Covid-19 infetou 27 973 profissionais de saúde e vitimou 19

A pandemia atingiu também os que dos outros cuidam. Ou seja, os próprios profissionais de saúde. Um ano depois o balanço é feito pela Direção-Geral da Saúde: 27 973 infetados, destes 16 175 já recuperaram, mas há a registar 19 óbitos. Quem viveu a experiência da doença, diz, "não acontece só aos outros".

No início ninguém sabia o que aí vinha, o que poderia fazer. A informação científica sobre como lidar com a doença que estava a atingir o mundo inteiro surgia em catadupa. Os próprios profissionais de saúde eram bombardeados com informação sobre como se deviam proteger em relação à doença, sobre como se deveriam fardar e que procedimentos adotar na observação de doentes, quer em consulta, urgências, cirurgias, quer no acompanhamento destes até durante a realização de exames.

Houve mesmo hospitais que passaram a traduzir toda a informação considerada fundamental em cartazes de forma a possibilitar melhor leitura e a mais rápida assimilação das regras de proteção. A pandemia tomou a vida de médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos de diagnóstico, assistentes operacionais e administrativos de rompante, exigiu mudanças, empenho, mas também suscitou medos. Houve quem continuasse, houve quem ficasse pelo caminho. Hoje sabe-se que a covid-19 atingiu quase 30 mil profissionais. Ainda na sexta-feira, houve mais 17 casos de infeção a registar, mas no total há 19 óbitos.

De acordo com os dados disponibilizados ao DN pela Direção-Geral da Saúde, e dos quais constam os números já de janeiro e de fevereiro deste ano, revelam que a classe profissional mais afetada é a dos assistentes operacionais, com 8732 casos, depois são os enfermeiros, com 7357, seguidos da classe designada como outros, com 4022, e, por fim, dos médicos, com 3454 casos de infeção.

No seio da classe de assistentes técnicos houve até agora 1743 casos de infeção, na dos técnicos de diagnóstico 1251, na dos farmacêuticos, 612, na dos técnicos superiores de saúde, 552 e nos técnicos superiores, 250.

Em relação aos óbitos, a DGS explica ao DN que os meses em que ocorreram mais, foram nestes dois primeiros de 2021, com seis mortes em janeiro e nove em fevereiro. Ao todo, sabe-se que são três médicos, um enfermeiro, um técnico superior de diagnóstico, dois auxiliares de saúde, um auxiliar de enfermagem, dois administrativos, um colaborador de um lar, um bombeiro e sete com categoria desconhecida. Há ainda a assinalar que a DGS não sabe se durante a doença e o óbito todos estes estavam no ativo, se foram infetados em ambiente de trabalho ou social e todos, entre médicos, enfermeiros e técnicos, integravam unidades do Serviço Nacional de Saúde ou outras.

"Fiz o teste para ficar descansado...e veio positivo"

Mas quem viveu a experiência da doença diz mesmo: "É preciso todos termos a noção de que não acontece só aos outros, não acontece só a quem não é profissional, acontece também aos profissionais de saúde", desabafa o médico pneumologista António Diniz, do Hospital Pulido Valente, em Lisboa, que não mais esquecerá o dia 17 de setembro de 2020, quando teve os primeiros sintomas. Hoje, cinco meses depois, diz estar bem, mas deixa um alerta: "É cedo, e apesar da vacina, para se pensar em baixar a guarda em relação às medidas de proteção".

O médico, que desde o dia 23 de janeiro é o coordenador da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa, que tem servido de retaguarda aos hospitais da região no tratamento da covid-19, confessa que quando fez o teste até foi "mais por descarga de consciência para saber se estava tudo bem já que estava com tosse e não era situação habitual em mim".

António Diniz relembra que no dia em que começou com tosse soube que no seu hospital havia vários profissionais infetados. "Não eram colegas com quem estivesse estado a trabalhar muito diretamente, mas o facto de ter tosse levou-me a fazer o teste". Nesse mesmo dia, à tarde, e já depois de ter feito o rastreio, começou uma sensação de mal-estar. "Tive de ir para casa mais cedo, embora a temperatura não chegasse aos 37,5, comecei a acreditar que com a tosse e com a sensação de mal-estar que o resultado do teste seria positivo. E no dia seguinte confirmou-se".

