Fat Family fugiu há 15 dias. Já morreram dez pessoas e a polícia não o encontra

Operação para deter traficante deixa Rio de Janeiro em pé de guerra: 150 pessoas foram detidas, 27 batalhões da polícia procuram-no, 50 favelas vasculhadas e 2,5 toneladas de droga apreendidas. De Nicolas de Jesus nem sombra

"Agora é uma questão de honra", garantiu Rivaldo Barbosa, delegado da divisão de homicídios do Rio de Janeiro, horas depois de o traficante Nicolas Labre Pereira de Jesus, mais conhecido como Fat Family, ter conseguido escapar da polícia com a ajuda de 20 membros do seu gangue enquanto esperava uma cirurgia num hospital no centro da cidade anfitriã dos Jogos Olímpicos (de 5 a 21 de agosto). Para cumprir a missão foram destacados 27 batalhões da Polícia Militar, vasculhadas 50 favelas, detidos 150 suspeitos de cumplicidade com o criminoso, mantidos tiroteios quase diários e mortas dez pessoas. Mas apesar dos seus mais de cem quilos, o foragido continua a escapar por entre os dedos dos agentes.

Como aconteceu no sábado, quando, segundo a imprensa brasileira, uma denúncia anónima levou a Polícia Militar ao Morro Santo Amaro, onde estaria escondido. À chegada foram recebidos a tiro, tendo a operação durado várias horas. Resultado: não houve feridos nem detenções. E Fat Family continua em liberdade.

Nicolas de Jesus foi detido pela polícia no dia 13 de junho após um tiroteio de que resultaram seis feridos, entre os quais o próprio traficante, com relativa gravidade. Transferido dias depois para o Hospital Souza Viana, pois as enfermarias das prisões não estão autorizadas a realizar cirurgias, Fat Family, de 28 anos, teve acesso a telemóveis e direito a visitas apesar da vigilância permanente de dois agentes. No dia 19, cerca de 20 membros do seu gangue invadiram o hospital, que faz parte da estrutura de apoio dos Jogos Olímpicos, armados de granadas, espingardas e metralhadoras, matando um paciente e ferindo um enfermeiro e um polícia, antes de resgatar o líder.

Desde aí, a polícia, "por uma questão de honra", iniciou uma caça ao homem espetacular, vasculhando as maiores favelas do Rio. No processo apreendeu 348 veículos roubados e 2,5 toneladas de drogas, prendeu 150 suspeitos, matando nove deles, mas o objetivo principal - descobrir Fat Family - continua por cumprir.

Na primeira ação, na favela do Rola, morreram cinco suspeitos de tráfico de droga, segundo a polícia, numa troca de tiros.

Na segunda, na favela Nova Holanda, agentes de três batalhões de elite - dos Recursos Especiais, do Combate às Drogas e dos Roubos e Furtos de Carga - cercaram a casa para onde o fugitivo foi levado logo após o resgate, gerando um tiroteio no qual três traficantes foram mortos e dois agentes ficaram feridos, mas no local só foi encontrado material furtado do Hospital Souza Viana.

Seguiu-se uma operação no morro dos Chaves, na quarta-feira passada, onde se registou a nona morte, de um suposto cúmplice, numa troca de tiros. Mas terminadas as três sangrentas ações, os investigadores só têm uma certeza: não há pistas do fugitivo.

A crise financeira que afeta o governo do Rio não tem ajudado: sem helicópteros por falta de dinheiro para a manutenção, todos os avanços pelas favelas tem sido realizado por via terrestre. E a polícia suspeita ainda que o Comando Vermelho (CV), uma das maiores organizações criminosas do Brasil e, segundo os especialistas, a mais bem armada, está a abrigar Fat Family, que desempenha papel importante na sua estrutura.

Nicolas de Jesus faz parte de uma família de criminosos. O pai, conhecido como Belote, e o tio, a quem chamam Zaca, são presidiários de longa data. A mãe, Jurema, já esteve presa por tráfico. E o irmão mais velho, cuja alcunha é My Thor, está detido desde 2000 numa prisão de alta segurança no Paraná. Antes de ser preso, My Thor era uma das principais lideranças do Comando Vermelho, mas a partir de então Fat Family começou a substituí-lo na hierarquia da fação criminosa, controlando o morro de Santo Amaro, no Catete, na zona sul do Rio de Janeiro.

Fat Family é acusado, além de tráfico de drogas, do assassínio de três pessoas, duas delas agentes da polícia, numa emboscada realizada em 2010 na região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro. Caso seja detido, o foragido vai ainda responder por tentativa de homicídio e porte ilegal de armas, crimes cometidos na sua detenção no dia 13. A polícia persegue também quatro dos seus principais colaboradores pelos mesmos crimes: Nezinho do Vidigal, suposto estratega do resgate, Bolão, Jabá e Silva.

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