Doenças respiratórias estão a matar cada vez mais portugueses

As mortes causadas por pneumonia, cancro e doença pulmonar obstrutiva crónica aumentaram 24% em menos de uma década

Morre-se de cancro, de doença pulmonar obstrutiva crónica, de pneumonia. As doenças do sistema respiratório são uma das principais causas de morte na União Europeia, mas em Portugal há números alarmantes, no que respeita à pneumonia: é de longe a maior causa de letalidade respiratória, tendo chegado às de 22 767 mortes em 2015, mais 4392 do que em 2006 - o que significa um aumento de 24%.

Esses são dados do Observatório Nacional das Doenças Respiratórios, que hoje vai divulgar o relatório de 2017, referente aos dados da situação atual e evolução dos últimos anos no que respeita às doenças respiratórias. José Alves, presidente do Observatório, afirmou ao DN que "esse aumento relativamente à média europeia tem de ser interpretado de uma forma calma", porque a causa de morte nem sempre é considerada a mesma.

"Imagine que é um doente com cancro do pulmão. Vai morrer por causa disso. Mas entretanto tem uma pneumonia e morre. Nalguns países põe-se como causa de morte pneumonia, noutros cancro do pulmão". Por isso defende tratar-se de "uma questão de estatística, apenas com uma diferença de tipificação".

Sem desvalorizar os dados, mas apelando a que se façam deles leituras completas "e não alarmistas", o pneumologista sublinha um dado que aporta como determinante para o aumento registado: "Em Portugal pertencemos ao restrito número de países cuja esperança de vida, à nascença, é atualmente superior a 80 anos, com tudo o que isso implica." Ou seja, a longevidade está associada ao aumento de doenças crónicas, facilitadoras da pneumonia, como revelam os números: em 20 anos, os internamentos por pneumonia aumentaram 171% (é a principal causa de internamento) e a mortalidade registou um aumento de 53% em 16 anos, tendo quase 70% dos doentes mais de 64 anos. A mortalidade é de valores superiores a 27% nos doentes com idades superiores a 79 anos, concluindo-se a relação estreita entre as pneumonias e os surtos epidémicos de gripe.

José Alves lembra que "temos bons médicos, bons serviços de saúde, a utilizar os melhores antibióticos possíveis", por isso não há razão nenhuma para haver esta discrepância tão grande em relação à União Europeia, a não ser a diferente certificação.

Ora, se a esperança de vida continua a aumentar, fazendo adivinhar a prevalência dessas doenças, como é possível melhorar a saúde respiratória em Portugal? O presidente do Observatório aponta três vias: a vacinação da gripe e da pneumonia, o abandono do tabaco (que provoca a maior parte das doenças relacionadas com os pulmões) e por fim o diagnóstico precoce e rastreio, nomeadamente como forma de tratar a doença pulmonar obstrutiva crónica. "Isto é verdade para todas as doenças pulmonares mas sobretudo para a doença pulmonar obstrutiva crónica, que, se não fizermos nada, em 2020 será a terceira causa de morte", sublinha José Alves.

Taxa elevada em vários distritos

De acordo com o relatório, há pelo pelos cinco distritos onde a taxa de mortalidade da pneumonia é superior a 20% e corresponde a 40% das mortes intra-hospitalares com as principais patologias respiratórias (DPOC, asma brônquica, fibroses pulmonares, neoplasias, bronquiectasias, doenças pleurais, insuficiência respiratória e pneumonias). Beja (com 25% de óbitos), Setúbal (24%), Portalegre (22%), Santarém e Faro (ambos com 21%) é onde mais se morre com pneumonia. "Poder-se-á pensar que há menos cuidados médicos, por ser na periferia. É uma leitura possível, mas há outra: a perda de denominador." José Alves lembra que "numa região mais pequena pode acontecer que poucos números alterem a taxa que se relaciona com o denominador".

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