Dez anos, 1600 doentes e 230 ensaios à procura de cura

IPO do Porto comemora hoje o Dia da Esperança, em que realça a importância dos ensaios clínicos em doentes para chegar à cura

Com um sorriso e um estado de espírito de se tirar o chapéu, Abílio Pereira, 61 anos, é um 245 doentes oncológicos que, em 2015, aceitou participar em ensaios clínicos, na unidade de investigação clínica do IPO do Porto, que hoje comemora dez anos. "Tenho esperança no sucesso deste tratamento, porque os nódulos do pulmão diminuíram de tamanho e um deles até passou de 2,3 centímetros para 0,4", diz. Com os riscos nem se preocupou, ao contrário da mulher que ficou "aterrorizada", sobretudo quando, há dois meses, ouviu a notícia da morte, em França, de um voluntário num ensaio clínico da farmacêutica Bial.

"Há um ano, a doutora falou de um ensaio clínico com um tratamento inovador que seria muito bom para tratar o meu melanoma com metastização pulmonar", conta Abílio, com ar despreocupado. Como, aliás, tem encarado o cancro, desde que lhe foi diagnosticado em 2011. "Deram-me um documento sobre os riscos para assinar", lembra com um sorriso. A mulher, Maria Irene Dias, passou horas a lê-lo e apanhou um susto: "Fiquei aterrorizada com os riscos de morte e até de cegueira." É o próprio presidente do IPO Porto, Laranja Pontes, que diz que "toda a gente sabe que um ensaio é uma nova droga e que tem riscos". Garantiu que não houve qualquer incidente no IPO até à data, chamando a atenção para "a importância da investigação clínica e de novas drogas e tratamentos".

Ainda assim, sempre que Abílio vai ao IPO, de 15 em 15 dias, Irene faz o mesmo: "Acendo uma vela e rezo. Sei que há mão divina. É a nossa esperança." Sim, é disso que se trata hoje, Dia da Esperança, nas comemorações da unidade de investigação clínica. Só na última década, a unidade recrutou mais de 1600 doentes para participar em mais de 230 ensaios clínicos nacionais e internacionais. "Queremos lembrar a importância dos ensaios clínicos na inovação terapêutica, e também homenagear os doentes e os profissionais de saúde envolvidos", explica o médico José Dinis, coordenador e um dos fundadores desta unidade.

Abílio Pereira é um exemplo de esperança. "Até danço no rancho folclórico." Desde fevereiro de 2015 que participa num ensaio de melanoma "inovador" com mais oito doentes. "Nunca tive efeitos secundários. Sinto-me bem", conta, entusiasmado por "ter resultados positivos". Não o assustam as mais de três horas com análises, consulta e tratamento.

Segundo o médico José Dinis, o tratamento não atua diretamente no tumor. "É um fármaco injetável da área da imunoterapia que reforça as defesas do doente, que está a ser testado em hospitais portugueses e no estrangeiro." E que está em fase de aprovação.

Antes desta tentativa de combater o cancro, Abílio gastou cem mil euros num tratamento, num hospital privado, que o fez melhorar para depois piorar. Quando ouviu as notícias da morte, em França, nem quis saber, porque confia nos clínicos. Segundo o médico José Dinis, "alguns doentes recusaram entrar no ensaio com receio das notícias. Mas cabe a nós desmistificar". Nenhum dos doentes em tratamento desistiu. "Os participantes destes ensaios do IPO são doentes que têm doenças incuráveis que põem em perigo a sua vida." Já no caso Bial, reitera, "eram indivíduos saudáveis".

António Manuel Silva, 60 anos, de Ílhavo, nem sequer ouviu falar da polémica. "Temos de ser positivos e ultrapassar as barreiras. Sou um guerreiro e vou lutar até ao fim", diz. Os tratamentos? "Estão a resultar, porque tenho sempre boas notícias que está a diminuir e está menos de metade do que era." A António, que era guarda-navios em Espanha, diagnosticaram carcinoma da laringe com metastização pulmonar. Está em ensaio de tumores da cabeça e pescoço desde setembro de 2015 e já completou oito ciclos de tratamento. Há mais 11 doentes neste ensaio.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG