Depressão tratada sem medicamentos. Vem aí a estimulação magnética

A Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Champalimaud vai avançar ainda este ano com a nova terapia transcranianae não invasiva

Um novo tratamento por ondas magnéticas, que são aplicadas junto da cabeça do doente, e que consegue resultados positivos contra a depressão em mais de metade dos casos graves que não respondem a nenhuma outra terapia, vai chegar este ano a Portugal, pela mão da Fundação Champalimaud.

A estimulação magnética transcraniana (EMT, ouTMS na sigla de língua inglesa), como é designada a nova terapia, foi aprovada em 2008 nos Estados Unidos. Desde então, já foram tratados milhares de doentes com as formas mais graves de depressão, que não respondem às terapias farmacológicas convencionais nem às psicoterapias. Em mais de metade dos casos, segundo indicam os estudos, os sintomas de depressão melhoraram graças à EMT.

A aquisição do equipamento pela Fundação Champalimaud para esta estimulação externa e não invasiva do cérebro, "deverá ser feita ainda este ano", adiantou ao DN o psiquiatra, investigador e diretor da Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Champalimaud, Albino Maia. O especialista é coautor de um estudo internacional publicado hoje na revista científica The Journal of Clinical Psychiatry, cujo objetivo foi o de comparar a eficácia de dois tipos de equipamentos diferentes que já estão a ser utilizados para tratamentos de EMT, nos Estados Unidos e em alguns países da Europa.

O estudo contou com uma amostra de 154 doentes, que foram tratados com a EMT no centro de estimulação cerebral não invasiva do departamento de neurologia da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e comparou os resultados obtidos por dois tipos de equipamentos distintos de EMT, que já estão licenciados.

"Os nossos resultados mostram que não existem diferenças entre os dois equipamentos quanto à eficácia do tratamento dos doentes", afirma Albino Maia.

Tratamento aprovado em 2008

A estimulação magnética transcraniana para tratamento de depressões graves começou a ser investigada de forma sistemática na primeira década do novo milénio e o primeiro equipamento para fazer estes tratamentos foi aprovado e licenciado nos Estados Unidos pela FDA, a agência que aprova medicamentos naquele país, em 2008.

"Neste momento, seguramente, muitos milhares de pessoas já foram tratadas desta forma contra a depressão nas centenas de centros que disponibilizam esta terapia nos Estados Unidos, e também em alguns países da Europa, e a tendência é para os números crescerem" afirma o diretor da Unidade de Neuropsiquiatria do Centro Champalimaud.

Na Europa, por exemplo, o tratamento contra a depressão por estimulação magnética transcraniana já está disponível em Madrid e em Barcelona.

Alternativa para casos graves

"Os números mais pessimistas apontam para que cerca de metade das depressões não respondam aos tratamentos farmacológicos, nem às psicoterapias", afirma Albino Maia. Mas, para mais de metade destes casos mais graves, a EMT já revelou ser uma alternativa terapêutica com bons resultados.

"Entre 50% e 60% dos doentes tratados por EMT há uma melhoria dos sintomas de depressão", adianta o especialista, sublinhando que o tratamento "não é invasivo e não tem riscos associados".

Um ciclo de tratamento típico decorre entre quatro e seis semanas, com sessões diárias de EMT que podem durar entre 15 e 30 minutos diários.

"O doente fica sentado e está perfeitamente consciente", adianta Albino Maia. É-lhe então aplicado um capacete, no caso de um dos equipamentos já utilizados, ou aproximado da cabeça um dispositivo em forma de oito, para fazer a estimulação magnética do córtex cerebral no ponto definido pelo médico. "Não existe dor, nem sequer desconforto", assegura o especialista e "só em casos muitíssimo raros pode ocorrer uma convulsão", nota.

Há ainda casos em que os doentes se queixam de cefaleias, "mas essa é uma situação temporária e de fácil solução", conclui Albino Maia.

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