"Do ponto de vista da investigação, a violência doméstica caiu-me no regaço"

Os direitos das mulheres são a sua bandeira, não só enquanto ativista mas também enquanto docente e investigadora.

Maria José Magalhães escolhe a biblioteca de Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, no Porto, para a entrevista. É aqui que passa muitas horas, é aqui que dá aulas e desenvolve os projetos de investigação, o que concilia com a presidência da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta). As alunas elogiam-lhe a maquilhagem, algo que não estão habituadas a ver: "Está muito bonita." A prof brinca e promete que o irá fazer mais vezes. Nem imaginam que, quando a professora estudou, antes do 25 de Abril, as pinturas e as calças eram proibidas na escola às mulheres.

Nasceu em Massarelos, no Porto, tem-se mantido sempre na Invicta?

Saí quando estudei Direito, em Coimbra, mas desisti e voltei para o Porto, para a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, onde fiz a licenciatura, mestrado e doutoramento em Ciências da Educação.

Porque é que desistiu de Direito?

Quando acabei o liceu, pensei que poderia ser um bom curso mas cheguei a Coimbra e fiquei muito desiludida. Entrei para a universidade logo a seguir ao 25 de Abril e a Faculdade de Direito tinha resquícios do anterior regime, foi muita desilusão, não era para mim. E, depois, quando vim para Ciências da Educação é que percebi de que era mesmo aquilo que gostava de fazer.

A ida para Coimbra foi uma tentativa de se libertar da tutela dos pais ou não existia o curso de Direito no Porto?

Não existia o curso, só em Coimbra e em Lisboa. A mim até dava jeito ir para Coimbra e sair de casa dos meus pais, o problema é que não gostei da faculdade. Tinha muitos professores ainda com valores e modos de funcionamento fascistas. Um professor de Direito Romano, por exemplo, disse logo na primeira aula que uma sociedade tinha de ter escravos para ser mais desenvolvida, que não podia haver nem bons poetas, bons escritores, bons filósofos, bons historiadores, se não existissem escravos. Claro que dei logo um murro na mesa, toda a gente disse que eu não fazia a cadeira, mas fiz, aí com um 10 ou 11, mas fiz. Hoje reconheço que acabou por ser uma boa experiência.

O período que passou em Coimbra?

Sim, foi logo a seguir ao 25 de Abril, éramos todos contra a praxe e em Coimbra, Direito e Medicina continuavam muito praxistas, com todos aqueles rituais, toda aquela hierarquia, de facto, aquilo não era para mim. Ainda me inscrevi no 3.º ano, mas desisti no início do ano, tinha cadeiras atrasadas do 1.º e do 2º, olhe, poderia ser uma veterana, estaria lá muitos anos porque levaria muito tempo para acabar o curso [ri].

Estava na área errada.

Também era isso. Vim para o Porto e abriu o curso de Ciências da Educação. Como também estudava música, andei no conservatório, fazia parte dos grupos de música - o Vai de Roda, onde tocava flauta transversal -, hesitei entre dedicar-me à música ou fazer outra coisa. Acabei por fazer outra coisa.

Na altura já era ativista e em defesa dos direitos das mulheres?

Comecei muito cedo, ainda antes do 25 de Abril, integrei a Juventude Escolar Católica, acompanhei os alfabetizadores, tinha os meus 14/ 15 anos. Depois fiz parte do Grupo de Mulheres do Porto, que era bastante radical, editava a revista Artemísia. Tínhamos encontro com grupos internacionais, participei na reunião das organizações não governamentais [ONG] da Conferência das Nações Unidas para a População, em 1983-84, que foi no México mas eles não permitiram a entrada das ONG e tivemos de reunir na Holanda, em Amesterdão. Conhecemos muitas companheiras de outros países e fui a Berlim. Gostei muito desta cidade, estavam no auge do movimento alternativo e acabei por voltar por três meses.

Trabalhava?

Não, fui fazendo algumas coisas como voluntária, estive numa casa-abrigo para mulheres, outras colegas foram para outras cidades, o que dependia dos nossos interesses.

