Dos horrores de Bucha à doença crónica dos médicos

As imagens que chegaram de Bucha, na Ucrânia, depois da retirada das tropas russas dos arredores de Kiev, deram uma nova dimensão à guerra. Na política portuguesa, CDS tem novo líder e Portugal tem, finalmente, o Governo em plenas funções. E na semana em que se assinalou o Dia Mundial da Saúde voltou a estar em cima da mesa uma velha questão: como atrair e fixar mais médicos no SNS?

Sábado, 2 de abril

Revelados ao mundo os horrores de Bucha

Com a retirada das tropas russas dos arredores de Kiev, o mundo foi confrontado com cenas chocantes que atestam bem os horrores da guerra e que não deixaram ninguém indiferente. Os corpos espalhados nas ruas de Bucha, os resultados dos bombardeamentos contra alvos indiscriminados, a descoberta de valas comuns e os primeiros relatos de quem sobreviveu à ofensiva deram uma nova dimensão a este conflito, porque o poder da imagem é (e será sempre) fortíssimo. As autoridades ucranianas falaram em "genocídio", "massacre deliberado", "horror indescritível de desumanidade", revelando estar a documentar provas que sustentem a acusação de crimes de guerra contra Vladimir Putin, algo que já não merece qualquer tipo de dúvida para os Estados Unidos. "Vocês viram o que aconteceu em Bucha. [Putin] é um criminoso de guerra", afirmou Joe Biden na segunda-feira, já depois da Rússia negar "categoricamente todas as acusações", falando em "falsificações" e "adulteração de vídeo" difundidas por Kiev e de ter pedido uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre o alegado massacre de civis.

Domingo, 3 de abril

CDS. Melo eleito num congresso apaziguador

Sem surpresa, Nuno Melo foi eleito presidente do CDS com uma maioria expressiva (74,93% dos votos) num congresso, realizado em Guimarães, em que as presenças de Paulo Portas (pela primeira vez desde que deixou a presidência do partido) e do regressado Manuel Monteiro (outro antigo líder, que não falava numa reunião magna dos centristas há 20 anos) acabaram por transmitir alguns sinais de pacificação interna, depois da batalha aberta que se viveu nos últimos meses do consulado de Francisco Rodrigues dos Santos. Nuno Melo, que chegou ao congresso ao volante de uma 4L, um velho clássico da Renault, pega nos destinos do partido - que já foi do táxi (apelido ganho em 1987, quando a sua representação parlamentar não ia além de quatro deputados) e que agora nem da trotinete é - num contexto complicadíssimo, agravado pela maioria absoluta do PS. O eurodeputado terá, precisamente, nas eleições europeias de 2024 o primeiro grande desafio, num caminho que espera conduzir de novo o CDS "à disputa do poder". "Foi para isso que nós nascemos como partido", disse.

Segunda-feira, 4 de abril

A visita de Zelensky o o reforço de sanções

Com os trabalhos ainda em curso para identificação e remoção, das ruas e valas comuns, de centenas de corpos, Volodymyr Zelensky visitou Bucha na segunda-feira onde ouviu em primeira mão os relatos dos sobreviventes. "É muito importante que a imprensa, os jornalistas internacionais estejam aqui. Temos de ser capazes de mostrar ao mundo o que aconteceu, o que as forças russas fizeram", disse o presidente ucraniano, acrescentando: "Vamos fazer com que os responsáveis sejam punidos." No mesmo dia, Kiev divulgou online os dados pessoais de 1600 soldados russos da 64.ª Brigada Motorizada Independente, que esteve a atuar em Bucha, incluindo o nome e sobrenome, data de nascimento e patente militar. As imagens arrepiantes que continuavam a chegar do local fizeram também aumentar as medidas de retaliação contra o regime de Putin, com países como Alemanha, França ou Itália, entre outros, a anunciarem a expulsão de diplomatas russos (Portugal juntar-se-ia a este movimento no dia seguinte, ordenando a saída do país de 10 funcionários da embaixada russa, declarados persona non grata) e a União Europeia a garantir que as sanções vão aumentar. "As imagens angustiantes não podem e não serão deixadas sem resposta", frisou Ursula von der Leyen.

Terça-feira, 5 de abril

"É preciso aumentar pressão", avisa UE

O novo pacote de sanções (o quinto) que a Comissão Europeia preparou contra a Rússia inclui, por exemplo, a proibição de importação pela UE de carvão (que vale ao país de Putin cerca de quatro mil milhões de euros por ano), assim como a expulsão de quatro bancos do mercado financeiro europeu ou a interdição de acesso a portos europeus de navios russos ou operados pela Rússia. De fora, ficaram as importações de gás ou petróleo (que movimentam valores muito maiores), algo que Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, acredita que irá acontecer "mais cedo ou mais tarde". Ursula von der Leyen considerou que as anteriores sanções aplicadas à Rússia mostraram "resultados tangíveis", que "atingiram duramente e limitaram as opções políticas e económicas" de Moscovo, mas face ao que se viu em Bucha tornou-se evidente que é preciso "aumentar a pressão". No mesmo dia, Zelensky discursou por videoconferência nas Nações Unidas, apelando à expulsão da Rússia do Conselho de Segurança.

Quarta-feira, 6 de abril

PSD. Montenegro avança para "novas causas"

Luís Montenegro é o primeiro candidato conhecido à sucessão de Rui Rio no PSD (Jorge Moreira da Silva dirá o que pensa fazer no dia 14). É a segunda vez que o antigo líder parlamentar social-democrata (durante os anos da troika e de Passos Coelho) disputa a presidência do partido, sendo que, a ser eleito, não poderá desta vez contar com o palco do parlamento para liderar a oposição à atual maioria absoluta de António Costa. Quarta-feira, na apresentação da candidatura, Montenegro defendeu que o PSD precisa de se "modernizar" e abraçar "novas causas", para "voltar a ser a casa mãe das tendências não socialistas" e responder à "dispersão dos votos no centro-direita" a que se assistiu nas últimas legislativas e que acabou por reforçar partidos como o Chega e a Iniciativa Liberal. Deixou ainda a garantia que não é será um líder de transição mas sim um futuro "candidato a primeiro-ministro de Portugal".

Quinta-feira, 7 de abril

A eterna questão: como atrair e fixar os médicos?

Quinta-feira assinalou-se o Dia Mundial da Saúde e vieram a público várias estatísticas do INE sobre o setor em Portugal. Um dos dados, como o DN explicou, mostra que em 2020 estavam inscritos na Ordem 57 198 médicos, um aumento de 3,2% em relação ao ano anterior (a quantidade de enfermeiros também subiu 2,9%, para 77 984). No entanto, o número de médicos a trabalhar em hospitais (públicos ou parceria público-privada) é de apenas 26 249 (46%) indo ao encontro da tendência decrescente que já se nota nos últimos 20 anos (em 2000, 58% prestavam serviço no Serviço Nacional de Saúde). Ou seja, o país continua a formar muitos e bons médicos, mas é cada vez mais frequente que estes encontrem uma solução profissional no setor privado ou fora do país, onde conseguem obter melhores salários e condições de vida. Ano após ano, o SNS continua sem encontrar as soluções mais eficazes para atrair e fixar os profissionais que ajuda a formar, principalmente em regiões como o Alentejo, a Madeira ou os Açores que continuam a apresentar um número de médicos por 100 mil habitantes inferior à média nacional. É pois uma espécie de doença crónica, à espera de um real investimento para ser tratada.

Sexta-feira, 8 de abril

Um governo, finalmente, em plenas funções

Está encerrada a discussão parlamentar do programa de governo para a XV legislatura (que Costa garantiu ir cumprir até final) e, como esperado, a moção de rejeição apresentada pelo Chega acabou chumbada, com 133 votos contra (PS, PCP, BE, PAN e Livre), 81 abstenções (PSD e IL) e 12 a favor (correspondentes ao número de deputados do partido de André Ventura). O governo está, assim, mais de dois meses depois das eleições de 30 de janeiro, em plenas funções. O debate serviu para o executivo divulgar um conjunto de medidas com que vai tentar responder ao disparar da inflação (quando já todo o país sente na carteira o aumento de custo de vários bens essenciais), antecipando, desde logo, a discussão do próximo Orçamento do Estado (a proposta é apresentada aos partidos na segunda-feira). O dia fica também marcado por um momento de maior tensão entre Ventura e Augusto Santos Silva (o primeiro de vários que se seguirão?). O novo presidente da AR interrompeu a palavra ao líder do Chega, quando este falava da comunidade cigana em Portugal, e foi aplaudido de pé por deputados de várias bancadas. Ventura queixou-se de censura.

pedro.sequeira@dn.pt

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