Fundações mudaram a ciência e a vida dos investigadores

Mark Zuckerberg quer acabar com todas as doenças, mas não é o único. Vários portugueses já receberam bolsas para o seu trabalho

Uma das primeiras coisas que Maria Mota fez ontem quando chegou ao Instituto de Medicina Molecular (IMM) foi enviar um email para os certa de 500 investigadores que ali trabalham a dizer que está a "acontecer algo extraordinário no mundo": a criação da Chan Zuckerberg Science, a fundação que o criador do Facebook e a mulher apresentaram e que tem com objetivo curar todas as doenças do mundo. A diretora executiva do IMM da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, Prémio Pessoa em 2013, disse ao DN que estas iniciativas são muito importantes. Não só para a ciência, pois também mudam a vida dos investigadores.

"A iniciativa de Mark Zuckerberg e da mulher Priscilla Chan de lançar um novo programa, com um financiamento de 2,7 mil milhões de euros, para atacar todas as doenças do mundo é uma oportunidade incrível. É um casal muito jovem que está a disponibilizar parte da sua fortuna para curar doenças. Eles compreenderam que financiar a ciência básica, conhecer bem os nossos inimigos - pode ser a transformação de uma célula, no caso do cancro, ou agente infeccioso, como na malária - é fundamental. São duas personalidades muito positivas, que se rodearam de pessoas muito interessantes para pensar o mundo das doenças e como as atacar. Isto vai ter um impacto enorme", frisa Maria Mota.

A apresentação do projeto do fundador do Facebook contou com a presença Bill Gates, cofundador da Microsoft e um dos maiores filantropos da atualidade com a Fundação Bill e Melinda Gates. Há mais de uma década que financia projetos de investigação em todo o mundo e que dá donativos para o combate à malária, à erradicação da poliomielite (paralisia infantil) no mundo, à cura do VIH. Portugal já sentiu essa vontade de mudar o mundo. Vários investigadores receberam bolsas para os seus projetos na área da malária e VIH. O impacto sente-se não só na ciência, é também nos próprios cientistas.

Há mais de 20 anos que Maria Mota se dedica a descobrir como acabar com a malária. O trabalho começou com a tese de doutoramento em 1995 e com muita investigação, em diferentes caminhos, desde então. Agora está focada em compreender "o que o ser humano fornece ao parasita para que este sobreviva e cause a doença. Se conseguirmos perceber, um dia conseguiremos fechar a doença", explica a investigadora. Antes teve na sua equipa Miguel ,Prudêncio que recebeu financiamento para uma investigação que poderá ajudar na criação de uma vacina para a malária. Mesmo não tendo sido financiamento direto à equipa, Maria Matos sentiu o reconhecimento. "O maior sucesso de um investigador são as pessoas que formamos e a cola que fazemos. Tive dois casos de elementos que receberam bolsas da fundação e depois criaram carreiras independentes", afirma, acrescentando que o impacto é também grande na ciência: "O mundo inteiro olhou para a malária, surgem novos financiadores."

A forma como as fundações trabalham é também diferente. Envolvem-se, querem saber resultados, estão preparadas para os falhanços, mas também para continuar a apostar naquilo que acreditam que as vai ajudar a chegar ao seu objetivo. Mesmo que leve tempo. Henrique Silveira, subdiretor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, tem dois financiamentos da Fundação Bill Gates. Um em que procura encontrar alternativas ao sangue para a alimentação dos mosquitos de forma a que estes se possam reproduzir no ambiente - financiado desde o ano passado com uma bolsa de 90 mil euros -, o outro partilhado com Miguel Soares para a vacina da malária, no valor de 356 mil euros.

"Enquanto cientista, para produzir ciência, dependo totalmente de financiamentos externos. Receber uma bolsa é sempre bom, mas quando a competição é internacional é algo que reforça a qualidade. Receber uma bolsa de uma fundação internacional é prestigiante para o cientista e abre portas que antes não estavam abertas", começa por dizer Henrique Silveira.

Também refere a proximidade do acompanhamento que a Fundação Bill Gates faz dos projetos em que aposta. "Investe em áreas muito focadas e é mais fácil acompanharem. Têm o objetivo de ter um produto científico no final e tentam perceber o que se está a fazer. Recebo várias mensagens a incentivar-me a concorrer para novas fases do projeto. Têm uma disponibilidade maior do que as agências financiadoras podem ter porque dependem de agendas globais", aponta.

João Gonçalves investiga há cinco anos uma forma de erradicar o VIH. A primeira fase do projeto, em 2010, também foi financiada pela Fundação Bill Gates. "Estas bolsas são muito importantes para o desenvolvimento de estratégias que por norma não são apoiadas, por serem projetos muito arriscados. Apostam em novas linhas e os apoios vão para áreas onde há pouco financiamento. Fazem o acompanhamento como se fossem nossos pares. São os anjos dos projetos e querem levá-los a bom porto. Se acham que o projeto é bom dão continuidade ao financiamento. A escolha é feita com base em critérios apenas científicos, não sabem que é o investigador, nem de que país é", diz o cientista do IMM.

Notícia atualizada às 12:06. Corrigido o nome do investigador Miguel Prudêncio, referido erradamente no quarto parágrafo como Miguel Soares, numa versão anterior

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