"Férias em Agosto? Não me passaria pela cabeça. Nem queria"

Trabalho em agosto. Época estival por excelência, no mês de agosto está meio mundo a banhos. Este é o retrato do outro meio: os que estão a trabalhar, trabalham mais do que nunca nesta altura e nem sonham tirar férias neste mês. Porque não querem, porque não podem, porque esta é a altura de ganhar uma almofada financeira para o resto do ano

Todos os dias, Dália Neves deixa o Porto da Baleeira, em Sagres, num semirrígido que se dirige a alto-mar. Vai ver golfinhos, se tiver sorte baleias - 12 espécies de cetáceos passam ao largo da costa algarvia de Sagres, umas mais ocasionais do que outras. Parece um bom programa de férias e será isso que acham também os 12 passageiros que, a cada viagem, seguem a bordo da embarcação. Mas não é esse o caso de Dália. Ela é a guia da visita. Está a trabalhar. Todos os dias de agosto.

Dália já não se lembra do que é tirar férias no mês em que a maioria dos portugueses vai a banhos. Com 34 anos e um currículo que passa por três grandes regiões de turismo - primeiro a Madeira, depois os Açores, agora o Algarve - para esta bióloga marinha não há descanso em agosto. Nunca houve. "Já quando estava a estudar trabalhava no verão, era uma forma de fazer currículo. Há muitos anos que não sei o que são férias em agosto. As minhas férias são no inverno e não me importo."

Talvez seja assim porque Dália tem no trabalho aquilo que a maioria das pessoas procura nas férias. "Tenho a sorte de viver no Algarve, tenho sol e mar no meu trabalho", diz a guia da Cape Cruisers, uma empresa familiar que emprega cinco pessoas. Ao trabalho como guia, Dália ainda junta uma componente de recolha e tratamento de dados sobre a vida marinha. Tudo junto, a conclusão é taxativa: "Tirar férias em agosto? Não me passaria pela cabeça. Nem queria."

A maioria dos portugueses não pensa o mesmo. Um estudo recente do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT) sobre as intenções de férias para o verão deste ano aponta uma manifesta preferência pelo mês de agosto. Entre aqueles que manifestaram a expectativa de gozar o período de descanso fora de casa, 39% disseram pretender fazê-lo em agosto, 25% em setembro e 21% em julho. Junho é o mês menos concorrido, teve 15%.

A estatística será seguramente bem diferente se aplicada exclusivamente ao Algarve. Na região turística portuguesa por excelência agosto é sinónimo de trabalho. Muito trabalho.

Hugo é um dos muitos algarvios que nesta altura trabalham na hotelaria, em Albufeira. Nesta época do ano, o volume de trabalho não duplica, "quintuplica". Não que o jovem de 28 anos tenha a experiência de outros meses - tem um contrato válido apenas para o verão. Há anos que é assim. Fora da época alta vai fazendo "o que aparece". Já foi para Espanha trabalhar, já fez uma incursão por um café em Lisboa. Volta sempre ao Algarve e ao trabalho a sério nos meses de verão. Sobre agosto... "é um inferno", diz a rir-se, meio a sério meio a brincar. "Não há horas, sai-se quando se sai, amanhã estamos de folga, mas hoje à tarde deixamos de estar", queixa-se o jovem algarvio, que não quis dar o sobrenome nem tirar fotografia.

A sazonalidade do trabalho no Algarve, em resultado do turismo, é comprovada pelos números do desemprego. Veja-se 2015. No primeiro e último trimestres do ano, a taxa de desemprego na região foi superior à média nacional (no período de janeiro, fevereiro e março o desemprego regional chegou aos 16,4%). No segundo (10,8%) e terceiro trimestres (11,8%), os meses fortes do turismo, a situação inverte-se e o desemprego algarvio fica abaixo dos números nacionais. Já em 2016 o Algarve começou o ano com 12,2%, taxa que entretanto caiu para uns históricos 8,1% - pela primeira vez, como avançou o Negócios, o Algarve registou a taxa de desemprego mais baixa do país.

Férias? "Não se pode"

Um pouco mais a norte, em Troia, também é o turismo quem mais ordena. Alexandrina Ramalho trabalha há sete anos numa unidade hoteleira e há sete anos que não tem férias em agosto. Neste ano exigiu três dias - queria ir ao casamento da irmã, no estrangeiro. "Fiz finca-pé. Disse que se não me dessem férias, faltava." E foi exatamente isso que acabou por acontecer: "Foi assim que ao fim de sete anos tive três dias de férias em agosto."

