"Não há mulheres suficientes no mundo dos negócios"

A criadora do programa Connect to Success prometeu regressar a Portugal para dar continuidade ao projeto que tem ajudado centenas de empreendedoras portuguesas a criarem empresas. Esta semana, Kim Sawyer volta com novidades do projeto que ajuda mulheres a conquistarem a autossuficiência e confiança, conceitos essenciais para a ex-embaixatriz dos EUA. Em setembro, altura em que o programa comemora o 3º aniversário, o Connect to Success vai juntar-se a outras causas como a construção de casas para os desfavorecidos e sensibilização contra a violência doméstica

Quando se foi embora disse que não era um "adeus" mas sim um "até já". Como se sentiu ao regressar a Portugal?

É maravilhoso. Deixei o meu coração e uma grande parte de mim mesma em Portugal e quero continuar o trabalho que aqui comecei. Sinto que realmente ajudei Portugal. O que é interessante para mim é que eu vendi há três semanas para a Pricewaterhouse Coopers a empresa que construí e que foi minha durante 23 anos. O comum seria dizer que o meu maior feito foi montar uma empresa que pude vender para uma firma tão boa, mas não é. A coisa mais importante que fiz na minha vida foi o Connect to Success e este trabalho será provavelmente o mais importante da minha vida.

Porquê Portugal? Porque escolheu trabalhar com mulheres portuguesas quando poderia ter criado este programa nos Estados Unidos?

Não acredito que teria pensado nisso nos Estados Unidos. Tive a ideia do programa quando o meu marido foi nomeado embaixador dos Estados Unidos em Portugal. Quis certificar-me de que arranjava um modo de retribuir a ótima oportunidade que tive ao estar aqui e a melhor maneira para mim era trazer algumas das experiências aprendizagens que tive como uma mulher empreendedora nos Estados Unidos para as mulheres portuguesas.

Quanto às suas experiências, acredita que ser uma mulher tornou o seu caminho para o sucesso mais difícil?

Eu vejo os obstáculos da vida como oportunidades e tive muitos pelo caminho. Mas ao invés de lamentar por esses obstáculos que poderiam ter tornado a minha vida mais difícil, incluindo os que apareceram por eu ser uma mulher, acredito que eles me tornaram mais forte e no fim de contas me ajudaram no caminho para o sucesso. Eu enfrentei assédio sexual e discriminação de género. Mas realmente acho que a maneira como trabalhei e lidei com estas situações, preservei a minha integridade e mantive a cabeça erguida ajudou-me a chegar até onde estou hoje.

A Kim é hoje uma inspiração para muitas mulheres. Em quem se inspirava enquanto enfrentava estes obstáculos de que fala?

Acho que a minha inspiração foi a minha avó, que me criou. A minha avó ficou paralisada da cintura para baixo num acidente de carro aos 40 anos e eu nasci um ano depois. Ela ensinou-me que não importa o quão horrível é a vida e independentemente das barreiras que são postas no nosso caminho, não podemos ir abaixo. Eu admirava-a e ao seu espírito, generosidade e inteligência.

Como são as mulheres portuguesas diferentes das norte-americanas?

Há estereótipos que prevalecem mais em Portugal do que nos Estados Unidos. Eles existem nos Estados Unidos mas aqui têm mais força. Por exemplo, a ideia de que para uma mulher ter sucesso nos negócios tem de ter um homem. É um estereótipo e não acredito que seja verdade. Não há nenhuma incoerência em ler um jornal económico e a Vogue.

Como interpreta os papéis sociais ainda atribuídos a homens e mulheres na sociedade portuguesa?

Vejo que as coisas estão a mudar entre os mais novos nas universidades. Há uma maior abertura para as mulheres trabalharem mas, acho que no final das contas nada pode mudar até haver uma maior compreensão de igualdade a nível familiar e os homens exercerem um maior papel no cuidado dos filhos e dos pais, como as mulheres fazem. Um dos maiores problemas para uma mulher ao subir na carreira é que quando acaba o turno de trabalho - mesmo que ela trabalhe - ela não pode sair o final do dia para fazer contactos e network e não pode ficar até mais tarde no trabalho para acabar um projeto. Espera-se que ela vá para casa e cuide dos filhos ou os pais, mesmo tendo ela trabalhado o dia inteiro. A ideia de igualdade entre homens e mulheres nos seus papéis [sociais] ajudaria a aliviar e a fazer uma mudança.

Como acha que poderíamos trazer esta ideia de maior igualdade para a sociedade portuguesa? Se dependesse apenas de si, o que mudaria?

Algumas das mudanças deveriam estar relacionadas com a igualdade das regras. Por exemplo, as licenças de maternidade e paternidade deveriam ser iguais. Algo que funcionou muito bem nos Estados Unidos foram os infantários gratuitos nos locais de trabalho. Exemplos a seguir também são muito importantes, mas um dos problemas é que não há muitos exemplos aqui de casais em que os homens escolhem ficar em casa e as mulheres são o ganha-pão. Este tipo de decisões são muito pessoais e devem ser feitas pelo casal e não deviam depender da pressão de outras pessoas. Mas têm de existir exemplos para as pessoas perceberem que não há problema em ser diferente e fazer algo diferente. Não temos de fazer o que a sociedade espera que façamos.

Acha que há falta de mulheres exemplares em Portugal?

Há um grande número de ótimas mulheres que são um exemplo em Portugal, mas não necessariamente no mundo dos negócios. [Nesta área] não há suficientes.

O que pensa sobre as quotas, para garantir que as empresas tenham um certo número de mulheres nas posições de topo?

A questão das quotas é muito complicada. Elas com certeza ajudam a trazer mais mulheres para as posições de liderança, mas por vezes são um problema. Sendo ou não verdade, muitas pessoas acreditam que as mulheres que conseguiram esses cargos apenas o fizeram por causa das quotas, o que acaba por ser prejudicial para as mulheres. Se um homem e uma mulher com as mesmas qualificações se candidatassem a um cargo de CEO e a preferência fosse dada à mulher eu não teria nenhum problema com isso. O que me preocupa é quando dizem que a única razão para aquela pessoa estar naquela posição é o facto de ser mulher. Infelizmente, não só em Portugal, mas em geral, muitas mulheres em posições de liderança não fazem o suficiente para aconselhar e ajudar outras. Acredito que isto é obrigação de uma mulher que esteja nessa posição.

Enfrentou comentários desse tipo? Disseram que apenas foi escolhida por ser mulher?

Não, eu lidei com o oposto. Quando exercia advocacia tive problemas com comentários inapropriados dos meus supervisores. Além disso, trabalhei muito arduamente num processo e quando chegou a altura de ir a tribunal não fui escolhida e foi um homem sócio [da empresa] que nunca tinha trabalhado nesse processo. Não tive dúvidas de que foi por causa do meu género. O que também é interessante na minha carreira é que eu era muito nova quando comecei a trabalhar com homens mais velhos e poderosos, então as suas expectativas quanto a mim eram muito baixas. Após aceitar este facto, usei isto ao meu favor. Certificava-me de que sempre que entrava numa sala sabia mais sobre um determinado assunto do que qualquer outra pessoa lá dentro. No final, acabei por conseguir o contrato. Não por ser mulher, mas porque era a mais qualificada.

Porque decidiu construir a sua própria empresa e trabalhar sozinha?

Fi-lo por uma série de razões. A primeira foi porque tenho uma dificuldade de aprendizagem grave e sabia que para ter o maior sucesso possível tinha de criar o meu próprio ambiente de trabalho. E a única maneira de fazer isso era começando o meu próprio negócio. Senti uma forte necessidade de ser autosuficiente e a melhor maneira era fazê-lo sozinha. Mas o que também me motivou foram as experiências negativas que tive ao trabalhar para outros, desde o assédio sexual e discriminação de género, a problemas éticos que enfrentei mais adiante na minha carreira. Estava na hora de controlar a minha própria vida, carreira e caminho.

