Consumir canábis vai ser mais normal do que fumar um cigarro?

Legalização em estados norte-americanos avança mas há alertas de especialistas sobre efeitos na saúde pública. Em defesa, aponta-se os milhões em impostos e travão no crime

Com a regulação do tabaco a ser cada vez mais estrita e proibitiva, a canábis surge agora como uma alternativa, muitas vezes até embelezada como mais saudável. Nos Estados Unidos da América, já há oito estados em que o uso recreacional da marijuana foi aprovado. Na Califórnia, onde o tabaco tem das leis mais restritivas, avança agora a legalização de droga, o que leva especialistas em saúde pública a lançar alertas. Levará isto, sobretudo entre os mais novos, a uma substituição do cigarro pelo charro ou mesmo a renormalização do tabaco?

"Considerar que se pode estar a passar de um para o outro talvez seja excessivo", diz João Goulão, diretor do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), o organismo público português que trata as dependências, e um cético em relação à legalização da canábis, que descreve como sendo uma droga pesada.

A preocupação na Califórnia, onde a taxa de fumadores de tabaco diminuiu 50% entre 1988 e 2014, é resumida por Michael Ong, professor na David Geffen School of Medicine da UCLA. "O que é importante é ter a certeza de que não retrocedemos após termos feito tanto para limpar o ar e para reduzir os malefícios do tabaco." Do outro lado, em declarações também à California Healthline, Ethan Naldemann, pró--legalização e diretor executivo da Drug Policy Alliance, discorda: "Não há evidências que nos mostrem que a legalização vá levar ao aumento de consumo. Os adolescentes são mais espertos do que a propaganda dos adultos."


Mais consumida em Portugal
Em Portugal e no mundo, o consumo de canábis sempre foi alto. "A canábis é a substância mais consumida em Portugal. Nos últimos dois anos, o número de pedidos de ajuda nos centros é já superior às outras substâncias, seja a heroína, que já foi o nosso inimigo público n.º 1, ou a cocaína", aponta João Goulão, lembrando que os sinais de adição não são tão evidentes socialmente. "É uma dependência que não é tão florida, não tem o desgaste físico da heroína." Na maioria, os consumidores de canábis "são fumadores de tabaco" e recorrem aos serviços de apoio médico para "terem ajuda para travar a compulsão ao uso e à dependência física".
Nas preocupações do diretor do SICAD entra ainda a potência da droga, um tema que tem realçado nos últimos anos. "Há um aumento significativo da canábis herbácea em vez do haxixe, que era o predominante. E na herbácea há a adição de sintéticos e manipulação genética, com novas formas de cultura. Na original o THC, o princípio psicoativo, era contrabalançado por outros alcaloides. Hoje a erva tem o THC como um cavalo à solta."

Este consumo de canábis, sobretudo entre os mais jovens, reflete-se também no cada vez mais comum "recurso às urgências, com surtos psicóticos, ataques de pânico e crises de taquicardia", alerta João Goulão. Também nos EUA, apesar das restrições à compra por menores, tem havido mais casos de intoxicações com canábis, alguns até com crianças que inadvertidamente consomem produtos com a droga, já que a legalização permite variado leque de produtos herbáceos, para fumar, beber ou comer.
Nos Estados Unidos, os críticos apontam que as estatísticas indicam um aumento grande no consumo de drogas por adolescentes, no número de acidentes de viação mortais envolvendo condutores sob influência de canábis e na alarmante subida de tratamentos hospitalares a overdoses. "Se isto acontecesse com um vírus ou com o álcool e alguém olhasse para estes números ficaria alarmado. Porque é que não ficamos alarmados com isto?", questiona Tom Gorman, diretor do Rocky Mountain High Intensity Drug Trafficking Area, um organismo federal antidroga que atua no Colorado, Utah e Wyoming.

Nesta discussão, há sempre prós e contras, com os a favor da marijuana a serem agora mais exaltados nos novos media, até com dados científicos sobre os seus benefícios. "Hoje há um enaltecer das virtudes da marijuana, uma exaltação baseada nas virtudes terapêuticas. Admito que há benefícios e isso compete às agências de medicamentos regular. Mas o uso recreativo deve ser travado. É obrigatório separar o medicinal para evitar que as virtudes terapêuticas sejam o cavalo de Troia para a generalização recreativa", diz João Goulão, voltando a pedir, como já o fez ao ser ouvido no Parlamento, para "não haver pressa de mudar a todo o custo", já que Portugal desde a descriminalização em 1999 tem estado no bom caminho e "é melhor ver o que dá" o percurso das experiências norte-americanas e do Uruguai, onde também é legal.


Receitas de milhões
Outras das situações que desencadeiam diferentes perspetivas é a do negócio, com as tabaqueiras a serem vistas como as futuras líderes do comércio de canábis. Para já não avançaram porque a nível federal permanece ilegal. Não é um debate novo. Em 2014, no trabalho "Esperando o momento oportuno: a indústria do tabaco e a legalização da marijuana", os investigadores Rachel Ann Barry, Heikki Hiilamo e Stanton A. Glantz apontavam que desde a década de 1970 a indústria do tabaco estuda esse mercado. "Os defensores da legalização não consideraram os efeitos potenciais das empresas multinacionais de tabaco que entram no mercado (ou outras corporações, como as indústrias de alimentos e bebidas), com seu poder de marketing substancial e capacidade para fabricar", escrevem.

Os defensores da legalização apontam que as tabaqueiras são indústrias e não grupos de crime organizado, como acontece atualmente. E há sempre a questão das receitas, mas mesmo aqui nos Estados Unidos há quem não fique convencido. No Colorado as receitas neste ano batem recordes e devem superar os 1,3 mil milhões de dólares, com a maioria das vendas a serem para uso recreacional. Os impostos daí resultantes são acima de cem milhões de euros, dinheiro que deve ir para construção de escolas. Parece correto, mas há quem fique preocupado com o facto de, para obter mais receita, se tenha, obrigatoriamente, de ter mais consumidores. Isto num país onde a nível federal a DEA (Drug Enforcement Administration) classifica a marijuana como uma substância ilegal, igual à heroína e ao LSD. Por isso, ativistas da legalização prometem estar na tomada de posse de Donald Trump e distribuir charros de borla.

BE e JS vão lutar pela legalização

O BE irá, ainda nesta legislatura, apresentar uma proposta de lei para a legalização do consumo da canábis, após duas tentativas falhadas em 2013 e 2015. "Acompanhamos as tendências no mundo e não temos dogma sobre o modelo. Mas o objetivo será sempre legalizar o consumo da canábis", disse ao DN o deputado Moisés Ferreira. Também a Juventude Socialista tem um projeto, mas depende da aceitação do PS, diz Ivan Gonçalves, líder da JS. PSD, CDS e PCP chumbaram em 2015 a legalização proposta pelo BE.

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