Famílias com filhos em ciclos diferentes têm novos desafios pela frente

Enquanto uns regressam às escolas, outros têm de permanecer mais algum tempo em casa, obrigando as famílias a gerir as suas dinâmicas neste tempo de transição.

O recomeço das aulas presenciais também vai trazer novos desafios às famílias com filhos em ciclos de ensino diferentes. É o caso de Rui Montenegro, pai de dois meninos, a frequentar o 4.º ano e o 5.º. A rotina vai mudar, obrigando a horários coordenados entre pai e mãe, para que um fique sempre em casa com o mais velho. Rui Henrique, de 12 anos, vai continuar em ensino à distância. Já Rui Miguel, de 9, regressa à sala de aula. "Às segundas vou levar o mais novo e volto, na terça igual. Na quarta é a minha mulher. Na quinta e sexta vou e fico a trabalhar na escola onde dou aulas. Às sextas também dou aulas ao 1.º ciclo (informática) e tenho de ficar lá" explica.

Quando às dificuldades, o professor de Educação Física aponta o filho mais novo como aquele que mais sofreu no Ensino à Distância (e@d). "O Rui Miguel tem mais dificuldade em estar concentrado, em realizar as tarefas, precisa de mais ajuda e mais apoio, liga e desliga o microfone. Com o Rui Henrique, a maturidade ajudou e adaptou-se muito bem ao e@d", ressalva.

Na casa dos irmãos Bruna, de 5 anos, e João, de 10, o maior desafio é "enviar a mais nova quando o irmão vai ficar em casa". "A Bruna não vai querer ir porque o irmão fica. Ela quer estar com os amigos, mas com o irmão em casa já não é tão fácil. Ele está a sentir ainda mais falta dos amigos do que a irmã", explica a mãe, Maria Bastos. A progenitora diz, contudo, que os filhos não sofreram muito por ter espaço ao ar livre em casa, embora tivessem necessidade de socialização.

"Há coisas que os bens materiais não substituem. Sentem muito a falta dos professores"

"Felizmente, tenho condições para estar com eles e de ter uma casa com espaço onde eles podem brincar. Não posso dizer que tenham sofrido muito, mas a falta dos amigos não posso resolver. Há coisas que os bens materiais não substituem. Sentem muito a falta dos professores, principalmente a Bruna, que tem muitas saudades da educadora e da professora de expressão dramática. Mesmo com estas condições, a falta de socialização, de tarefas, de dinâmica, acabamos por quebrar. Todo este ritmo deixa-nos muito saturados" sublinha. A pequena Bruna começou, ainda, a manifestar sinais de stress.

"A Bruna ficou muito inquieta e ansiosa e começou a roer as peles à volta das unhas, apanhou um tique de stress. O João, até na forma de se sentar nas aulas, mostrou-se mais inquieto. É a ansiedade acumulada que começou a fazer-se notar. A questão emocional, para além das aprendizagens, é a mais preocupante", conta Maria Bastos. Para colmatar as falhas nas aprendizagens em e@d, Maria optou por recorrer a apoio extra, de forma a garantir "uma entrada mais consistente no 1.º ciclo".

Cristina Monteiro também tem filhos em ciclos diferentes e terá de ajustar horários à nova realidade. A Maria João, no 8.º ano, é autónoma e tem conseguido acompanhar as aulas "sem grandes dificuldades". O Miguel, a frequentar 1.º ano, ficou mais condicionado pela falta da presença física do professor. Cristina Monteiro irá, agora, levar o filho mais novo para a escola, mas o Miguel terá de permanecer no estabelecimento, em alguns dias, para além do seu horário letivo, porque a mãe não consegue, por motivos profissionais, estar pronta na hora da saída. "Nos dias em que eu saio às 16.30 vou buscá-lo, quando tenho de trabalhar até às 17.30, vai ter de ficar na escola. O meu horário de trabalho de trabalho colide com o dele. O problema é ter de ficar para além do horário letivo quando eu dou aulas até mais tarde. Até aqui, era o meu sogro que o ia buscar, mas agora é arriscado. A ideia é o avô continuar protegido, como até aqui", conta.

Esta realidade vai repetir-se, a partir desta segunda-feira, em muitos lares portugueses. Recorde-se que, neste novo período de confinamento, cerca de 22 mil trabalhadores pediram apoio à segurança social para poder acompanhar os filhos menores de 12 anos em e@d.

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