Alexandrina é também dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Hotelaria, Turismo, Restauração e Similares do Sul. O retrato que traça do trabalho na época alta do turismo é o de um período em que o direito ao descanso é metido na gaveta - uma das razões, aliás, que motivou na manhã de ontem um protesto de alguns funcionários dos principais hotéis de Troia. "Não sou só eu, há séculos que ninguém tem férias em agosto. Simplesmente não se pode", diz Alexandrina ao DN.

Mas esse não é o maior problema que aponta. Os regimes especiais de organização do tempo de trabalho permitem, por exemplo, mais duas horas de trabalho diário por determinados períodos e o gozo de apenas uma folga por semana. Com os bancos de horas, o período normal de trabalho pode ser aumentado até quatro horas diárias e 60 semanais, com o limite de 200 horas anuais. "Na cozinha temos trabalhadores com mais de 500 horas", diz Alexandrina, acrescentando que os regimes especiais, que foram pensados para a época alta, já se estendem "ao longo de todo o ano".

"Todos os dias são domingo"

Se o Algarve vive do turismo, Lisboa tem conhecido um verdadeiro boom nos últimos anos. A capital portuguesa já ultrapassou, aliás, o Algarve, em número de hóspedes e nas receitas da hotelaria - aconteceu pela primeira vez em 2015.

Se há sítio em Lisboa onde as filas têm aumentado, esse lugar chama-se Pastéis de Belém. Há momentos em que o número de pessoas à porta quase rivaliza com os Jerónimos, uns passos adiante. A meio da manhã de um dia de semana, grupos de dezenas de turistas procuram um lugar sentado - e são 400 no total. Mais ainda ficam à espera, à porta, para levar o seu pacote de seis pastéis de Belém.

Manuel Rodrigues, chefe de balcão, é o rosto da azáfama. Os pastéis saem a uma velocidade alucinante. "Agosto é sempre o melhor mês do ano. O ano passado foi dos melhores e este ano vai pelo mesmo caminho", diz ao DN numa breve interrupção do trabalho, sempre com um olho no que se passa ao balcão, não vá a azáfama transformar-se em caos. Há 43 anos que ali trabalha e desde sempre que agosto é mês de trabalho, sinónimo de poucas férias. Como é que se faz com a família? "É uma questão de coordenação."

Nos Pastéis de Belém ninguém sabe dizer ao certo quantas pessoas passam por ali num dia de agosto, mas há um indicador elucidativo. "Vendemos uma média anual de 20 mil pastéis por dia. Em agosto a média é de 35, 40 mil ", diz ao DN Miguel Clarinha, um dos proprietários da empresa fundada em 1837 e que se mantém até hoje como um negócio familiar. Ele próprio já não sabe o que são férias em agosto "há muito tempo". É um "mês extraordinário para nós", diz o também gerente. E não é só, como se poderia pensar à partida, pela enorme afluência de turistas - há igualmente "um pico de clientes portugueses", muito por força dos emigrantes.

Ao longo do ano, os dias mais fortes dos Pastéis de Belém são os domingos. Ora, em agosto "todos os dias são domingo". E cada vez mais: "A perceção que temos é que, nos últimos cinco anos, o turismo tem crescido de forma muito acelerada. Claro que nós beneficiamos muito com isso. Estamos numa situação privilegiada."

Nos Pastéis de Belém trabalham 170 pessoas e, da linha da frente no atendimento ao público até ao trabalho na retaguarda, na cozinha, todos são precisos para fazer face ao acréscimo de trabalho nesta altura do ano. "Como temos este período de trabalho no verão procuramos que tirem férias noutra altura que não o verão e, sobretudo, que não tirem em agosto. As pessoas compreendem porquê", diz Miguel Clarinha, acrescentando que a empresa não recorre a trabalho temporário para fazer face ao acréscimo de clientes. A solução passa por "recorrer com maior frequência às horas extras e ao trabalho em folgas". Para isso, os funcionários de mesa têm um incentivo: "Quando há trabalho em folgas ou em horas extraordinárias ganham uma percentagem sobre a caixa que fazem. Podem ganhar num dia o equivalente a três, quatro dias de trabalho normal."

