A boia telecomandada que é um Ovo de Colombo

A ideia surgiu, inesperada. Depois Jorge Noras desenvolveu os sistemas eletrónicos, registou a patente e montou uma fábrica. A U-Safe está a chegar

No dia em que fez 45 anos, Jorge Noras teve um daqueles momentos de dúvida e de descoberta. Tu-cá-tu-lá com as entranhas das máquinas - há muito que a Bombardier o tinha ido buscar para ele desenvolver novos sistemas para os motores das suas motos de água - sentiu que podia fazer muito mais. "Com os meus conhecimentos e experiência, lembrei-me que podia arranjar novas soluções técnicas para pessoas com problemas físicos e motores", conta.

Isto foi há oito anos. O caminho que fez desde então, com muita preocupação e obstáculos q.b. pelo meio, acabou por conduzi-lo a bom porto, com a criação da U-Safe, uma boia telecomandada que ele próprio inventou, desenhou e desenvolveu nos mais pequenos pormenores dos sistemas mecânicos e eletrónicos.

"Primeiro lembrei-me de criar uma moto de água para socorro a náufragos." Um veículo assim teria de ser mais leve e manobrável. Idealizou a máquina, fez os desenhos e chegou a fazer uma candidatura a fundos europeus, mas não ganhou. Desistiu da ideia.

Hoje, olhando para trás, fica satisfeito, porque foi esse insucesso que abriu caminho ao que se seguiu e que é um verdadeiro ovo de Colombo: uma boia telecomandada, capaz de ir buscar sozinha, e mais rapidamente do que qualquer nadador-salvador alguém em dificuldades no mar - ou numa piscina, num lago, na albufeira de uma barragem, num rio...

Aconteceu num domingo, em 2012, já lá vão cinco anos. "Estava em casa, o que até nem é normal ao domingo à tarde, adormeci no sofá e quando acordei ocorreu-me a ideia da boia", recorda Jorge Noras.

Da ideia à materialização do equipamento pronto a funcionar passaram mais de dois anos, com muitas noites às voltas com papéis e em frente ao computador, em colaboração com um amigo, à procura das formas certas, a desenhar as peças com a dimensão exata, a inventar máquinas para as construir e a desenvolver a eletrónica necessária. E depois, concluído o primeiro protótipo, chegou o tempo dos testes na água, em diferentes condições, com ondas e sem ondas, com frio e com calor, mais longe e mais perto do alvo.

A boia, desde 2014 com patente válida para 68 países, incluindo os seus sistemas inovadores, está prestes a entrar agora na fase final de todo este processo: a fabricação em série, para ir então para o mercado e começar a ser utilizada onde é necessária. A bordo de navios, em praias e piscinas e onde mais houver pedidos nesse sentido.

Uma chuva de pedidos

No espaço vazio e ainda a cheirar a novo da fábrica acabada de inaugurar, a meia dúzia de quilómetros de Torres Vedras, lá estão elas. Alinhadas numa plataforma a meia altura, as estruturas de formas redondas e de cor encarnada das futuras boias saltam logo à vista. Para já, são apenas as carcaças, por assim dizer. No interior ainda vão ter de ser incorporados os pequenos motores de propulsão elétrica, as baterias que lhes vão dar vida, o sistema de comunicação de rádio para a sua operação por controlo remoto.

"Vamos iniciar a produção, em final de agosto, princípio de setembro", diz Jorge Noras. É o arranque, finalmente, depois de um processo longo que passou por várias fases, algumas bem difíceis, com muita gente a duvidar, no início, de que aquele era um bom projeto.

Este será também o começo de uma nova etapa. Jorge Noras tem planos para expandir a fábrica em Portugal e criar outras idênticas noutros países, com parceiros locais. "Vamos avançar na Austrália, no próximo ano, em Adelaide, e estou em conversações nos Estados Unidos, vamos ver. A ideia é que as fábricas que vamos montar no estrangeiro tenham a maioria de capital português", explica.

