Grávidas preocupadas com viagens para o Brasil e Cabo Verde

Consulta do viajante registou aumento de pedidos de informação sobre os riscos do vírus zika. Agências de viagem mantêm procura

A mediatização do vírus zika, na última semana, trouxe mais trabalho para quem atende as chamadas telefónicas da consulta do viajante do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT). Do outro lado da linha, confirma o instituto, estão sobretudo grávidas com viagens marcadas para o Brasil e Cabo Verde que procuram informações sobre o vírus. Especialmente se há vacina - que não existe - e se devem manter a deslocação.

Já as agências de viagens garantem não ter registado cancelamentos por causa do zika. A duas semanas do Carnaval, época em que o Brasil é o destino mais apetecido, a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) tem mantido contacto com as agências para perceber o impacto da epidemia nas escolhas dos viajantes. "Na ronda que fizemos esta manhã [ontem de manhã] não havia registo de viagens canceladas por causa do zika. As pessoas sabem que o risco é para as mulheres grávidas e não são elas que habitualmente viajam nesta altura do ano", aponta o porta-voz da APAVT, João Brehm.

Mas as grávidas que têm deslocações agendadas para países onde o vírus está ativo têm entrado em contacto com a consulta do viajante da IHMT para perceber como se podem proteger, são encaminhadas para uma consulta do viajante presencial ou para a linha Saúde 24. Sem uma vacina e sem ser claro como o vírus zika pode provocar microcefalia nos bebés, a Organização Mundial de Saúde (OMS) optou por recomendar às grávidas que evitem viajar para as zonas afetadas (América Central e do Sul, Cabo Verde, Tailândia e ilhas do Pacífico, locais onde há registo de transmissão local). Nos EUA, Canadá e Europa já se registaram alguns casos, mas todos importados. Em Portugal, estão confirmadas cinco infeções e existe um sexto caso ainda suspeito.

Em geral, o vírus zika não tem grande impacto, causando sintomas semelhantes a uma gripe. No entanto, para as grávidas parece representar um risco sério, uma vez que é cada vez mais certa a ligação entre a infeção e os casos de bebés que nasceram com microcefalia.

Brasil desinfetou sambódromo

Transmitido pelo mosquito da dengue, o zika foi identificado pela primeira vez, num macaco, no Uganda, em 1947. Os humanos foram infetados pela primeira vez em 1952 e desde então circulou apenas nas zonas da África tropical e em áreas do Sudoeste asiático. Até que, em 2015, foi identificado no Brasil, ao que tudo indica na sequência do Mundial de Futebol, em 2014, onde terá estado algum adepto infetado com zika.

O Brasil passou assim a ser o centro de um novo foco da infeção - porque tem o mosquito que transporta o vírus - que se alastrou pela América do Sul e Central. Foi também apenas em 2014, na Polinésia Francesa e depois em 2015 no Brasil, que surgiram as primeiras ligações desta epidemia a casos de microcefalia, aponta o Centro Europeu para o Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC, na sigla em inglês).

Agora, por causa dos casos de microcefalia - que já são mais de 3500 -, o Brasil lançou uma guerra aos mosquitos Aedes aegypti, transmissores do vírus. Não só para evitar a transmissão da doença mas também para dar a sensação de segurança durante os festejos do Carnaval que todos os anos atraem milhões de pessoas.

O palco principal da festa, o Sambódromo, já foi pulverizado com inseticida para eliminar o risco de picadas. Além do desfile das escolas de samba (que também estão a ser acompanhadas pelas equipas de vigilância), o Sambódromo vai ser também usado durante os Jogos Olímpicos como partida e chegada da maratona e nas provas de tiro com arco.

O governo brasileiro decretou estado de emergência sanitária e anunciou que, a partir de 13 de fevereiro, 200 mil homens das Forças Armadas vão andar "de casa em casa" a orientar as famílias no combate ao mosquito. Uma atividade que pode muito bem tornar-se rotina, já que os cientistas acreditam que agora que o zika chegou a esta parte do globo, se vai tornar uma doença endémica, como aconteceu com a dengue, a partir da década de 1990.

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