Corrida ao espaço a preços mais baixos

Privados estão a desenvolver novas tecnologias que vão tornar os voos para órbita mais acessíveis. Vem aí o turismo espacial

Depois de os vaivéns espaciais da NASA terem recolhido aos museus, no final de 2011, a agência espacial americana passou a depender das naves e dos foguetões russos para pôr os seus astronautas em órbita, mas não será por muito mais tempo. A nova corrida espacial para fornecer esse serviço está em marcha e, desta vez, a competição é entre os privados dos Estados Unidos, que veem o espaço como um negócio cheio de potencial. O objetivo imediato é levar astronautas e equipamentos para a estação espacial ISS, talvez já a partir de 2017, mas, a médio prazo, a ambição é desenvolver o turismo espacial, e ir mais além.

Para os jovens bilionários que são os rostos das empresas super high-tech nesta corrida, o céu não é o limite, mas o ponto de partida. Nestes tempos de competição renhida, em que quase todos os meses há notícias de novos testes e lançamentos de naves e foguetões, os patrões de duas das empresas mais bem colocadas para ganhar a competição do espaço, Elon Musk, da SpaceX, e Jeff Bezos, da Blue Origin, parecem estar igualmente empenhados num despique para ver quem ganha o título do mais visionário - ou do mais excêntrico.

Taco a taco, os dois homens têm-se revezado em afirmações, no mínimo, extraordinárias. Nesta quarta-feira, por exemplo, Bezos defendeu que a melhor forma de resolver o problema da pressão ambiental causada pela população crescente no planeta seria pôr as fábricas em órbita, para deixar de poluir a Terra.

Ontem, foi a vez de Elon Musk anunciar que a SpaceX, além das viagens de ida e volta para órbita, tem planos para levar humanos a Marte em 2025. A ser assim, a SpaceX baterá a própria NASA, que ainda não se comprometeu com nenhum prazo seguro para uma missão tripulada ao Planeta Vermelho - a década de 2030 é o horizonte. Mas, na mesma conferência em que falou dessa aventura marciana, o dono da SpaceX aventurou-se numa tirada mais extraterrestre, aventando a hipótese de os seres humanos serem personagens de um qualquer videojogo... (ver caixa). Isso garantiu-lhe um furor mediático instantâneo e, com isso, a SpaceX ganhou um pouco mais de visibilidade, mas talvez fosse esse o objetivo. No dia anterior, as fábricas espaciais do patrão da Blue Origin tinham cumprido papel idêntico.

Diminuir os custos do espaço

Uma coisa é certa, a corrida está ao rubro e todos os competidores estão na luta pelo futuro contrato com a NASA para os voos de ida e volta à ISS. Para esta, que vai usar esses serviços, o essencial é que as missões sejam um sucesso e decorram em segurança, e por isso a agência espacial financia algumas destas empresas para o desenvolvimento das sua tecnologias.

A SpaceX, desde logo, tem esse financiamento e é uma das mais bem posicionadas. Mas há outras muito fortes, como a Boeing, a Sierra Nevada e a própria Blue Origin. Quem vai ganhar a corrida ainda é uma incógnita, mas a competição e o modelo do negócio vão permitir a redução dos custos das missões espaciais, que serão uma pequena fração do que a NASA gastou no seu programa de vaivéns. Como diz Robert Cabana, do Kennedy Space Center, da NASA, os voos espaciais comerciais estão hoje na forja, "um pouco como aconteceu nos primórdios da aviação comercial, nos anos 20 e 30 do século XX".

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