Está a chegar a "estrela do Natal". Júpiter e Saturno juntos como nunca os viu

Como celebrar, nesta segunda-feira, a noite mais longa do ano? Observando os céus, por exemplo. Logo após o pôr do Sol vai ver algo que nunca viu nem nunca mais verá: a conjunção os dois maiores planetas do sistema solar

Os dois maiores planetas do nosso sistema solar, Júpiter e Saturno, estão a aproximar-se como nunca se viu desde a Idade Média - o que está para acontecer já nesta segunda-feira, dia 21, e daí tratar-se o fenómeno como "estrela de Natal".

Embora não se tratando de uma estrela real, os dois planetas estarão tão próximos que formarão um brilho conjunto. Na noite desta segunda-feira, solstício de inverno, Júpiter e Saturno irão aparecer alinhados tão próximos que parecerão um planeta duplo - algo que os astrónomos chamam de "conjunção". O facto de isto acontecer no solstício de inverno é pura coincidência, segundo a NASA.

"Alinhamentos entre esses dois planetas são bastante raros, ocorrendo uma vez a cada 20 anos ou mais, mas essa conjunção é excecionalmente rara por causa da proximidade dos planetas", disse o astrónomo Patrick Hartigan, professor de Física e Astronomia da Rice University (Houston, EUA). "Teríamos de voltar até um pouco antes do amanhecer de 4 de março de 1226 para ver um alinhamento mais próximo entre esses objetos no céu noturno", disse ainda.

"Desta vez, se pusermos um dedo mindinho, vamos conseguir tapar os dois planetas, o que quer dizer que é mesmo, mesmo, muito próximo."

Até ao dia 25 de dezembro, os dois planetas irão ficar cada vez mais próximos - e isso pode ser visível todos os dias cerca de uma hora depois do pôr do Sol.

"Pode imaginar-se o sistema solar como uma pista de corrida, com cada um dos planetas como um corredor na sua própria pista e a Terra em direção ao centro do estádio", disse Henry Throop, astrónomo da Divisão de Ciência Planetária na sede da NASA em Washington. "Seremos capazes de ver Júpiter na pista interna, aproximando-se de Saturno durante todo o mês e, finalmente, ultrapassando-o em 21 de dezembro."

Como observar?

Pedro Garcia, técnico de comunicação do OASA (Observatório Astronómico de Santana - Açores) explicou à Lusa que "não só são os dois maiores planetas do sistema solar, como também são os dois maiores planetas que conseguimos ver a olho nu", ainda que Vénus seja "mais brilhante".

Há 20 anos, em 2000 - acrescentou - "estes dois planetas estiveram muito perto, ao ponto que conseguíamos pôr um dedo mindinho entre os dois, que é mais ou menos um grau no céu. Desta vez, se pusermos um dedo mindinho, vamos conseguir tapar os dois planetas, o que quer dizer que é mesmo, mesmo, muito próximo".

O ideal será usar um telescópio, mas "a olho nu" e "num céu com muito pouca poluição luminosa e numa noite com boas condições meteorológicas, vai ser possível ver os dois planetas tão juntos que vai parecer apenas um".

Também uns binóculos, que "até podem ser daqueles de brincar", podem ajudar. "Se os binóculos tiverem alguma dimensão, 50x70, vão já conseguir ver as luas de Júpiter e perceber que Saturno tem umas 'orelhas', que são os anéis", garante o técnico.

O fenómeno acontece por volta das 18h30 em Portugal continental (17h30 nos Açores) mas Pedro Garcia aconselha a que se comece a acompanhar o fenómeno a partir das 16h30 (15h30 nos Açores). "A partir das 19h00 (18h00 nos Açores), os objetos (planetas) já estarão a tocar no horizonte e vão desaparecer ao longo da noite.

Quanto à sua posição, "o objeto vai ser visto a sudoeste. Depois de o Sol se pôr, mais ou menos na mesma posição", adianta.

Com a aproximação ao Natal, e no dia do solstício de inverno, este alinhamento reveste-se de especial relevância, já que há quem o compare com a estrela que guiou os Reis Magos.

"Desde que as pessoas tenham uma boa vista para o mar, a sudoeste, que não tenha nenhuma montanha ou nenhuma casa à frente, ou postes de luz com poluição luminosa, vão facilmente ver este fenómeno", garante.

Os dois planetas irão formar um ponto que se assemelha a uma estrela. Pedro Garcia esclarece que "uma das formas como percebemos que não é uma estrela é porque não cintila, porque os planetas não cintilam no céu, mas vai aparecer um ponto muito brilhante no céu".

Com a aproximação ao Natal, e no dia do solstício de inverno, este alinhamento reveste-se de especial relevância, já que há quem o compare com a estrela que guiou os Reis Magos: o astrónomo e matemático Johannes Kepler, no século XVII, "sugeriu que o que está descrito da estrela de Belém tenha sido uma conjunção, mas não me parece que seja nada disso, até porque o efeito não será semelhante à descrição da estrela de Belém", desmistifica.

"Aproveitem porque este fenómeno só volta a acontecer daqui a cerca de 60 anos, em 2080, e, se calhar, esta pode ser a última oportunidade para muitas pessoas."

Simbolismos à parte, o conselho é que "quem poder fazer isso [observar a conjunção], que o faça".

"Aproveitem porque este fenómeno só volta a acontecer daqui a cerca de 60 anos, em 2080, e, se calhar, esta pode ser a última oportunidade para muitas pessoas", afirma o responsável.

Apesar de estar fechado nesse dia, o OASA irá transmitir online imagens deste acontecimento. Mas o técnico reforça: "Vou ser sincero, estes vídeos podem ser vistos depois, na internet, o que eu aconselho é que, se estiver bom tempo, vão lá para fora, usem o telemóvel, e vão ver o fenómeno."

Para os astrónomos de todo o mundo há uma certeza: não há melhor maneira de celebrar a noite mais longa do ano do que a observar o céu - e desta vez o céu vai proporcionar algo que nunca se viu nem nunca mais se verá enquanto formos vivos: a conjunção dos dois maiores planetas do sistema solar.

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