Tudo indica que possa ter sido infetado em ambiente profissional, dado que, naquela altura, "embora usássemos máscara e mantivéssemos distanciamento, não estávamos propriamente em confinamento, portanto, acabávamos sempre por contactar com muito mais pessoas do que agora. Este facto, associado ao de vários profissionais do meu hospital terem sido infetados, leva-me a considerar que tenha sido infetado neste contexto, mais precisamente durante a minha atividade no Hospital de Dia do Pulido Valente".

Diz que nos primeiros dias passou bem, apenas com sintomas ligeiros. "A tosse desapareceu logo ao fim de 24 horas, a temperatura reagia bem aos medicamentos e manteve-se sempre entre os 37,1 e 37,2 graus e sentia-me razoavelmente. Sabia que iria ter de ficar em casa, isolado, e comecei a fazer alguns exercícios para quebrar o tempo e manter alguma atividade", conta.

Achava estar a suportar bem a situação, mas entre o sétimo, oitavo e nono dia da doença, tudo começou a piorar, com um cansaço progressivo, que, lembra, não me deixava sequer virar na cama, e uma sensação de náusea insuportável, que o fez estar 48 horas só a líquidos.

"Não fui ao hospital porque tinha um oxímetro comigo"

A temperatura chegou aos 38,1, apesar de ter períodos sem febre, porque reagia bem aos medicamentos. Recorda que perdeu o paladar, mas 72 horas depois sentiu que o estava a recuperar. Ao contrário de outras pessoas não teve dores nas articulações, não teve dores de cabeça, era mesmo "o cansaço e as náuseas insuportáveis".

É ele próprio que, na conversa com o DN, coloca a questão: "Perante isto está a perguntar-se porque é que ele, sendo médico, não foi para o hospital, não é?", ri-se. "Não fui porque tinha um aparelho comigo, o oxímetro, que foi o meu companheiro durante aquele tempo, que me dava a saturação do oxigénio, que nunca baixou dos 94%, o que me dava alguma margem, e estive sempre em contacto com colegas que me iam dando a sua opinião".

Mesmo assim, confessa, nesta pior fase, "houve uma noite em que fiz a mala e tinha tudo pronto para ir para o hospital. Só não fui porque entre algumas coisas que fiz foi ir tomar um duche e o perceber que o tinha conseguido fazer, porque um dos sinais de que não estamos bem é não conseguir sequer fazer os movimentos ao tomar banho, foi o que, provavelmente, me impediu de ir, juntamente com o indicador do oxímetro".

Nesta altura, António Diniz assume: "Estou bem, mas nos dois meses seguintes, e já a trabalhar ainda sentia a limitação do cansaço, sobretudo nas atividades que uma pessoa faz normalmente. O subir escadas era mais complicado, o andar também e até o falar. Por vezes, tinha de fazer pausas por tão cansado me sentir".

Não esquece o que passou, critica os que defendem que não a doença não passa de uma gripezinha, não é assim. E cinco meses depois, e já com o processo de vacinação em curso, é perentório ao afirmar: "Está fora de questão os profissionais de saúde baixarem a guarda em relação às medidas de proteção. Todas as medidas devem ser mantidas, mesmo com a vacina".

Como médico acredita nos resultados a que chegou um estudo do Hospital São João, que "os profissionais de saúde estariam cobertos com imunidade mesmo só com uma dose de vacina", mas, mesmo assim, considera que "não é tempo para facilitar. Portanto, todas as medidas, como uso de máscara, lavagem frequente das mãos e o distanciamento devem continuar".

Aliás, defende, "até tenho sério dúvidas que algumas destas possam ser retiradas dos procedimentos de higienização das unidades de saúde". Sustentando que "a vacina vem conferir mais proteção, mas não estamos livres que a taxa de transmissibilidade de outras variantes, que já existem ou que ainda possam vir a aparecer, não diminuam a eficácia da vacinação". E, reforça., "a manutenção das medidas de proteção são uma medida adicional para cada um de nós e para os outros".

Para o pneumologista, que agora trata outros infetados com covid, na condição de coordenador da Estrutura Hospitalar de Contingência de Lisboa, a testagem em massa deve chegar às unidade de saúde, porque o que se tem feito até aqui é a testagem dos contactos de elevado risco, e só esta não elimina de imediato as cadeias de transmissão. "O salto na testagem é algo que deve ser dado".

António Diniz conhece outros que passaram pelo mesmo, outros até de forma mais grave, não conhece ninguém diretamente que tenha perdido a batalha com a covid-19, mas ele próprio bate na mesma tecla. "Não acontece só aos outros".

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