Dos cheiros à alimentação, tudo é pensado ao pormenor no Jardim Zoológico

Na capital, existe agora uma nova instalação que alberga elefantes, suricatas e nialas. O DN aproveitou a inauguração para perceber como são desenhados estes espaços que replicam o habitat natural de cada espécie.

Apesar do ciclo encerra-reabre que tomou conta do Jardim Zoológico de Lisboa desde o início da pandemia, o mundo selvagem que vive para lá dos muros não parou. Nasceram crias de coalas ou zebras, fizeram-se pequenas reparações e renovaram-se instalações para várias espécies, como os elefantes africanos ou os flamingos. "Aproveitámos o período de tempo que estivemos fechados para fazer estas alterações", explica ao DN o presidente da instituição, Carlos Agrela Pinheiro. Uma das novidades que já pode ser visitada é a nova savana que alberga os elefantes africanos, os suricatas e as nialas. Mas que trabalho é necessário fazer para criar um espaço que simule ao máximo o habitat natural de cada espécie?

Tudo começa, como explica o engenheiro José Ferreira Dias, com a colaboração entre equipas multidisciplinares, que procuram identificar as necessidades e especificidades de cada animal através dos guias de maneio. "Esse guia de maneio explica exatamente o que as espécies precisam, depois é apenas juntar o que diz em todos os guias referentes a estas espécies e juntar também um pouco de bom senso", adianta o curador de mamíferos do zoo. A ideia é que seja possível recriar o ambiente natural para cada grupo animal, de forma a que se comportem como na vida selvagem. As vantagens vão desde o seu bem-estar à capacidade reprodutiva, tornando ainda a experiência dos visitantes mais rica e realista.

Estimular o instinto natural

Para lá dos portões em ferro do Jardim Zoológico de Lisboa existem segredos técnicos que passam despercebidos a quem por ali passeia, mas que são fundamentais para o rigor da reencenação dos habitats naturais. No caso da nova instalação que alberga elefantes africanos, suricatas e nilas, uma organização multi-espécies que José Ferreira Dias considera ser pouco comum, foi preciso preparar o terreno para que os três tipos de animais se sentissem em casa. "Todos se dão bem, embora tenhamos o cuidado de ter uma instalação grande e de lhes dar passagens seletivas. Mas também tivemos o cuidado de dar um período de três semanas de habituação às nialas, para que se habituassem ao espaço e aos cheiros", detalha. Estes "cheiros" podem ir de plantas a odores de outros animais, procurando despertar o instinto natural de cada espécie. Para os leões, por exemplo, estes estímulos passam por uma alimentação que é envolvida em ráfia e depois pendurada, obrigando os animais a esforçarem-se para obter o alimento, simulando, assim, o processo de caça.

Porém, o planeamento inclui também o tipo e a inclinação dos terrenos. "Lá ao fundo [da instalação dos elefantes africanos], há uma zona com argila que eles utilizam no verão para se refrescarem e protegerem a pele", exemplifica Carlos Agrela Pinheiro. Para os suricatas e as nialas, foram criadas passagens específicas que dão acesso a zonas reservadas para que se possam isolar dos restantes vizinhos de instalação, se assim o quiserem. Este processo de enriquecimento natural varia consoante as espécies e as suas necessidades, mas é um trabalho essencial para que o zoo possa desempenhar a sua missão da melhor forma. "Isto é um puzzle. Estamos num jardim que apesar de ter uma área considerável, está dentro da cidade e não dá para crescer muito além disto", afirma o presidente do zoo.

Vida regressou ao parque

O calor do verão e a vontade generalizada de sair de casa, depois de sucessivos confinamentos e restrições à circulação, são agora fatores importantes para a recuperação do número de visitas ao jardim zoológico. Fonte do parque explica ao DN que a diminuição abrupta de visitas escolares e visitas turísticas afetaram fortemente as receitas da instituição, que dependeu, durante todo o período pandémico, de contributos de empresas e particulares. Apesar das dificuldades sentidas desde março de 2020, o zoo nunca esteve em risco e encara hoje o regresso lento à normalidade como um passo para recuperar o dinamismo que outrora se fazia sentir dentro de muros. Agora é tempo de dar as boas-vindas aos visitantes, cujo número voltou a subir nas últimas semanas, e recuperar o tempo perdido.

dnot@dn.pt

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