Briga antiga na origem de rixa que feriu duas mulheres e três PSP

Tudo aconteceu antes das 20.00 na Ameixoeira, em Lisboa. Feridos foram para Santa Maria.

Terá sido durante a tentativa de três agentes da PSP de travar uma rixa entre grupos rivais no bairro da Ameixoeira que aconteceu o tiroteio que deixou ontem cinco pessoas feridas: três polícias e duas mulheres moradoras no bairro social de Lisboa. Nenhum dos três elementos da força de segurança corre risco de vida, segundo informações da PSP, mas um agente ficou em estado mais grave e teve de ser operado. Uma das mulheres, de 42 anos, também ficou ferida com gravidade. Todos os feridos estão internados no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde a segurança foi reforçada pela PSP, dada a concentração de familiares das mulheres, de etnia cigana.

Após momentos de grande tensão no bairro, com necessidade de grandes meios policiais para impor a ordem, já ao fim da noite, o subcomissário Hugo Abreu, da PSP, fez um breve ponto de situação aos jornalistas, afirmando que os polícias feridos têm entre os 30 e os 41 anos, garantindo que se encontram livres de perigo.

Este responsável confirmou ainda a existência de mais duas vítimas, "duas mulheres", que descreveu como estando no Hospital de Santa Maria "em situação estável". Uma das mulheres foi atingida no abdómen e teve de ser submetida a cirurgia, a outra terá sido atingida num membro mas com estilhaços também na nuca, segundo fonte policial.

Uma briga antiga

Tudo terá acontecido pelas 19.40 quando um grupo de homens de um bairro vizinho chegou à Rua António Vilar numa viatura para "terminar uma rixa antiga", ouve-se dizer. Caçadeiras em punho, gente aos gritos. Não tardou a chegar a polícia, primeiro um grupo à paisana, num carro descaracterizado. Terá sido então que começou o tiroteio e, pouco depois, chegava mais uma equipa de agentes do Corpo de Intervenção. O porta-voz da PSP, subcomissário Hugo Abreu confirmou: "Os três elementos foram baleados quando chegaram ao local" para acabar com confrontos entre populares. Estes agentes terão ido para o hospital na sua própria viatura.

Entretanto, "três polícias refugiaram-se num supermercado", contou um morador do bairro mostrando, no seu telemóvel, as imagens captadas pelas câmaras de vigilância da loja. "Estão a ver?, aqui estão eles, vêm esconder-se."

"Nós somos os ciganos mas a polícia não sabe usar uma arma?" A pergunta é lançada em tom exaltado por um dos moradores na Rua António Vilar. O homem está convencido de que as duas mulheres foram baleadas pela polícia, opinião partilhada por familiares das vítimas que terão sido apanhadas por acaso no meio do tiroteio. "Ela estava a levar roupas para a carrinha para ir para a feira, não tinha nada a ver com isto", comenta um dos moradores. "Foram as duas atingidas pela polícia", afirma outro. "É só fazer os testes de balísticas e ficam logo a saber quem foi", desafia. E falam ainda de uma terceira vítima, um rapaz que terá sido atingido "de raspão" na perna e terá fugido. Mas isso a polícia não confirma.

Após o tiroteio, a rua foi fechada e foi montado um perímetro de segurança para a que a Polícia Judiciária procedesse à recolha de vestígios. A investigação está agora a seu cargo dada a utilização de armas de fogo. Era impossível passar a pé ou de carros. Nas extremidades, agrupam-se os moradores. Homens de um lado, mulheres e crianças de outro. Para as crianças é noite de festa. Em vez da televisão, divertem-se a ver as atividades dos polícias e dos jornalistas das televisões que estão ali em direto. Muitas janelas iluminadas, muitas cabeças à espreita. Toda a gente quer saber o que se passa, mas poucos estão dispostos a falar. De longe, é possível ver os agentes com lanternas junto aos passeios, aos carros estacionados, nas arcadas dos prédios. No local, segundo Hugo Abreu, foi apreendida uma caçadeira, que esteve envolvida no tiroteio, "não tendo sido realizada qualquer detenção".

As "confusões" aqui são normais

"Isto aqui é muito perigoso. Há sempre problemas, uns maiores, outros mais pequenos." Quem o diz é Nuno, que ali mora há já 12 anos. "Não estava aqui, estava a trabalhar, mas a minha mãe ligou-me e vim logo. Tenho miúdos pequenos que costumam jogar à bola aqui na rua." As "confusões", diz, não costumam ser assim tão graves. "Sabemos que há armas mas normalmente não são usadas."

O Bairro da Ameixoeira localiza-se na Alta de Lisboa e integra a freguesia de Santa Clara. É composto por quatro blocos e integra muitas famílias de etnia cigana e de origem africana. É uma das zonas do concelho Lisboa com maior percentagem de pessoas dependentes de subsídios sociais, como o rendimento social de inserção, complemento social de idosos e subsídio de desemprego. É por todos estes motivos um dos 21 bairros em que Câmara Municipal de Lisboa pretende investir 25 milhões de euros, num plano de reabilitação que decorre até 2017.

A partir da meia-noite, as pessoas começaram a voltar às suas casas. Mas os agentes permaneciam no local, pelo menos até a PJ terminar a investigação. A noite prosseguia tranquila.

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