Europa subtropical, com flores e pouca neve para o ski

A menos de uma semana do Natal, e a dois dias da chegada do inverno, a Europa vive dias amenos.

A menos de uma semana do Natal, uma estranha doçura primaveril atravessa a Europa. Em Inglaterra, com as temperaturas seis graus acima da média para esta altura do ano, há plantas "confusas", a florir fora de época. Em Biarritz, França, uns amenos 22 graus Celsius têm levado os banhistas até à praia, para uns bons mergulhos, e na Alemanha as famílias passeiam-se nos parques, gozando o sol. Os únicos que parecem ter razão de queixa são os que tinham planeado férias para esta altura nas estâncias de esqui alpinas e nos Pirenéus. Muitas ainda não abriram e nas que estão a funcionar as máquinas de fazer neve trabalham sem descanso.

Por cá, as temperaturas de dezembro também têm seguido estes padrões "primaveris", com as temperaturas máximas e mínimas a registar valores acima da média para esta altura do ano. Não parece, mas o inverno começa já depois de amanhã. Afinal o que é que se passa com o tempo?

Não há uma resposta simples para esta pergunta, mas uma certeza existe: por toda Europa, das costas mediterrânicas até à Escandinávia, tem havido uma prevalência de massas de ar subtropicais ao longo deste mês.

"Dezembro está a ser muito anómalo, com temperaturas acima da média para esta altura do ano, e sem precipitação", resume Pedro Viterbo, que dirige o departamento de Meteorologia e Geofísica do IPMA (ver entrevista ao lado). Mas esta tendência também não é de agora. "Em outubro e novembro, tal como em dezembro, praticamente não houve frentes vindas do Atlântico, e por isso quase não houve precipitação", sublinha Pedro Viterbo.

Na verdade não tivemos um clima normal de outono e nesta reta final as temperaturas acima da média ainda ajudam a acentuar mais a sensação de tempo estranho.

El Niño e companhia

Então é isto o aquecimento global? Não é possível dizer taxativamente que sim, mas também não está fora de questão que as alterações climáticas tenham aqui um papel. Na ciência climática, os fenómenos isolados, como este outono anormalmente quente na Europa, não podem ser lidos diretamente dessa forma. Mas, se integrados em séries históricas de medições de temperaturas, que por todo o mundo mostram uma tendência de subida, podem ganhar um novo alcance.

Por outro lado, embora não seja completamente claro por que motivo há neste momento uma prevalência de massas de ar subtropicais por toda a Europa, com uma notável ausência das chuvas e tempestades que costumam chegar do Atlântico nesta época, há uma coisa que se pode dizer: o que alimenta energeticamente as depressões que causam mau tempo na Europa é o grande contraste que existe na temperatura atmosférica na região polar ártica e nas zonas de latitudes mais sulistas, como as de Portugal. E, portanto, o que isso nos diz é que nesta altura não há grandes contrastes de temperatura.

Existe ainda um terceiro fator que há de estar a a acentuar a doçura deste dezembro europeu: é o El Niño especialmente intenso que está a ocorrer neste ano.

O El Niño é um fenómeno climático cíclico, que se inicia no Pacífico com um aquecimento significativo da superfície do mar, e que atinge o pico máximo por volta do Natal - daí o nome El Niño -, e que tem repercussões meteorológicas por quase todo o planeta.

Poluição e falta de água

O certo é que o tempo anda às avessas, com coisas estranhas e fora de época - e nem tudo é positivo. Em Madrid, por exemplo, as temperaturas altas e a falta de precipitação, como está a acontecer por todo o continente, contribuíram para um aumento da poluição atmosférica nas últimas semanas na capital espanhola. E essa não é única preocupação do outro lado da fronteira. Tal como em Portugal, que desde setembro quase não tem registado precipitação, a falta de chuva começa a ser uma preocupação para os agricultores, já que a produção de cereais pode ficar em causa devido à extrema secura dos solos.

O abastecimento de água é outro problema, se continuar este padrão de ausência de chuva, e não é só Espanha que está no fio da navalha. Em França a situação é idêntica e em Portugal as coisas também não são brilhantes. "Se não tivermos modificações nos próximos três meses, Portugal terá problemas de abastecimento de água", sublinha Pedro Viterbo.

Nas estâncias de esqui alpinas o panorama também não é o melhor, por causa do bom tempo. Das 130 pistas de esqui que ali existem apenas 30 estão neste momento praticáveis, com cerca de 80% delas a registar défice de neve. Isso implica que é preciso produzi-la artificialmente com custos económicos e energéticos.

As previsões, entretanto, dão uma descida da temperatura a partir de terça-feira, mas mesmo assim não será aquele frio a que estamos habituados no Natal.

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