"É uma investigação inquinada pela ideia que se tem de Fátima"

Entrevista ao historiador Filipe Ribeiro de Meneses

Para o historiador Filipe Ribeiro de Meneses, especialista na I República, o anúncio publicado no DN e as aparições só pode resultar de uma coincidência e não deverá existir qualquer ligação entre os autores da sua publicação no jornal e os alegados acontecimentos sobrenaturais. Principalmente porque, diz, "é difícil estabelecer um interesse comum entre os médiuns e Igreja Católica portuguesa". Justifica que os "círculos do espiritismo e do oculto têm interesses muito diferentes da Igreja e, também, inexistia qualquer ponto de contacto com os pastorinhos e as suas famílias. Se fosse uma encenação, não seria este o meio através do qual a Igreja Católica portuguesa agiria, a de ter recurso a uma prática que ela própria condenava".

O que se verifica, segundo o historiador, é uma "tentação para se querer afirmar que Fátima foi um complô urdido pela Igreja para enfraquecer a República ao tornar-se arma de arremesso, mas nessa altura não existiam ligações entre os círculos mais militantes do catolicismo e as pessoas que se reuniam desta forma."

Ao afirmar que é uma coincidência, Filipe Ribeiro de Meneses não nega que valha a pena investigar situações como a deste anúncio. Mas coloca condições: "Só de uma forma muito cuidadosa e mantendo um espírito frio e lúcido. Pega-se no pouco que se sabe e tenta-se levar a investigação até ao fim." Acrescenta: "Quando surge algo inesperado numa investigação, deve-se satisfazer a curiosidade e deixar registo numa nota de rodapé para quem desejar investigar posteriormente o tema."

Segundo o historiador, o método para avaliar situações como a deste anúncio deve ser a de "seguir os nomes que vêm na notícia, saber quem encomendou a publicação, a pôs a circular e perceber as intenções." No entanto, para si é claro o resultado: "É uma investigação algo inquinada pela ideia que se tem sobre Fátima." Não deixa de confessar: "Se quisesse saber mais, seguiria as pistas deixadas pelas figuras ligadas ao anúncio, mas nada publicaria nada sobre o assunto".

Quanto à introdução do tema espiritismo na investigação histórica, Ribeiro de Meneses refere que "há muitos trabalhos feitos sobre o espiritismo a nível europeu" e, avisa, "que se fizeram fortunas na Europa fora promovendo esses contactos com as populações", mas essa é uma realidade que "em Portugal não teve mercado para lá de alguns curiosos".

As razões para a moda do espiritismo na Europa no final da segunda década do século passado deve-se ao nível de vítimas devido à Grande Guerra: "Em Portugal, a mortalidade foi muito inferior, pois as baixas mortais rondaram as oito mil."

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