"O ensino superior é algo muito distante..."

Bruno Gonçalves tem 41 anos e é um dos quatro ciganos finalistas do ensino superior. Este ano letivo termina o curso de Animação Socioeducativa na Escola Superior de Educação de Coimbra . É um dos impulsionadores do projeto OPRE, que lançou bolsas de estudo para que crianças de bairros sociais pudessem estudar e servir de exemplo aos outros. O resultado foi a multiplicação do número de estudantes universitários na comunidade. E o objetivo a alcançar é a criação dos programas especiais.

Onde moram os estudantes que estão no ensino superior?

Oitenta por cento dos jovens apoiados pelo programa OPRE são oriundos dos bairros sociais. Quando foi pensado, a principal intenção era que estas crianças dos bairros se tornassem num exemplo e que incentivassem as outras crianças ciganas a irem à escola.

No ano letivo passado, candidataram-se às bolsas de estudo 24 alunos, 13 são mulheres. Como olha para esta maioria?

São elas que estão numa situação mais vulnerável. Este programa tem a preocupação de envolver, pelo menos, 40% de alunos do sexo feminino, mas os objetivos foram superados.

Faz mais diferença quando são mulheres, como referiram as universitárias?

As mulheres são mais organizadas, mais estrategas, têm uma participação mais assertiva. Conseguiram em quatro anos, o que eu não consegui em 20 de ativismo. E tiveram uma taxa de sucesso escolar de 77%, enquanto que a dos homens foi de 71%, o que acontece na sociedade em geral.

Como é que a comunidade cigana reage ao facto destes jovens frequentarem a universidade?

Depende das mentalidades. Para grande parte da comunidade, o ensino superior é algo muito distante, daí existir algum receio e também desconhecimento. Os céticos dizem que a sociedade não irá dar uma oportunidade a estes jovens, que se vão licenciar para ficar no desemprego. Entram naqueles parâmetros da autoexclusão, porque na realidade há um preconceito contra os ciganos. Outros reagem bem e incentivam.

E do lado do meio escolar?

Há relatos de estudantes que sentem que têm de provar duplamente que são bons, porque são bolsistas e ciganos. Há muita pressão para não falhar. Nas aulas que suscitam debates sobre questões sociais vê-se que há preconceito e desconhecimento da comunidade. Há relatos de muito apoio, por exemplo, na ESEC (Escola Superior de Educação de Coimbra) somos muito bem tratados.

Um exemplo do preconceito é dizer que os ciganos vivem do Rendimento Social de Inserção?

A comunidade está cansada de viver do RSI, preferiam não depender dele, e essa não é a realidade da maioria. Grande parte da comunidade cigana é jovem e o RSI abrange sobretudo pessoas entre os 50 e 60 anos, que não arranjam emprego.

O programa dá continuidade ao projeto OPRE Chavalé ("Erguei-vos Jovens" em romani)e é uma parceria entre o Alto Comissariado para as Migrações , a Associação de Letras Nómadas e Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens. Tem prazo de validade?

Entendo que estas medidas positivas têm que ser temporais, que devem durar só até que se verifique a regularidade, até que o acesso dos ciganos ao ensino superior esteja normalizado. Só nessa altura não necessitaremos delas. O objetivo é que todos entrem pelo ensino regular, com o 12.º ano e os exames nacionais.

Nestes 22 - dois homens desistiram - há quem tenha entrado pela via regular, quantos?

A maioria entrou pelo sistema regular, ou seja, depois de completar o 12.º ano. Os outros através do programa mais de 23 anos.

E quantos acabam o curso este ano letivo?

Quatro, dois em Animação Socioeducativa, uma em Direito e e outra em Sociologia.

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