"A Igreja tem de ter resposta para os casamentos desfeitos"

A Igreja vai mudar em alguns aspectos a posição sobre o casamento católico, antecipa ao DN Austen Ivereigh, autor de uma biografia de referência sobre Francisco, a propósito da exortação apostólica a ser publicada na sexta-feira.

Francisco completou a 13 de março o terceiro ano de pontificado. O que conseguiu até agora?

O mais importante tem a ver com o governo da Igreja. Desencadeou o processo de reforma da Cúria, realizou os sínodos sobre a família, que criaram uma nova dinâmica na Igreja. E, uma ideia que lhe é cara, tem trazido as periferias cada vez mais para o centro da Igreja e permitido que estas tenham maior influência na atividade pastoral. Pode parecer pouco, mas o que está a suceder mostra que estamos perante o mais dinâmico e inovador papado em muitas gerações.

A exortação apostólica A Alegria do Amor marcará a rutura ou será exemplo de continuidade?

Se se está à espera de uma mudança da doutrina da Igreja sobre o casamento, isso não vai suceder. O objetivo central será o de reforçar o entendimento do casamento e da família num tempo em que esse entendimento está em crise total nas sociedades ocidentais. A exortação dirá que o casamento é entre um homem e uma mulher, indissolúvel e aberto à criação de vida - tudo o que a Igreja sempre disse que o casamento é. Mas isto não quer dizer que não desencadeie um processo de importantes consequências a longo prazo.

De que forma?

No ponto de partida esteve a constatação de que o significado do casamento se perdeu nas sociedades ocidentais e nas leis que as regem. E da crise do significado do casamento passou-se ao Direito a redefinir o casamento como um contrato temporário entre quaisquer duas pessoas, sem qualquer sentido mais profundo. Assim, a primeira constatação é que a Igreja não pode (e desde há bastante tempo que não o pode fazer) depender da cultura social e legal para sustentar o significado do casamento. Por outro lado, a Igreja não tem preparado convenientemente as pessoas para o casamento, o que é grave. Isto significa que as pessoas casam-se sem saberem o que estão a fazer e quando algumas vão pedir a anulação de um casamento, acaba-se por anular aquilo que, para começar, nunca deveria ter sucedido. Desta constatação resultou uma nova estratégia pastoral para o casamento.

Em que sentido?

Tem de se ensinar às pessoas, aos católicos e à cultura de uma sociedade, o que é o casamento, antes de existir casamento. Depois, tem de se reconhecer as consequências da crise da instituição do casamento e de tornar percetível para as pessoas que os seus casamentos nunca foram válidos para começar, e permitir-lhes o regresso à Igreja. Isto significa tornar os processos de anulação mais simples, expeditos...

Mais pessoas poderão pedir a anulação de um casamento?

Sim, e devem fazê-lo. Um dos problemas é que não o fazem. Se olharmos as estatísticas, vemos que desde os anos 60/70, cresce a taxa de divórcios, mesmo entre os católicos, mas a taxa de anulações cresce pouco. Ou seja, as pessoas divorciam-se e ficam afastadas da Igreja. Pensam que falharam, que não serão bem vistas ou bem recebidas. Então, o que o Papa procurou foi a criação de um mecanismo que permita a reintegração de todas essas pessoas que se sentem excluídas. E parte do processo é convidá-las a pedir a anulação dos seus casamentos. O que implica, e isto é importante, a reforma do sistema das anulações. O que já sucedeu.

Como é que isso estará expresso na exortação?

Se estão à espera de grandes novidades sobre a comunhão e o divórcio, penso que ficarão desapontadas. Não haverá mudanças radicais. O que será novo e importante é o elemento da preparação para o casamento. Antecipo que jornalistas e comentadores vão menosprezar isso. Mas é um aspecto central e a exortação vai mostrar que é o início de um processo em que a Igreja reconhece que tem de ensinar às pessoas o significado e alcance do casamento. O que a exortação vai afirmar é que existem muitas formas de casamento pelo mundo, mas quiser escolher o casamento católico tem de compreender o que é. Ora, isso não sucede sem catequese e formação, o que implica a mobilização de todos os recursos da Igreja em si, das dioceses, de todos...

O que não sucede atualmente?

Exatamente. A Igreja parte do princípio de que as pessoas sabem o que estão a fazer quando se casam. Não é uma conversa, por exemplo, de três horas que prepara as pessoas para resistirem ao zeit geist [espírito do tempo], para resistirem às atitudes culturais dominantes. E até a própria experiência do divórcio como algo que está em toda a parte, à nossa volta.

É uma mudança de paradigma?

Sim. Mas, como sempre sucede com a Igreja, o processo será lento e gradual. E muitos quando lerem o documento nem vão perceber o que está a acontecer. Francisco pensa em termos estratégicos. Sabe que a Igreja tem de mudar as suas respostas pastorais e de forma rápida. Poderia ter escrito uma encíclica, mas aí teria desencadeado uma controvérsia, discussões e divisões. Assim, preferiu que o Sínodo fosse o local privilegiado de discernimento, de tensão e debate até se chegar a um consenso. E Francisco trabalhou o texto da exortação a partir desse consenso para levar a Igreja para diante. É uma atitude inteligente.

Mas já há críticas...

Haverá sempre críticas. Estamos a lidar com a questão da indissolubilidade do casamento: nada pode separar o que Deus uniu. Mas a questão é também "o que uniu Deus?". E temos a realidade pastoral confrontada com casamentos desfeitos. Ora, a Igreja tem de ter uma resposta para a realidade dos casamentos desfeitos, sem pôr em causa a doutrina fundamental. Esta é uma realidade tensa. Muitos no Sínodo [de 2015] disseram que o mais importante era a defesa da doutrina, até por se sentirem ameaçados por aquilo que sucede à sua volta, outros quiseram enfrentar a situação... A minha perceção é que Francisco teve a maioria do Sínodo com ele, como tem a maioria da Igreja com ele.

Se tivesse de definir Francisco numa frase...

É difícil. Talvez "Deus nunca se cansa de nos perdoar".

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