Emprego no Algarve a mudar. Patrões têm de ir ao Alentejo buscar trabalhadores

Emprego sazonal dura mais tempo. Sindicatos avisam que 90% do emprego é precário e empresas recorrem cada vez mais a estágios

Todos os números apontam um crescimento no turismo do Algarve em 2016. O desemprego na região, no segundo trimestre de 2016, foi de 8,1%, valor mais baixo desde 2009. Há um sentimento generalizado de otimismo, mas nem tudo está bem. É a opinião de Tiago Jacinto, coordenador do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Algarve (STIHTRS). "Constatamos um ligeiro aumento do emprego, mas é muito à base de trabalho precário. Os maiores grupos hoteleiros recorrem cada vez mais a trabalho temporário ou a estágios para ocupar postos de trabalho", denuncia.

Álvaro Viegas, presidente da Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve (Acral), confirma que existe "alguma precariedade no setor, devido à sazonalidade. Mas não me parece que seja o problema mais preocupante na região. Pior é precisarmos de mão-de-obra e não termos", realça. "A falta de mão-de--obra na época alta - neste ano tivemos de ir buscar pessoas ao Alentejo - implica contratar pessoas sem formação na área, e por isso os salários são mais baixos", acrescenta Elidérico Viegas, líder da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA).

O que é confirmado por Álvaro Viegas que assegura que neste ano "havia uma carrinha que ia a Castro Verde para trazer pessoas do Alentejo para a hotelaria no Algarve".

Já o sindicalista não concorda com a atuação das empresas do setor e aponta outros problemas. "Os quadros de pessoal continuam reduzidos ao mínimo e os trabalhadores estão a ser sobrecarregados. O ritmo de trabalho é cada vez mais desgastante. Pensamos que o impacto do aumento de turismo no emprego é muito pouco, pois 90% do emprego criado é precário. Muitos trabalhadores podem ficar mais tempo no ativo, mas acabam por cair no desemprego. É a principal região turística do país e a que tem maiores índices de precariedade", alerta Tiago Jacinto.

Quanto à questão da utilização de estagiários como funcionários das empresas, Álvaro Viegas acredita que estes "são positivos". "Desde que, e estou de acordo com os sindicatos, não sejam utilizados para substituir o pleno emprego. Entre 40 e 50% dos estagiários conseguem colocação", refere. A AHETA também elogia a prática, garantindo que as empresas "estão a cumprir o papel social que lhes compete, pois os estágios fazem parte da formação dos alunos, não se tratando de mão-de-obra para substituir trabalhadores". "Quanto à precariedade, o recurso à contratação temporária é uma realidade em zonas sazonais de todo o mundo. Se este problema não for resolvido, o recurso ao trabalho temporário é algo com que teremos de viver no futuro", conclui.

"Este mês está a surpreender. Diria que existe um aumento de clientes na ordem dos 10% a 15%", afirma Paulo Sousa, dono da Beach Hut, empresa de desportos náuticos. Rui Carnaxide, gerente de uma pizaria/bar na Praia da Luz, confirma: "Sentimos um grande crescimento neste ano, tanto antes do verão como agora. Setembro foi mais forte e outubro também está a ser. Houve necessidade de reforçar o staff de junho a setembro, quando só o fazíamos em julho e agosto. Sei de outros restaurantes que não conseguiram arranjar pessoas suficientes."

Do comércio e restauração até às principais cadeias hoteleiras, o crescimento é inegável. Nestas o aumento de hóspedes tem-se registado desde o início do ano: janeiro 16%; fevereiro 27%, março 33%, abril 10% e maio 6%. Nos Vila Galé, a taxa de ocupação em setembro foi de 91%, mais 2% do que em 2015. Outubro também será melhor. A empresa afirmou ao DN que "o quadro total de colaboradores efetivos e sazonais aumentou ligeiramente". Na cadeia Tivoli, a receita geral no Algarve cresceu "cerca de 20%". O grupo refere que "a sazonalidade tem vindo a diminuir nos últimos dois anos, especialmente nas épocas médias (abril, maio e outubro)".