A lei portuguesa não obriga nem proíbe a marcação de férias em qualquer período do ano - embora, em caso de marcação unilateral pelo empregador, estabeleça um período obrigatório entre 1 de maio e 31 de outubro (ver texto na página seguinte). A lei também diz que os períodos de férias mais pretendidos devem ser "rateados", beneficiando alternadamente os funcionários. No caso dos Pastéis de Belém, o princípio é aplicado através de um sistema de pontuação - cada mês vale um tanto, sendo agosto o que vale mais, seguido pelos restantes meses do verão. No ano seguinte quem tiver a pontuação mais baixa tem prioridade na marcação de férias.

Mudar de vida

Uma das facetas do crescimento do turismo em Lisboa tem sido o surgimento de novas atividades profissionais. Há uma bastante evidente nas ruas da cidade: os famosos tuk-tuks.

Bruno Perry Gouveia é engenheiro civil de formação e trabalhou 14 anos numa grande empresa de construção civil. Com o eclodir da crise, que se sentiu em força neste setor, a empresa virou-se para o estrangeiro e Bruno Gouveia foi para a Venezuela, primeiro, e para Moçambique depois. A paragem seguinte seria a Argélia, mas o engenheiro não estava pelos ajustes. Casado de fresco, com uma filha pequena, começou à procura de uma alternativa, e foi assim que, no verão de 2014, nasceu a Tuk Tuk Tejo. E se acabaram as férias no verão. "Tirava sempre férias em julho e agosto, agora é impossível." Ficam para o final de outubro. "Quem trabalha no turismo tem de estar preparado para trabalhar quando toda a gente descansa. Quem quer trabalhar nesta atividade tem de ter essa disponibilidade." Três anos de atividade nesta área tornam evidente uma conclusão: "Agosto é o mês mais forte do ano. É o mês das famílias, não só estrangeiras mas também portuguesas. Diria que 20% [das famílias clientes] são portuguesas."

Na Tuk Tuk Tejo trabalham 14 pessoas, entre os que estão o ano inteiro e os que trabalham só no verão (a maioria). Aos dez tuk-tuks - elétricos, sublinha o empresário, com notório orgulho desse facto - acrescentou entretanto as Segway e outro negócio em expansão nas ruas de Lisboa, a street food, com um tuk-tuk que é uma geladaria artesanal. Tudo atividades marcadas pela sazonalidade e fortemente concentradas no verão.

A questão de conciliar as férias com a família não se põe. A mulher, Teresa Gouveia, era farmacêutica, mas deixou também a profissão para se dedicar à empresa. O que significa, por outro lado, que ambos ficam limitados quanto às férias no verão. Não é um drama: "Pode criar algumas dificuldades, mas tem de se arranjar. Tudo é gerível."

Agosto casamenteiro

Nem só de turismo se faz o trabalho neste mês. Bem mais a norte, no concelho da Mêda, distrito da Guarda, a Quinta Lameira da Cruz também tem nesta época um pico de trabalho. "Nos quatro fins de semana do mês de agosto vamos fazer 12 a 15 casamentos. E podiam ser mais. Só fazemos um casamento e um batizado por dia", explica Nuno Morgado.

Agosto, o imortalizado "querido mês de agosto", marca o regresso dos imigrantes em férias e a influência sobre o número de uniões matrimoniais é clara: "Dos casamentos todos que temos em agosto, só duas pessoas é que estão em Portugal a tempo inteiro." Conclusão a tirar, para uma empresa que vive da organização de eventos: "É impensável não trabalhar nesta altura. O terceiro trimestre do ano é o melhor e agosto é o mês mais forte, é o mais rentável." A experiência já o diz desde 2002, quando, com os irmãos, pegou na atividade que já era dos pais e resolveu investir na quinta (antes, o negócio fazia-se de aldeia em aldeia).

As estatísticas nacionais acompanham a tendência na Quinta Lameira da Cruz. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), desde pelo menos 2009 que agosto é o campeão dos casamentos (no polo oposto está fevereiro). Dos 32 393 casamentos que se realizaram em Portugal em 2015, 5909 foram celebrados no mês de agosto.

Sendo esta uma área marcada por uma fortíssima sazonalidade (mais de 50% dos casamentos são no verão), a maior parte das pessoas que trabalham na quinta são contratadas por serviço. Nuno Morgado conta que a maioria tem outras atividades profissionais, mas usa as férias para conseguir um extra financeiro: "Temos professores, educadores, enfermeiros, seguranças. Ganham à volta de cem euros por serviço. Se fizerem três, quatro dias, numa semana ganham 400 euros. Se fizerem uma época de mês de agosto ganham com certeza muito."

Há o reverso. "É uma altura de sobrecarga." Os dias de trabalho podem começar às oito e meia, nove da manhã. E acabar à meia--noite, uma, duas da manhã, nunca se sabe ao certo, é à hora que os noivos saírem, depois de os últimos convidados deixarem a festa.

Nuno Morgado tem duas filhas, a mais velha tem 13 anos, a mais nova tem 3. A mãe é professora e tira férias em agosto. "Eu não consigo acompanhar", diz ao DN. Mas essa é a normalidade desta família. Diz o empresário sobre a filha mais velha: "Ela cresceu a acompanhar-me neste negócio. Tem a noção de que não temos a mínima hipótese de fazer férias [em família] em agosto, como muitas colegas dela."

Os filhos são, muitas vezes, a única reticência levantada ao trabalho em agosto, altura em que os mais pequenos estão de férias. Neste capítulo, ou entra o outro progenitor, não tendo uma profissão que obrigue a trabalhar nesta altura, ou, não poucas vezes, o agosto dos miúdos é passado com recurso a essa grande instituição familiar que são os avós.

"Trabalhar sempre no verão"

De volta ao Sul, há uma ocupação específica totalmente incompatível com férias no verão - os nadadores-salvadores. Rúben Ferreira tem 27 anos , é nadador-salvador há oito, por estes dias está em Paço de Arcos. "No meu caso, férias é um termo relativo. Até ao ano passado estive dez anos sem férias. E trabalho no verão desde os 16 anos", conta ao DN.

Também neste caso, o objetivo é financeiro: "Prefiro abdicar de fazer férias de papo para o ar aqui na areia e ganhar uns cobres. É uma opção, para fazer um extra." Mas o trabalho no verão não é um enorme sacrifício: "Também não gosto de tirar férias em agosto, prefiro tirar em maio ou junho e no final de setembro. Dá para fazer tudo o que se faz em agosto, mas com muito menos filas de espera." Com notório gosto por atividades que impliquem o contacto com pessoas, Rúben gostava mesmo era de "trabalhar no verão o ano inteiro. O frio traz um pouco mais de pesar à disposição das pessoas". E, entre risos, diz que até já conseguiu esse feito: "Fiz o verão aqui, depois fui para África, depois voltei e era verão outra vez."

No resto do ano, Rúben Ferreira trabalha numa piscina municipal, a que acrescenta outro trabalho, mais esporádico, em hotelaria. Tem custos: "Há muitos jantares de família a que não vou. Há muitas passagens de ano em que as pessoas estão a festejar e eu estou a servir quem festeja." Mas isto não é um lamento, é uma opção assumida. E Rúben diz que até está a reduzir o ritmo: "Há momentos em que se valoriza mais ter rendimentos, há momentos em que se valoriza mais a qualidade de vida. Quando tinha 20 anos queria era ter dinheiro para não depender dos meus pais, hoje já valorizo mais ter alguma estabilidade. Poder dizer bom-dia e boa-noite à minha mulher." Ao lado, Edgar Rato, de 35 anos, está a tirar o curso de Desporto e usa a época balnear para ajudar a financiar o resto do ano como estudante. Férias em agosto? "Gosto mais de tirar férias noutras alturas, com menos confusão."

Os empregos de verão assumem muitas formas. Dario, 34 anos, chegou a Portugal há cinco dias e há três que anda nas praias da Linha a vender bolas-de-berlim. "Vim para trabalhar e para viver cá. Arrumei este serviço rapidinho." Não sabe se será esse o futuro, mas para já não tem razões de queixa. As bolas-de-berlim custam 1,50 euros, Dario ganha 30 cêntimos por cada uma. "Em três dias fiz 165 euros. No Brasil tinha de trabalhar semanas para ganhar isto." O objetivo é "no final do ano trazer a mulher e os filhos".

Outro trabalho típico do verão - apoios de praia, para vender gelados, água, sumos, cerveja. Francisco Nunes, 21 anos, estuda à noite e nos últimos três anos trabalhou "sempre no mês de agosto". Tenciona continuar, nesta ou noutra atividade: "Gosto de andar sempre a mudar." De trabalho de verão em trabalho de verão, até ao objetivo final que talvez lhe permita tirar férias no verão: "Quero ser cabeleireiro."

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