O despertar para a intervenção tem que ver com o meio familiar?

Também, ouvíamos as notícias na BBC na despensa para os vizinhos não perceberem. Mas eu percebia que havia alguma coisa que estava mal e, depois, o regime era muito restritivo, não podíamos ir de calças para o liceu, ouvir os Beatles, tantas restrições e algumas ridículas.

Como é que as contestavam?

O fascismo estava em decadência, algumas restrições eram mesmo ridículas e até gozávamos. Lembro-me de ouvir dizer que o reitor não gostava de panfletos e espalhámos folhas pelo chão para ver o reitor a andar de cu para o ar a apanhar papéis. Mas, ao mesmo tempo, lembro-me de uma professora de Geografia fantástica que um dia chegou e disse: "Cortem essa parte do manual." Nessa parte do livro escrevia-se que a América Latina era subdesenvolvida porque não tinha vias de comunicação, o que ela contestava: "Mentira. É subdesenvolvida por causa do imperialismo norte--americano." Ficámos todos contentes por cortar a página mas não percebíamos muito bem o que se passava. A guerra colonial era outra coisa que nos punha completamente revoltados, além de ceifar vidas era a incompreensão: o que é que estávamos lá a fazer?

Já tinha essa consciência política apesar de muita coisa ser escondida?

Sim, e muita gente tinha essa consciência. Um ano antes do 25 de Abril, a 11 de setembro, Salvador Allende foi assassinado, tinha sido eleito democraticamente, o que foi motivo de contestação.

A informação da morte de Allende chegou logo a Portugal?

Sim. Não sei como, mas eu estava para sair e o meu pai - que pertencia às Forças Armadas - disse-me para ficar em casa, que estava tudo de prevenção. Respondi que tinha de avisar os outros mas também não o poderia fazer porque iam saber quem passou a informação. Eu fazia parte dos grupos católicos e comunicávamos com os grupos de outros países. Na América Latina, a Igreja lutou muito contra as ditaduras e estava ao lado do povo.

Entretanto, a sua vida afastou-se da Igreja?

Considero que há várias igrejas, a igreja hierarquia, que é comandada pelo Papa, mas depois há um sentimento, uma espiritualidade, em especial no Norte, os meus avós são do Minho. Portanto, há todo este sentimento, não posso dizer que sou ateia. A hierarquia da Igreja Católica desiludiu-nos durante décadas, nomeadamente em relação ao aborto, portou-se muito mal.

Está zangada com a hierarquia.

Com a hierarquia sim, mas não com a Igreja. Vou contar um episódio que se passou com a minha mãe. Fui a uma sessão a Mondim de Basto - eles moram agora em Cabeceira de Basto -, e comentei com ela que ia um padre e todos os outros intervenientes eram contra o aborto, que se calhar era melhor não ir. Ela respondeu: "Tens de ir se não não há ninguém pelo "sim". E vais dizer isto: "O senhor padre é um representante de Deus na terra mas é um homem, com os seus defeitos e qualidades, não é um deus. Quem sabe das dores das mulheres é a Nossa Senhora e ela não foi obrigada a ter o filho, um anjo desceu à terra e perguntou-lhe se queria ter o filho." Quando cheguei a Mondim e fiz esta intervenção não pode imaginar o que foi. De facto, nos exemplos do cristianismo, temos muitas atitudes de valorização das mulheres e as teólogas feministas apresentam estudos que demonstram que com Jesus havia apóstolas mulheres, a Maria Madalena, a Marta, a Maria, etc. Fui fazendo a minha rutura com a Igreja, mas participo com a minha família nos rituais católicos do Norte.

Que tipo de família?

Éramos uma família de trabalhadores. O meu pai acabou por entrar para as Forças Armadas e foi fazendo a sua própria carreira, mas o meu avó era eletricista, já com alguma especialização, mas era eletricista. A minha avó era modista e o meu avó alfaiate.

Começou a lecionar logo após a licenciatura?

