Cultivar rabanetes e cebolinhos, passear os cães e almoçar. Com a cidade ao lado

Quase não se dá pelo Parque Bensaúde, ali encostado à Estrada da Luz, em Lisboa. Lá dentro há hortas para cultivar, um parque infantil e outro para cães, máquinas para fazer ginástica e uma esplanada. E o maior sobreiro da cidade

Pedro é um rapaz de Lisboa, que cresceu do outro lado da Segunda Circular, em Telheiras, quando este bairro era "uma espécie de subúrbio esquisito", com "três prédios e ovelhas a pastar". Agora, "a vida dá voltas" e este informático, hoje com 41 anos, cultiva uma horta, um talhão de uns 100 metros quadrados, no Parque Bensaúde, junto à Estrada da Luz.

Alfacinha, Pedro Joel tenta fugir das alfaces e das couves que se veem noutros talhões. Quando começou não conseguia encontrar temperos, como cebolinhos e mentas. "Agora encontra-se em todo o lado", mas na altura não. Cultivava-os em casa em pequenos vasos, depois experimentou uma horta comunitária em São Bento, que entretanto acabou, e uma amiga falou-lhe desta - "e agora estou aqui a virar composto", ri-se à reportagem do DN.

Pedro vai ali umas duas vezes por semana e juntamente com outras duas pessoas vai alimentando esta pausa no seu trabalho. "É um luxo raro", com a cidade ali ao lado, a passar apressada. Mas não é um negócio, avisa. "É muito mais barato ir à loja. Mas o que tiramos daqui não tem nada que ver com o que se compra." Dali Pedro tira os cebolinhos e as mentas, mas também rabanetes e alhos franceses. "O que faz sentido é a comida nascer ao pé da boca, até por questões ecológicas", explica. O composto que remexe é vegano, apenas por questões práticas - não é por militância. "É só porque estamos em Lisboa", onde se usam ervas e restos de comida vegetal.

As hortas são um projeto já criado em 2013, com vários talhões destinados à agricultura urbana. Ontem à tarde, para além de Pedro só se via por ali outro homem, que tinha ido regar as alfaces e as couves coração-de-boi na horta de um amigo. Ao fim de semana enchem-se os talhões de gente a cultivar - como se enche o parque. Há quem venha ali fazer piqueniques, celebrar aniversários, explica ao DN Débora Madeira, 30 anos, funcionária do Quiosque Bensaúde, uma esplanada que apesar do frio que acompanha a tarde tem ainda clientes. Aos almoços - agora que com pratos não se limitam a tostas e saladas - e ao fim da tarde, sobretudo às sextas-feiras, há quem procure aquele recanto sossegado de um parque que (olhando para o mapa) parece encravado entre grandes eixos viários, como a Segunda Circular, o Eixo Norte-Sul e a Avenida Lusíada.

A meio da tarde de ontem não havia muita gente a passear pelo parque, mas Henrique Paquete fazia-o acompanhado de quatro cães - que conduz para um parque canino, já no limite superior do parque, que sobe por uma encosta em direção ao Alto dos Moinhos (os nomes explicam-se facilmente). É treinador canino, lê-se no colete. A publicidade é uma necessidade de quem divide o seu tempo entre um comércio de produtos para animais e o treino e passeio de cães. "Não se pode dizer que o negócio vá de vento em popa. As duas coisas juntas dão para equilibrar o orçamento."

É um espaço amplo e vedado, para os cães correrem e saltarem à vontade, sem trelas. Numa das árvores há uma bola para brincadeiras caninas e quando se fura, logo aparece outra, explica Henrique, que ali vai várias vezes ao dia, "faça chuva, faça sol". É por isso um conhecedor: falta uma sinalização que indique, naquele espaço, que há ali um parque canino. E revela que no Orçamento Participativo municipal há duas propostas para melhorar as acessibilidades para idosos e para pessoas de mobilidade reduzida. "Este parque tem muito potencial", sublinha Henrique.

O Parque Bensaúde é um segredo bem guardado na Lisboa dos espaços verdes. Débora Madeira, que mora ali perto, acredita que o passa-palavra acaba por funcionar para quem procura o parque. Há ali o maior sobreiro da cidade (que não merece uma placa com essa honra), uma estufa fria que está a ser recuperada e um sossego que apetece. Mesmo nestes dias frios de outono.

O DN está a publicar uma série de reportagens dedicadas à sua nova vizinhança, junto às Torres de Lisboa

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