"É preciso pensar na matança que ainda hoje ocorre 'em nome de Deus'"

É um dos mais importantes teólogos portugueses, sempre escutado quando as questões religiosas estão na primeira linha do debate. Anselmo Borges lança amanhã um exaustivo estudo sobre múltiplos aspetos da religião católica e das outras religiões, respondendo às grandes perguntas da humanidade

O novo ensaio de Anselmo Borges não tem as 1600 páginas do de Ernst Bloch, mas nas 250 páginas de Deus Religiões (In) Felicidade estão presentes as mesmas questões eternas do homem feitas então pelo filósofo e ateu religioso: Quem somos? Para onde vamos? Quanto às respostas, o teólogo católico faz uma busca magnífica e contemporânea destas grandes interrogações, sendo alguns dos resultados do seu pensamento tão em cima da atualidade que se pode dizer que o volume foi impresso mesmo na véspera em que cada novo leitor o percorrer.

Este é um livro eminentemente de perguntas. A catadupa de acontecimentos do mundo atual não nos obrigará a deixar de as fazer?

Esse é o maior perigo. A mim o que mais me preocupa não é que não haja respostas mas sobretudo que não se coloquem as grandes perguntas. O ser humano é o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, pergunta ao Infinito pelo Infinito e é aqui que vejo o fundamento da dignidade humana: um ser finito e mortal ter em si a capacidade de pôr a questão do Infinito. Fá-lo, porque tem algo de infinito nele. Por isso, é fim e não meio, não tem preço, mas dignidade, como viu Kant. Por outro lado, como disse Heidegger, a pergunta é a piedade do pensamento.

Cada vez mais a morte de figuras públicas é um momento de celebração usado pela comunicação social e um desfile de memórias pessoais nas redes sociais. Esta situação não leva ao fim do último tabu, o da morte?

Trata-se de figuras públicas, consagradas agora em grandes liturgias nas redes sociais. Mas essa é a morte "limpa", longínqua e neutra, na sociedade-espetáculo. Isso não invalida o tabu da morte nas nossas sociedades, nas quais se morre nos hospitais, frequentemente no abandono, onde a morte é ocultada e vive-se como se não se tivesse de morrer. Essa é a razão fundamental para a banalidade rasante e a inautenticidade do viver, como refletiu Heidegger. É o pensamento sadio da morte que nos remete para o essencial e leva à distinção entre o que vale e o que não vale.

Ainda existe maneira e necessidade de se chegar a Deus?

Todos se apercebem de que há um mistério no mundo, que é ambíguo e que exige interpretação. Porque há algo e não nada? Porque é que se deu o big bang? É tudo para nada? Qual é o sentido último da minha existência, da existência de tudo? Em Deus, o crente encontra resposta para estas perguntas, mas entende-se que o não crente siga outra via, parecendo-lhe que há mais razões para não acreditar. Num caso e no outro, a fé depende de uma decisão, com razões.

Não é uma ilusão a necessidade de que o ser humano precisa de ter a verdade toda?

Quem reflete sabe que não é possível ter a verdade toda. Ninguém a pode ter. Nenhuma filosofia ou religião, nem as religiões todas juntas. Essa verdade é da ordem da ultimidade e nós somos penúltimos. Por isso, o fundamentalismo, seja qual for - político, económico, religioso... - é uma questão de estupidez e ignorância. Estamos no fundamento, mas ninguém o possui.

O "silêncio de Deus" não se tornou mais cómodo para a humanidade?

É possível que seja assim para algumas pessoas e grupos. Mas não creio que seja o caso da humanidade enquanto tal. Na medida em que Deus desaparece do horizonte, noto que as pessoas andam cada vez mais desorientadas. E tudo depende do que se entende por "silêncio". A grande poesia, as palavras decisivas acendem-se no silêncio. Deus fala no silêncio, como sabem os místicos.

Tem logo no título uma interrogação sobre o conceito de felicidade. Essa "sensação" não é uma busca infrutífera, até mais própria de um século XX do que uma exigência atual?

Aquilo que está ou, melhor, que eu quereria que estivesse é que há um paradoxo: as religiões justificam-se pela busca da felicidade, mas, de facto, muitas vezes foram e são causadoras de imensa infelicidade. Daí, no título aquele (IN)FELICIDADE. Mas creio que todos procuramos a felicidade. O que é que verdadeiramente queremos? Não é ser felizes? Nisto penso que estamos todos de acordo. A questão é saber em que consiste a felicidade. As religiões são promessa de felicidade por graça de Deus. Elas dão confiança, esperança, também para lá da morte; muitas vezes as religiões e as pessoas religiosas contribuíram e contribuem para a felicidade na luta pela justiça, no respeito pelos direitos humanos. O que constitui problema é tanta infelicidade causada pelas religiões: pense-se no controlo das consciências, na Inquisição, nos escrúpulos, na matança que ainda hoje acontece "em nome de Deus".

Em várias passagens há referência à existência ou não de Deus. Não é um discurso perigoso para um religioso referir a questão ou é um privilégio dos tempos?

