Alunos de escolas privadas e com mais dinheiro têm mais propensão para copiar

Dois em cada três estudantes admitem que deixariam um colega copiar numa exame e 44% dizem que usariam cábulas

Copiar, usar cábulas ou tirar um trabalho da internet: percentagens significativas dos estudantes universitários portugueses admitem recorrer a estas práticas, segundo um estudo sobre a fraude académica apresentado esta terça-feira. Dois em cada três admitem que deixariam um colega copiar numa exame e 44% dizem que usariam cábulas.

Os resultados são do estudo "A Fraude Académica no Ensino Superior em Portugal", que recolheu respostas de mais de sete mil estudantes de 182 cursos. Os resultados pintam um retrato de uma "cultura de tolerância e de encobrimentos da fraude entre os alunos", escrevem os autores.

Exemplos: 73% dos alunos admitiram que apresentariam o mesmo trabalho em várias disciplinas; metade admitiu a possibilidade de copiar por um colega; 44% a de usar cábulas e 39% a de copiar um trabalho da internet; 21,5% dizem que assinariam um trabalho de grupo sem ter participado. A fraude menos aceite é a compra de trabalhos: apenas 12% admitem essa possibilidade.

Os autores do estudo construíram também um indicador de predisposição para a fraude a partir das respostas dos alunos, e descobriram que os homens revelam uma predisposição maior do que as mulheres (4,66 contra 3,89) e que os alunos que vieram de escolas privadas também mostram uma maior propensão - 4,44 contra 4,17 nos das públicas.

"Destaca-se também uma maior propensão à fraude em alunos que fizeram percursos pré-universitários em escolas privadas, e cujos pais têm maior grau de escolaridade e auferem maiores rendimentos", escrevem os autores, explicando que isto pode ser uma resposta "a uma pressão social e familiar para alcançar o êxito que os pais também alcançaram".

O estudo foi realizado entre 2011 e 2014 no âmbito de uma investigação sobre a fraude académica conduzida por professores da Universidade de Coimbra, no Centro de Estudos Sociais - Filipe Almeida, Ana Seixas, Paulo Gama, Paulo Peixoto e Denise Esteves.

Os autores salientam ainda que a denúncia da fraude pelos alunos é quase inexistente.

Quanto aos professores, que também foram ouvidos, o estudo conclui que parece existir uma baixa predisposição dos docentes para a denúncia institucional. Os professores optam por penalizar os alunos nas notas, mas pouco mais de metade adverte os alunos em caso de fraude observada num exame e menos de um terço quando é em trabalhos.

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