A ideia de que as mulheres podem ter o controlo das suas próprias vidas é uma mensagem que quer passar a outros?

As mulheres podem controlar as suas próprias vidas e acho que é muito importante serem autossuficientes. Uma das áreas em que sou muito ativa em Portugal é na sensibilização para a questão da violência doméstica. É um grande problema no mundo e em Portugal. Há muitas razões para as mulheres permanecerem nestas relações mas uma delas é o facto de as mulheres serem muitas vezes economicamente dependentes dos maridos ou companheiros. Elas não têm os recursos para sair [da relação] ou cuidar dos filhos. Ser autossuficiente é muito importante de várias maneiras.

Empoderar mulheres parece ter-se tornado a missão da sua vida. Porquê?

Acho que começou com a minha dificuldade de aprendizagem. Eu realmente tive de lutar não só para chegar onde estou hoje, mas também para sobreviver. A minha vida não foi fácil. Quando olho para trás vejo que tenho muita sorte e que muitas pessoas passaram por muito pior. E quando pensei em Portugal e nas dificuldades económicas que o país enfrentava quando aqui cheguei [em 2014] e as consequências especificamente para as mulheres, pensei que era perfeito. Eu sabia o que era ser mulher, o que era enfrentar dificuldades e queria ajudar.

Fala frequentemente sobre a importância da confiança e do falhanço e diz que os portugueses lidam com estes conceitos de uma forma muito diferente da maneira americana. Porque são estes conceitos tão importantes para si?

Acho que nunca disse isto numa entrevista, mas eu diria que não tinha nenhuma autoconfiança até chegar à faculdade. Quando era criança, e até na adolescência, tinha medo de entrar numa sala e as pessoas olharem para mim de uma forma estranha. Não tinha muitos amigos e passava a maior parte do tempo a ler. Lembro-me daquela sensação horrível de querer encolher-me e não ser vista quando entrasse numa sala ou na cantina da escola. Eu sei o quanto era horrível e quão melhor me senti como pessoa ao tornar-me confiante. Autoconfiança é a chave para muitas coisas, não só empreendedorismo, mas também para a sobrevivência neste mundo.

Como se tornou autoconfiante?

Acho que é preciso estar disposto a arriscar [para se ganhar confiança] mas é muito difícil arriscar quando não se tem autoconfiança. É como perguntar se primeiro apareceu o ovo ou a galinha. Durante os primeiros três discursos que fiz em Portugal eu estava aterrorizada e a tremer. Tenho medo de falar em público. E de repente percebi que as pessoas não estavam lá para me deitar abaixo ou encontrar defeitos, e que estava a ajudar o público e eles entendiam. E comecei a discursar para centenas de mulheres que tiveram as mesmas experiências que eu. Acho que isso me ajudou a se mais confiante: saber que não sou a única. Espero que ao falar das minhas fraquezas, erros, desilusões e lutas outras mulheres possam perceber que também não estão sozinhas e que isso as ajude a terem autoconfiança.

Acredita que as mulheres têm pouca confiança em geral?

As mulheres tendem a ser menos confiantes que os homens. Estão sempre a pedir desculpas por tudo e os homens seguem em frente. Como mulher, quando cometes um erro pedes sempre desculpas e os homens, muito frequentemente, nem comentam. Talvez esteja relacionado com as circunstancias ambientais. Os homens são mais competitivos, como com o desporto. Eles tendem a fazer mais coisas que melhorem a sua confiança quando são mais novos do que as mulheres.

Ainda pede desculpas frequentemente?

(Risos) Provavelmente mais frequentemente do que devia. Mas já não peço desculpas porque acho que fiz alguma coisa errada ou porque tenho necessidade de pedir desculpas ou porque alguém espera que eu o faça. Peço desculpas porque quero pedir desculpas. É diferente de ter necessidade de o fazer.

O que gostaria de ensinar às mulheres portuguesas sobre o falhanço que elas ainda não saibam?

Não só às mulheres, mas também aos homens. Se não fizerem nada, nada vai mudar. Qual é a pior coisa que pode acontecer se fizerem algo e não acertarem? Se aprenderem com o erro, esse erro pode ser o primeiro passo para o próximo sucesso. A ideia de ter tanto medo de se mover faz-nos ficar no mesmo lugar. Cai para a frente, não caias para trás e, a partir do momento em que estás a cair para frente, não há nenhum problema em cair.

Porque acha que temos medo? Será um traço cultural?

Sim, creio que é [um traço] cultural e não só dos portugueses, dos europeus em geral. Ouvi muitas vezes pessoas dizerem que têm medo de fazer algo porque os vizinhos vão dizer "eu avisei-te". Está relacionado com a confiança porque se formos autoconfiantes, se alguém nos disser "eu avisei-te" nós podemos responder "sim, avisaste, mas pelo menos tentei".

O programa Connect to Success ajudou mais de 900 mulheres. Que histórias mais a marcaram durante este percurso?

Basta ver a confiança na cara destas mulheres. Tem sido inacreditável ver as mulheres que estiveram neste programa em workshops ou a receber acompanhamento de empresas ou fizeram parte do programa que envolve estudantes de mestrado MBA. Ver como elas se comportam e sorriem e são muito mais assertivas. Fazem contactos, vendem os produtos e serviços umas das outras e promovem-se mutuamente. É absolutamente maravilhoso assistir a isto. E também temos histórias de sucesso como a da empresa Last 2 Ticket. A criadora é umas das nossas empreendedoras desde o princípio. Ela começou a fazer negócios em Portugal e agora está na Ásia. Isso é absolutamente incrível.

Na sua despedida como embaixatriz de Portugal, falaram do "Efeito Kim". Como descreveria o "Efeito Kim"?

(Risos) Não fui eu que inventei esse nome, não sei descrever. Eu chorei quando vi o vídeo [de despedida. Significou muito para mim. Este é o trabalho mais importante que já fiz e fico muito feliz e orgulhosa por poder fazer uma diferença. Sinto que ganhei mais com este programa e de várias formas do que estas mulheres.

O que podemos esperar do Connect to Success no futuro?

Este outono vamos construir uma casa para uma família desfavorecida em colaboração com o Habitat for Humanity e a parte mais fantástica - além de melhorarem as capacidades de trabalharem em equipa, de comunicação e de estabelecer contactos - estas mulheres vão mais uma vez ajudar os outros. E é isto que me mostra que o programa tem funcionado. Há outra parte importante neste projeto. Há o estereótipo de que as mulheres são mais fracas e piores nas atividades físicas como os homens. Nós vamos ter um grupo de mulheres a construir uma casa e acho que é muito importante por causa da autoconfiança que se tem ao construir uma casa e para dizimar os rumores de que as mulheres não conseguem fazer coisas deste género. Além disso, vamos levar em janeiro o MBA Masters Consulting Program para os Açores.

Outro projeto muito entusiasmante está relacionado com a violência doméstica. Vamos fazer uma passeata de motas para chamar a atenção para o problema da violência doméstica. O Connect to Success vai juntar-se ao FLAD, a um grupo de motoqueiros e ao meu marido, que vem de Boston para liderar o caminho. Pretendemos conseguir o maior número de motoqueiros possível para fazer o maior barulho possível contra a violência doméstica.

Que conselho gostaria de ter recebido quando começou o seu próprio caminho para o sucesso?

Provavelmente que por vezes seguimos um determinado caminho e passamos muito tempo nele e o melhor a fazer é dizer "falhei", dar uma volta e seguir outro rumo.

Que mensagem daria às raparigas e mulheres portuguesas?

A primeira resposta que me surge é vocês conseguem. Acreditem em vocês mesmas. Nada vos vai parar se vocês tiverem vontade. Vocês vão encontrar o caminho.

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