca nos projetos e concorri ao IBMC", conta. Foi selecionada.

Durante duas semanas esteve num laboratório como uma cientista a sério, e ali aprendeu coisas novas, como extrair o DNA de bactérias, para poder decifrá-lo. "Vi pela primeira vez uma micropipeta e aprendi as coisas básicas que continuo a usar no meu trabalho", lembra. "Foi lá que aprendi a fazer um gel de agarose, técnica que ainda hoje uso para separar os fragmentos de DNA. Mais tarde, na licenciatura em Análises Clínicas, no Instituto Politécnico do Porto, percebi que tinha conhecimentos que os meus colegas não tinham, e que fizeram a diferença."

Depois de concluir o mestrado em ciências da saúde, em neurociências, na Universidade do Minho, Isabel Castanho procurou outras paragens e encontrou na Universidade de Exeter a possibilidade de continuar a fazer o que gosta: investigação. Agora sobre a epige-nética (as alterações no DNA) na doença de Alzheimer, em ratinhos.

De aluno a monitor

Gonçalo Silva tinha 17 anos quando Lisboa viveu os dias intensos da Expo 98, e foi ali que ele se cruzou pela primeira vez com a Ciência Viva. "A nossa professora de química na escola secundária da Amadora, Adelina Machado, propôs-nos participar no Acampamento Virtual Ciência Viva. Tínhamos de passar uma semana na Expo, a visitar os pavilhões e a recolher informação sobre os oceanos, para construir uma página na internet, numa altura em que isso era difícil de fazer. Mas foi muito motivador, aprendemos imenso", recorda o jovem biólogo de 34 anos, hoje a fazer um pós-doutoramento em ecologia de peixes, no ISPA, instituto Universitário.

O Ciência Viva, diz, "abriu-me perspetivas, deu-me conhecimentos e apontou-me à investigação". Mas Gonçalo Sousa também conhece a Ciência Viva do lado de lá, e isso ensinou-lhe outras coisas. "Confesso que aos 17 anos não me apercebi bem da dimensão do programa, só mais tarde, quando trabalhei durante ano e meio no Centro Ciência Viva do Algarve, em Faro, onde fui monitor e responsável pelos aquários, compreendi o seu verdadeiro alcance." Um alcance, diz, "que permite aos jovens, em particular, o acesso ao conhecimento, mas também ao público em geral, às famílias, aos mais velhos e aos pequeninos do jardim infantil". Com estes, por exemplo, Gonçalo aprendeu a usar o filme À Procura de Nemo para lhes falar de peixes. E muitas vezes foi a escolas, incluindo do primeiro ciclo, participar em atividades Ciência Viva. "É importante naquelas idades, porque desperta a curiosidade e o gosto pelo conhecimento", remata.

Inovação na área da saúde

Ana Ferraz, 29 anos, investigadora no Centro Algoritmi da Universidade do Minho, onde concluiu há pouco o doutoramento em engenharia eletrónica e de computadores, tem uma experiência diferente. Já estava a fazer a licenciatura no Instituto Politécnico do Cávado e do Ave quando foi selecionada pela Ciência Viva, em 2008, para ser a participante portuguesa da iniciativa Jovens na Sociedade do Conhecimento, em Paris.

Ana já fazia a sua própria investigação - desenvolveu um protótipo portátil de baixo custo para determinar com rapidez o grupo sanguíneo, em situações de emergência, que lhe valeu o primeiro lugar na categoria de cidadania na final mundial da Imagine Cup da Microsoft, na Rússia, em 2013. Mas, daquela viagem a Paris, recorda a "experiência muito enriquecedora, o contacto com outros jovens dinâmicos".

Depois disso Ana Ferraz participou noutras iniciativas Ciência Viva, como a Noite Europeia dos Investigadores, em 2013, na qual apresentou a sua invenção e, no ano passado, no Festival Nacional de Biotecnologia, onde mostrou já a versão mais atualizada do seu protótipo, melhorada durante o doutoramento, e que ela agora quer disponibilizar à comunidade. Já está, aliás, a trabalhar nesse sentido e os prémios conquistados, incluindo o Nação Inovadora, que recebeu em dezembro no Pavilhão do Conhecimento, vão dar uma grande ajuda.

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