Para já, é o arranque em Torres Vedras. Desta fábrica - que levou um ano a ficar pronta e representou um investimento de sete milhões de euros -, em velocidade de cruzeiro, vão sair diariamente dez boias, um número que fica muito aquém da imensidade das solicitações que a cada momento vão chegando, um pouco de todo o lado.

"Há dias recebi um pedido para equipar um porta-aviões de um país estrangeiro", conta Jorge Noras. Mas esse é só um dos muitos. "Há uma empresa distribuidora internacional que quer quatro mil boias, a Disney nos Estados Unidos também já pediu, e há uma grande companhia internacional de cruzeiros que também já está à espera", enumera o inventor e empresário. "O problema agora é conseguir produzir o máximo possível no mais curto espaço de tempo", desabafa. "É uma preocupação, mas há de resolver-se", diz.

Expandir a produção, com uma segunda fábrica ao lado da que está prestes a arrancar em Torres Vedras, para produzir também os componentes destinados às futuras unidades no estrangeiro, é a ideia que poderá acelerar todo o processo. "Vamos fazer uma candidatura ao IAPMEI, logo se vê."

O que é já certo é que a apresentação pública da U-Safe será a 4 de novembro, em Lisboa, no âmbito da regata internacional Volvo Ocean Race. Esse é dia de escala em Lisboa e o evento está programado para a zona de Belém, uma escolha que emociona Jorge Noras. "Foi dali que Portugal partiu há 500 anos para o mar", diz. Para ele, que fez muita questão de que a U-Safe fosse produzida em Portugal, não podia haver melhor local.

Volvo Ocean Race mostra U-Safe em Lisboa

Há um ano, Jorge Noras recebeu uma proposta irrecusável: a de a sua boia telecomandada ser apresentada durante a Volvo Ocean Race, a maior regata internacional de volta ao mundo, que este ano parte de Alicante, Espanha, em outubro. "Em cada escala, é feita a divulgação do equipamento, e a 4 de novembro, na escala em Lisboa, é então feita a apresentação oficial da U-Safe", conta Jorge Noras. "Em 2019, a boia integrará também o equipamento oficial nos veleiros participantes", sublinha o inventor e empresário, que estabeleceu uma parceria com a organização para desenvolver algumas inovações, como a da criação de um sistema de carregamento automático das baterias no próprio suporte da boia, no veleiro. Com capacidade de se deslocar à velocidade de 15 nós (25 km/hora) e baterias com au-tonomia para 40 minutos, a U-Safe já está homologada pelo Instituto de Socorros a Náufragos. "Ela pode navegar em qualquer situação de mar, evitando, em condições adversas, que mais alguém, além do náufrago, coloque a sua vida em risco", conclui Jorge Noras.

Fundação vai apoiar novas tecnologias

Aboia U-Safe é um fim em si e pode ser a diferença entre a vida e morte para uma pessoa em dificuldades na água. Mas, para Jorge Noras, ela é também "uma parte do caminho", como diz. "A minha ideia é desenvolver soluções tecnológicas para pessoas com problemas físicos e motores", sublinha. Com a U-Safe, ele espera conseguir fundos suficientes para poder apostar em novos desenvolvimentos tecnológicos que permitam solucionar, ou pelo menos diminuir muito, as dificuldades que essas pessoas enfrentam no dia-a-dia. Foi por isso mesmo que o inventor e empresário criou, em maio, a Fundação Noras, à qual doou os direitos relativos à patente da U-Safe. O objetivo é que assim se criem as condições para a fundação apoiar as atividades de desenvolvimento tecnológico que vai ser necessário fazer. Afinal, há oito anos, no dia em que completou 45, foi essa a sua primeira ideia. Para já, cada boia vai custar seis mil euros. "Ainda não há capacidade para vender mais barato, mas logo que possível, vamos tentar não passar dos 1500 euros no preço final."

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