"Cientistas encontrarão sempre forma de colaborar após o brexit"

Conselheiro científico do governo de Teresa May, para o ministério dos Negócios Estrangeiros, e professor de física dos materiais no Imperial College, em Londres, Robin Grimes veio a Lisboa participar no encontro Ciência 2017, onde falou sobre o papel da ciência para a definição de políticas informadas. Ao DN, afirmou a sua convicção de que a Europa da ciência vai continuar a contar com os cientistas britânicos. De que forma? É cedo para sabê-lo. As negociações do brexit estão só a começar.

Que impacto poderá ter o brexit na área da ciência, no Reino Unido e na União Europeia?

É importante reconhecer que a comunidade científica no Reino Unido, como no resto da Europa, está muito preocupada. Vamos continuar a fazer parte da Europa, mas de forma diferente e, apesar de estarem preocupados, os cientistas vão continuar a encontrar formas de colaborar, seja o que for que aconteça. Os contactos existem, são muito fortes e as pessoas vão mantê-los. A verdadeira questão é: até que ponto as estruturas que vão evoluir serão um suporte desse diálogo e trabalho de colaboração. O trabalho conjunto continuará, a questão é como vamos apoiá-lo. Ainda estamos muito no início, mas há indicações muito positivas.

Quais são?

Já ficou claro que quaisquer financiamentos que os cientistas britânicos ganhem no âmbito dos programas europeus continuarão a ser financiados, mesmo que isso aconteça 10 minutos antes da saída do Reino Unido, e isso continuará enquanto esses acordos estiverem em vigor. Mesmo no âmbito do quadro europeu continuará a haver colaboração financiada e apoiada pelo governo britânico por um período prolongado depois de sairmos. Estamos a começar a pensar de forma ampla sobre tipos de colaboração e tipos de mecanismos. A minha visão, como cientista, é a de que continuaremos no centro da colaboração científica na Europa.

Também têm um conselheiro científico no grupo de negociação do brexit?

Há todo um corpo de conselheiros científicos do governo britânico, todos contribuímos para esta questão do brexit, e acho isso mais sólido.

O que recomendaria, enquanto conselheiro científico, para esta área da ciência, no âmbito do brexit?

Fazer aconselhamento científico não é fazer política. O meu trabalho é garantir que os departamentos do governo, e o meu próprio departamento, compreendam as implicações científicas do que estão a fazer. Em relação ao brexit procuramos garantir que compreendem as consequências de cada ação particular. Ter a informação científica como parte desse diálogo é muito importante e tem muito impacto. E é excelente que o governo britânico considere importante e queira a ciência integrada na discussão.

Disse que há muitos cientistas no Reino Unido preocupados com o brexit. Por causa da possibilidade de cortes no financiamento?

Estão preocupados com várias questões. Parte do trabalho de um conselheiro científico é ir junto da comunidade científica e tentar ajudá-la a compreender a situação.

Neste caso, o que diz o conselheiro científico aos seus colegas cientistas?

Que tentem explicar as suas preocupações de forma que os políticos possam entender por que é que isso é importante.

Mas, o que diria aos seus colegas que estão preocupados com a possibilidades de cortes nos financiamentos por causa do brexit?

Neste momento, a evidência é a de que não há corte de verbas. Acabámos até de ter um aumento significativo de financiamento para a ciência no Reino Unido. Nos projetos europeus ele mantém-se estável, e estamos a começar as negociações [para a saída da UE]. Portanto, não podemos dizer nesta altura como será no final. Mas há indicações de que o governo toma a questão muito a sério e o nosso ministro da ciência anunciou na semana passada que há o desejo de aumentar o financiamento para a ciência nos próximos anos.

Será uma alternativa aos financiamentos da UE?

Não. E o financiamento é só uma parte da questão. Como disse, trata-se de garantir que as pessoas podem continuar a trabalhar juntas. Há diferentes opções para a forma como governo britânico vai consegui-lo, mas não tenho dúvidas de que conseguiremos continuar essa colaboração ampla, porque isso é muito importante para a qualidade da ciência, e acredito que o governo sabe isso muito bem. Portanto, vamos começar a trabalhar nisso e a minha participação num evento como este é também para compreender melhor a importância da nossa colaboração com Portugal.

O Reino Unido continuará a contribuir com fundos para o programa-quadro que financia o a ciência e a inovação na União Europeia?

Não sabemos. Isso fará parte das negociações. Mas há outros países que não são membros da UE e que já o fazem, como a Noruega, a Suíça ou Israel. Ontem [segunda-feira], a comissão anunciou o desejo de alargar a colaboração nesse programa-quadro, com a ideia de garantir que os programas se foquem na excelência científica. No Reino Unido colocamos a maior importância em fazer a melhor ciência possível, e trabalhamos para isso, o que requer os melhores recursos humanos, tanto como financiamento. Portanto, o anúncio de ontem [segunda-feira] é uma boa notícia. Mostra que vemos as coisas da mesma forma.

Falou de recursos humanos, o que nos leva à questão da livre circulação. É desejável uma permissão especial para os cientistas da UE trabalharem sem restrições no Reino Unido?

Mais uma vez, é muito cedo para saber quais serão os pormenores do acordo e compete ao governo britânico tomar essa decisão. Como disse, o meu papel é fornecer informações científicas, não tomar essas decisões. Mas quero frisar o anúncio recente de que todas as pessoas que vivam há mais de cinco anos no Reino Unido têm residência permanente. Para quem tenha menos do que isso nos anos precedentes à nossa saída, esses anos também são contados.

Como vê a evolução da colaboração científica entre o Reino Unido e Portugal nos próximos anos?

Claramente, o Reino Unido é importante na colaboração científica com Portugal e gostaria de dizer que Portugal é importante para o Reino Unido. Se somos o segundo país mais importante para Portugal nesta área, isso significa que há muitas pessoas no Reino Unido que consideram Portugal importante. Vocês são especialistas em certas áreas e estão a apresentar ideias muito interessantes, como a do centro dos Açores [o Centro Internacional de Investigação para o Atlântico, que deverá ser criado no próximo ano], que penso que interessam ao Reino Unido. Temos uma longa história de colaboração científica e o vosso ministro da Ciência fez o doutoramento no Imperial College, e o Imperial College está muito interessado em ter mais alunos excelentes oriundos de Portugal.

Os caminhos da Europa em foco

Com a participação do comissário Carlos Moedas, a Europa da Ciência e as novas parcerias internacionais estão hoje em foco no encontro Ciência 2017, que chega, também hoje, ao fim. Organizado pela Fundação para Ciência e a Tecnologia, por ali passaram nestes três dias mais de quatro mil participantes, entre cientistas, decisores, empresários e jovens da geração Ciência Viva, para debates sobre as várias áreas científicas e os caminhos do futuro.

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