Sim, comecei a dar aulas na Universidade do Minho. Depois vim para a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, dou aulas de Investigação-Ação, já dei Sociologia da Educação, além das optativas. No ano passado construí uma disciplina que me dá muito gosto e que se chama Desconstrução da Cultura Patriarcal para a Prevenção da Violência de Género. Quando contei a uma amiga que está em Berlim ficou surpreendida e disse: "Podes apresentar assim uma cadeira nova?" Expliquei-lhe que há regras, que apresentei uma proposta ao conselho científico e só depois de ser aprovada é que foi posta em prática.

Tem muito mais alunas mulheres?

Sim, muito mais mulheres, mas aqui na faculdade há mais mulheres em todas as disciplinas.

Quais são os alunos que procuram essa cadeira?

Os rapazes estão a fazer intervenção social, intervenção educativa. As raparigas é pelo gosto do tema e porque a violência de género é um tema muito falado.

A temática do ensino e da investigação e do ativismo cruzam-se. É uma tendência natural?

Cruzaram-se de uma forma que não estava à espera. Nesse grupo de mulheres do Porto já se falava na violência doméstica, reuníamos semanalmente e em todas as reuniões ouvia mulheres a contar o seu caso, e fui trabalhando sempre na violência. Fiz depois o mestrado sobre feminismo e educação e a violência voltou a aparecer nas entrevistas para o trabalho. Fiz o doutoramento com histórias de vida e, em mais de 50% são mulheres que me contam situações de violência. Do ponto de vista da investigação, a violência doméstica caiu-me no regaço e pensei: "Tenho de explorar isto cientificamente e teoricamente." É a partir do doutoramento que começo a escrever sobre o tema.

Defendeu tese em 2005?

Sim, mas comecei em 1995. Sou do tempo em que se demorava dez anos para fazer o doutoramento.

Entra na UMAR em 2000, organização que nasceu dois anos depois do 25 de Abril para defender os direitos das mulheres, melhores salários. O que justificou esta viragem para as áreas da violência doméstica?

Isso também tem que ver com os períodos, tem de se perceber o contexto da altura. Quando a UMAR foi criada, nos anos 1970, faltava tudo, as mulheres não tinham nada. Tinham de trabalhar e, às vezes, não tinham onde deixar os filhos, mas não tratámos só destas questões. Agora, estamos no momento da violência doméstica e da violência de género.

Porquê?

Porque se reuniram as condições nacionais e internacionais para combater a violência doméstica, não só em Portugal como no estrangeiro, as mudanças nas leis portuguesas têm muito que ver com a UE. O tema da violência doméstica e da violência contra as mulheres é muito consensual, menos para um Trump, um Bush ou um Putin, chefes dos governos mais conservadores. Mas essa não é a minha área, estive durante muito tempo no grupo pelo referendo do aborto e, depois, fiquei no da prevenção da violência nas escolas e retomei as questões do assédio. Isso também aconteceu porque não gosto de confundir, uma coisa é a investigação e outra é a intervenção. Na investigação não posso ter certezas, na intervenção não posso ter dúvidas. Há que separar as águas até porque gosto de fazer investigação.

Mas a violência doméstica é o principal problema atual das mulheres?

Não sei. Na última assembleia decidimos dedicar estes dois anos à questão do trabalho e da dependência económica das mulheres. Há muitas mulheres sem autonomia financeira, sem poderem pensar no futuro, que estão desempregadas.

As mulheres estão hoje piores?

Eu penso que sim, as jovens têm boas notas mas depois vêm para o mundo do trabalho e recebem 75% do salário dos homens. São atingidas pelo desemprego, há a situação das mulheres imigrantes. Mas também os jovens homens estão com problemas.

A questão económica interfere na violência doméstica?

A violência do género não tem que ver com poder económico, há muitas mulheres de setores económicos favorecidas que são vítimas. Não quer dizer que seja igual para todas as mulheres e de todas as classes sociais, mas a violência doméstica é transversal a todas as classes sociais, provavelmente não a todas as culturas, mas ainda não encontrei nenhuma que não tenha casos. Agora, claro que ter ou não um emprego, ter ou não um salário razoável para pagar as despesas, ter ou uma casa, faz diferença para sair de uma situação de violência.

Leia a segunda parte da entrevista:

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