97% dos alimentos testados na UE têm vestígios de pesticidas

Foram detetados 774 tipos de pesticidas em 84 341 amostras. A grande preocupação da Quercus e da Deco são os chamados cocktails, cujos efeitos não são conhecidos

Sabe quantos pesticidas comeu hoje? Provavelmente mais do que imagina. Um estudo feito pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, que analisou mais de 84 mil amostras de alimentos em 2015, revelou que 97,2% tinham vestígios de pesticidas, embora dentro dos limites legais. Apesar de a EFSA considerar que o risco para a saúde dos consumidores continua baixo, a Quercus e a PAN-Europe estão preocupadas, sobretudo com os resíduos múltiplos, já que 28% dos alimentos apresentavam vestígios dos chamados "cocktails de pesticidas".

Entre a percentagem de comida europeia com vestígios (97,2%), 53,3% estava "livre de resíduos quantificáveis" - o que não quer dizer que estivesse isenta - e 43,9% tinham resíduos "não superiores aos limites legais". Bananas, passas e pimentos eram os alimentos com mais pesticidas, numa análise que também incluiu sumo de laranja, beringelas, brócolos, ervilhas, azeite, trigo, manteiga e ovos. Três quartos das amostras tinham origem na UE e as restantes em países terceiros, e 5,6% destas apresentavam resíduos acima dos limites europeus, uma percentagem que na UE é de 1,7%.

Para a Quercus, as conclusões da EFSA, que considera que o risco para a saúde dos consumidores permanece baixo, são "um engano para os europeus", sobretudo devido aos cocktails. "O que seria desejável é resíduo zero. Os efeitos múltiplos são mais uma preocupação, na medida em que não são totalmente conhecidos os efeito sinérgicos e/ou cumulativos, havendo no entanto indícios bastante preocupantes nos estudos existentes", diz ao DN Paula Silva, da Quercus, que lamenta o facto de a EFSA ter deixado de publicar os números de pesticidas por amostra.

Esta é também uma das principais preocupações da Deco, que nos últimos anos fez vários estudos sobre o tema. "Já não se encontram valores acima do limite máximo permitido e já há produtos livres de pesticidas. Mas encontramos várias misturas e não sabemos qual o efeito que têm sobre o consumidor", adianta Dulce Ricardo, do departamento de alimentação.

A longo prazo, os pesticidas podem provocar efeito nefastos no organismo. Num artigo de opinião publicado neste mês no DNotícias, o médico José Miguel de Freitas alertou para alguns perigos de doses elevadas de pesticidas: "Este cocktail químico influencia-nos através de uma redução da fertilidade, de um aumento de alguns tipos de tumores, do aparecimento de diabetes mellitus e da obesidade."

Ao DN, a nutricionista Cláudia Cunha diz que, para fugir ao consumo de pesticidas, o ideal "é optar pelos alimentos biológicos". Embora, como revela Dulce Ricardo, já tenham sido encontrados vestígios destes produtos em alguns alimentos ditos biológicos. Em qualquer caso, destaca Cláudia Cunha, é importante que haja "uma boa lavagem com água" e que os alimentos sejam descascados. Como é na casca que está a fibra, a autora do blogue Nutrição e Companhia propõe "fazer uma mini-horta em casa".

Ressalvando que desconhece o relatório da EFSA, João Dinis, da Confederação Nacional da Agricultura, acredita que "será fidedigno". Em Portugal, sublinha o dirigente, "fizeram-se grandes melhorias neste campo nos últimos anos". "Para o bem e para o mal, os produtos de tratamento, controlo de pragas e doenças são caros, um fator que é inibidor para os pequenos e médios produtores", explica. Acredita, no entanto, que "é na agroindústria intensiva que há excessos", porque "não existem problemas económicos".

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