37,6 milhões de cópias depois, Uncharted vira para o feminino

Após Nathan Drake, uma das personagens mais carismáticas da PlayStation, Chloe Frazer e Nadine Ross assumem as rédeas de uma nova aventura, que se passa na Índia

A indústria dos videojogos já tem uma rentabilidade que, todos os anos, é praticamente o dobro da que consegue o cinema de Hollywood. E tal como tem acontecido nos universos do grande ecrã, também no mundo dos jogos os paradigmas têm mudado e os heróis masculinos vão dando lugar às mulheres. Após o êxito que foi, no mês passado, o filme Wonder Woman (realizado por uma mulher, inclusivamente), o mais recente exemplo desta tendência é o último jogo da série Uncharted, título emblemático da PlayStation.

A saga já vendeu 37,6 milhões de cópias em todo o mundo. Só de Uncharted 4, o último com o herói Nathan Drake (uma espécie de Indiana Jones dos tempos modernos), saíram 8,7 milhões de jogos das prateleiras ou das lojas online.

Agora, e depois de a história de Nathan ter ficado encerrada em Uncharted 4, o estúdio responsável pelo jogo opta por um rumo totalmente diferente.

A começar pelo nome: a Naughty Dog não quis o óbvio Uncharted 5, mas optou por Uncharted: O Legado Perdido. Ou seja, esta não é uma continuação, mas sim um desvio, uma hipótese para os jogadores conhecerem melhor as novas personagens principais: Chloe Frazer e Nadine Ross. Duas mulheres, uma arqueóloga, outra mercenária, que partem em busca de um antigo tesouro indiano.

Já conhecidas da saga, as personagens têm agora o papel principal, especialmente Chloe, que se assume como a protagonista, como foi explicado na apresentação do jogo em Madrid. Mas substituir um herói, que foi um dos que mais sucesso teve na história dos videojogos, por duas mulheres é uma descarada tentativa de chegar ao mercado feminino? Arne Meyer, diretor de comunicações da Naughty Dog , recusa a ideia. "Não estávamos a tentar encontrar personagens femininas. Olhámos para todos de forma igual, mas o que continuava a sobressair era a história da Chloe. Já tínhamos conhecido coisas sobre ela em dois jogos e pareceu-nos que tinha um background interessante para explorarmos", disse ao DN.

Sendo Nadine uma "personagem muito dinâmica", os criadores do jogo acharam que iria existir muita "fricção" entre as duas, na sua demanda por um tesouro perdido na Índia. "A questão era quais eram as personagens mais interessantes e não escolher um determinado género", acrescentou.

Além disso, admitiu, esta vertente "feminina" reflete também a necessidade de encontrar novos mercados para explorar: "Acho que isso não acontece só nas personagens, mas também nos tipos de jogos e nas histórias que são contadas. Os responsáveis perceberam que existe uma audiência muito grande. Que já não é um risco representar vários tipos de personagens e histórias. É uma coisa boa, porque esse é o mundo em que vivemos, certo?".

Também nos bastidores (leia-se desenvolvimento) se nota uma mudança de paradigma relativamente a um mundo que, tradicionalmente, era quase exclusivamente masculino. Meyer afirma que elas, hoje, "se sentem mais bem-vindas na indústria e neste tipo de trabalhos". "Existem mulheres em diversas áreas do ramo. Na Naughty Dog isso é visível e é muito bom", frisou.

Outro fator de satisfação para o estúdio é que Chloe é uma favorita dos fãs. "Tivemos muita sorte em relação a isso. Mais uma vez não foi com intenção, mas estamos muito satisfeitos", acrescentou.

"Jogo especial porque tem duas protagonistas que são mulheres"

Ana Cloe, como Chloe, e Rita Ruaz, na personagem de Nadine, são as duas atrizes portuguesas que dobraram a voz das personagens principais para a versão portuguesa de Uncharted: O Legado Perdido. Mostram-se satisfeitas com o facto de o jogo ter duas mulheres como personagens principais, visto que ambas assumem que o mundo dos jogos costuma ser masculino.

"O jogo é especial porque tem duas protagonistas que são mulheres. É um universo muito masculino e é muito giro ver estas personagens a fazer o que um homem faria, mas de forma mais sensual", afirmou Ana Cloe. "Ainda não joguei, mas adorava. Acho que vai ser superdivertido", acrescentou.

Já Rita Ruaz, uma fã assumida de videojogos, refere o facto de "haver cada vez mais mulheres a jogar", o que será fundamental para mudar a ideia de que os videojogos são predominantemente para homens. "Sou fã do Uncharted desde o início. Jogo sempre com amigos e sempre disse que o meu sonho era ouvir a minha voz enquanto jogava. Quando fui ao casting achei que era um sinal", acrescentou.

As atrizes regressam a papéis que bem conhecem, pois já tinham dobrado as personagens noutros episódios da saga Uncharted.

Em Madrid. O jornalista viajou a convite da Sony Interactive Entertainment.

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