"É desconfortável quando há doentes em sofrimento"

Primeiros casos de legionela no Hospital São Francisco Xavier foram confirmados há um mês. A 4 de novembro, soube-se que a origem do surto estava no hospital. Morreram cinco pessoas, num total de 56 casos confirmados. Diretora-geral da Saúde em regime de substituição, Graça Freitas admite que não são esperados mais casos deste surto. Porém, até 3 de dezembro, autoridades vão manter-se alerta.

Um mês depois de noticiados os primeiros casos, já passou o período de incubação da doença do legionário, para o surto do Hospital São Francisco Xavier?

Já passou o prazo de incubação que são 14 dias, mas as boas práticas europeias indicam que se deve esperar dois períodos de incubação (ou seja, 28 dias), mais um dia. Período esse que só começa a contar a partir de dia 4 de novembro, quando interrompemos a cadeia de transmissão. Assim, na prática o período de incubação já terminou, mas vamos contar os 29 dias, como mandam as boas práticas. Só no dia 3 de dezembro é que pode ser dado como terminado o período de incubação da doença dos legionários.

Esta semana ainda foram confirmados mais dois casos. É possível que ainda apareçam mais?

Os casos que confirmámos tiveram o início de sintomas antes do fim do prazo de incubação. Temos casos que têm sintomas e só são diagnosticados mais tarde. Por isso, podem aparecer, embora seja pouco provável. Daí termos no boletim epidemiológico as duas curvas: uma por data de início dos sintomas e outra por data do diagnóstico.

O hospital tomou entretanto medidas?

No dia 4, quando se percebeu que a fonte provável era o hospital, fossem as torres de refrigeração ou os circuitos de água quente e fria, foram logo tomadas medidas. Os circuitos foram tratados com choque térmico e químico e as torres foram encerradas. E depois daí foi determinado o período em que se começou a conter o surto, porque se quebrou o ciclo de transmissão.

O que se segue, agora, para a Direção-Geral da Saúde (DGS)?

Estamos a documentar todo o surto e vamos entregar o relatório final do surto a várias entidades públicas por uma questão de transparência, entre as quais está a nossa tutela [o Ministério da Saúde]. Vamos continuar atentos ao cumprimento das recomendações que fizemos à administração do hospital e que esperamos que sejam cumpridas. São recomendações específicas deste surto. Foram vistos documentos anteriores e foram atualizados. E estamos a trabalhar em peças legislativas. No fundo, é uma prática comum em todos os surtos que têm uma fase aguda, a estabilidade do surto e fim do surto.

Que tipo de recomendações foram feitas à administração do hospital?

Com o que pode ter conduzido ao surto e tudo a apontar para o hospital como a fonte do surto, as recomendações apontam para que todos os procedimentos sejam vigiados, para que tal não volte a acontecer. Falamos de melhorar a vigilância, medidas que se devem tomar , tendo em conta a avaliação do risco, de acordo com as circunstâncias. São regras comuns que são aplicadas em todos os casos e que não é específico para o Hospital São Francisco Xavier. São regras de boas práticas internacionais e nacionais.

Falou também que a DGS está a preparar peças legislativas. Isso significa que pode propor alterações à lei?

Neste momento estamos a ver se é necessário reforçar o quadro legal. Se assim for considerado, iremos propor. Mas muitas vezes basta que as boas práticas a nível internacional e nacional sejam observadas : os médicos cuidam dos seus doentes e não precisam de uma lei e de uma norma. Devemos estar sempre atentos. Cumprir os processos de vigilância e de monitorização. Há muitas recomendações internacionais conhecidas que podem e devem ser seguidas, pelas instituições de saúde ou quaisquer estabelecimentos que tenham estes processos com a água.

Está internamente a ocupar o cargo de diretora-geral da Saúde. Foi difícil lidar com este surto logo no arranque destas funções?

Um surto é sempre uma situação difícil. Há muitas pessoas doentes e a nossa preocupação é com elas. Do ponto de vista técnico, agimos depressa e interrompemos depressa o circuito de transmissão. Houve uma intervenção rápida da DGS, do delegado de saúde e do INSA [Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge]. Interrompida a fonte de transmissão, trabalhámos todos, não só a DGS, durante dias a fio. Porém, é sempre uma situação desconfortável, quando há doentes em grande sofrimento.

Trabalhou de perto com o anterior diretor-geral Francisco George no surto de Vila Franca de Xira. Foi importante essa aprendizagem para lidar com este caso de forma mais eficaz?

Já trabalho há 21 anos na DGS, já passei por muitos surtos e aprende-se com todos eles a lidar de forma mais rápida e eficaz. Eu e todas as equipas, é óbvio que aprendemos com o passado. O que é importante é que tenhamos cada vez maior capacidade de reagir. O que interessa é interromper a transmissão. Infelizmente quem já está infetado, já está, mas daí para a frente temos de interromper essa transmissão.

Espera agora um mandato mais calmo?

Sim, espero. Não podemos viver sempre em surto ou em crise. Depois dessas situações voltamos à vida de todos os dias.

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