O crente tem de ser intelectualmente honesto. O crente não pode dizer que sabe que Deus existe, como o não crente também não pode dizer que sabe que Deus não existe. A fé em Deus é uma questão de fé. Com razões.

Quando refere a atuação dos papas no livro não os olha como fruto de uma escolha para os desafios de determinado tempo em que governarão em vez de terem um desígnio intemporal?

Evidentemente, temos de ver os papas também no seu contexto histórico, pois, embora a mensagem do Evangelho seja a mesma, ela tem de ser aplicada aos diferentes mundos e tempos na história. Quando olhamos para a história da Igreja, encontramos papas santos, mas também papas que foram perniciosos para o Evangelho e para a humanidade, que cometeram atrocidades, de tal modo que costumo dizer que, por vezes, é preciso acreditar no Deus de Jesus, apesar da e até contra a Igreja oficial.

Em várias páginas refere Hans Küng. Ele já não é uma oposição dentro da Igreja?

Tenho muito gosto em conhecê-lo pessoalmente. Para mim nunca foi um opositor da Igreja. Pelo contrário. Para ele, cristão é aquele, aquela, para quem Jesus é o determinante na vida e na morte. Com a sua teologia abriu portas fundamentais ao diálogo ecuménico, ao diálogo inter-religioso, ao diálogo com a ciência, a um ethos mundial. Contribuiu de modo decisivo para a reforma da Igreja. Aliás, o Papa Francisco já lhe escreveu mais de uma vez, concordando em rever, por exemplo, a infalibilidade papal. Uma forma de reabilitação.

Com a mudança social tão rápida e por caminhos que branqueiam o presente, a religiosidade continuará a existir daqui a um século?

Enquanto houver seres humanos, finitos, mortais, mas abertos ao Infinito, hão de perguntar pelo fundamento último da realidade e pelo sentido da existência, sentido último. Penso, pois, que a religiosidade estará sempre presente. As estatísticas aliás mostram-no. O que se observa é um distanciamento e desafeição maiores face às religiões oficiais, institucionais e uma religiosidade mais mística.

Nunca como hoje se falou tão abertamente das outras religiões. É sinal de que o diálogo inter-religioso está em curso e deu fruto?

Sim, está em curso. Aliás, não há alternativa. Como há anos repete Küng, não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. E não haverá paz entre as religiões sem mútuo conhecimento e reconhecimento e autocrítica e aceitação da crítica. Por isso, penso que o facto religioso e a história das religiões deveriam fazer parte do currículo escolar. Alguns frutos há. Por exemplo, os encontros de Assis, desde João Paulo II até Francisco, passando por Bento XVI. E não só os de Assis. Este diálogo é essencial. Ele é exigido também por uma compreensão correta do que é a religião: religação ao sagrado, ao mistério, referente último de todas as religiões. E ninguém possui a verdade toda: há mais verdade em todas as religiões do que numa só e, por isso, todos juntos podemos ver mais. Até sublinho que deste diálogo fazem parte também os ateus e os agnósticos, na medida em que, estando de fora, mais facilmente veem a desumanidade e superstição tão frequentes nas religiões instituídas. Para o diálogo, em ordem à liberdade e à paz, há outras condições essenciais: a leitura histórico-crítica dos textos sagrados, que não podem ser lidos à letra, e a laicidade, que salvaguarda a não confessionalidade dos Estados e que exige a separação da(s) Igreja(s) e do(s) Estado(s), da religião e da política. Evidentemente, a laicidade não pode ser confundida com o laicismo, que seria a religião da não religião, a política de retirar a religião do espaço público, como acontece tão frequentemente sobretudo na Europa. A laicidade não deveria impedir o diálogo e até a colaboração com as religiões.

As inovações num discurso de maior complementaridade entre religião e ciência são um compromisso por parte da Igreja?

Julgo que, depois de episódios desastrosos como o de Galileu, hoje é um dado adquirido essa boa relação. A religião não pode ir contra o conhecimento científico. Mas a ciência não detém o monopólio da razão. Há dimensões humanas a que o método da ciência não pode responder: qual o fundamento último da realidade?, qual o sentido da existência?, a ética? A fé não pode ser obscurantista. Para que não se cumpra o dito de Diderot e Voltaire: temos uma luz, fraca certamente, mas é a que temos, a luz da razão; vem o teólogo e apaga-a.

Este livro é o diário de um crente?

De algum modo. Na medida em que é um dizer a sua própria fé no confronto com a razão, a ciência, os novos saberes, as razões dos ateus, dos agnósticos, das outras religiões. Estamos sempre co-implicados.

Consegue viver em paz face a todas estas questões que coloca?

Sim. Tenho a paz que deriva da confiança de base que a fé no Deus de Jesus dá. Por outro lado, a razão e a dúvida não estão adormecidas. Somos seres rácio-emocionais e a fé é um combate. Parece-me que há mais razões para acreditar do que para não acreditar. Pessoalmente, não consigo ver-me como não crente, mas entendo as razões de quem não crê.

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