Empresas nacionais vão ganhar mais seis milhões no Espaço

Reforço da participação financeira de Portugal na ESA e a criança da agência espacial nacional são alavancas de desenvolvimento

As empresas portuguesas do setor espacial veem com agrado a decisão do governo de reforçar a participação de Portugal na agência espacial europeia (ESA) nos próximos anos e também de criar, talvez já em 2017, uma agência espacial nacional. A futura agência, para coordenar as atividades ligadas ao espaço, bem como os respetivos financiamentos é, afinal, uma aspiração com mais de uma década por parte do setor.

O aumento das verbas pagas à ESA por Portugal totaliza 30,5 milhões de euros para os próximos seis anos, o que significa um crescimento de 43% em relação ao que estava previsto para o mesmo período. Nas contas de António Neto da Silva, presidente da Proespaço, a associação que reúne as empresas nacionais na área espacial, esse reforço permitirá um crescimento de cerca de 20% da produção e faturação anuais das empresas.

Em números absolutos, trata-se de um aumento potencial de seis milhões na faturação anual global das empresas associadas da Proespaço, que nesta altura realizam em conjunto cerca de 30 milhões de euros por ano só no Espaço.

"A indústria espacial portuguesa tem neste momento capacidade para realizar o dobro", garante António Neto da Silva. Nesse sentido, a Proespaço tinha proposto ao governo um aumento de 57 milhões de euros para os próximos três anos na participação de Portugal na ESA. O crescimento de 30,5 milhões para seis anos é, por isso, visto como "curto", mas também como "bom sinal", tomado na "direção certa".

"É de saudar que, no contexto de crise do país, o governo tenha dado este passo decisivo de apostar nas indústrias e tecnologias do espaço, que são prioritárias para o desenvolvimento do país, pelo potencial económico e de inovação tecnológica", diz António Neto da Silva.

Tiago Hormigo, engenheiro aeroespacial e cofundador da SpinWorks, uma das 17 empresas que constituem o universo industrial português do espaço, concorda. "Estamos preparados para fazer muito mais do que podemos [as regras da ESA estipulam que cada país membro só pode participar nos concursos para a produção de equipamentos até ao montante da sua própria contribuição financeira]", afirma Tiago Hormigo.

Praticamente inexistente antes da entrada de Portugal na ESA, em 2000, o setor espacial português "cresceu muito depressa em dimensão e qualidade e está hoje internacionalizado, em redes de colaboração industriais, científicas e institucionais",sublinha o presidente da Prospaço. "Algumas empresas portuguesas desenvolveram inclusivamente tecnologias únicas no mundo, que estão a fornecer para a NASA, por exemplo, para sistemas de comunicação, ou de aterragem noutros planetas", adianta.

Uma dessas novas tecnologias espaciais made in Portugal chama-se Gamalink e foi desenvolvida na Tekever, empresa "com 100% de capitais portugueses", como sublinha Pedro Sinogas, cofundador e seu atual CEO. Gama é uma referência a Vasco da Gama e link diz da natureza da tecnologia, que se destina à comunicação entre satélites. Já foi testada com êxito numa missão espacial chinesa e está prestes a embarcar na Proba-3, missão europeia que estudar o Sol.

Mas este é só um caso. Algumas das mais emblemáticas missões da ESA, como a ExoMars, que em outubro se saldou na chegada da sonda à órbita de Marte (o módulo de aterragem, pelo contrário, despenhou-se), já contam com instrumentos e componentes feitos em Portugal, o que demonstra também "a maturidade da indústria espacial nacional". Agora, diz Tiago Hormigo, "é preciso dar o passo seguinte e fazer a mudança de escala, que já está em curso". O reforço da participação na ESA e a criação da Agência Espacial Portuguesa serão alavancas "essenciais" nessa caminhada.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG