Cidadãos por um mundo sustentável. Exemplos para "Amanhã"

Filme inspirador do francês Cyril Dion mostra que é possível trabalhar para um mundo diferente. Cá também há quem o faça

O filme Amanhã, do francês Cyril Dion, que está em exibição em Portugal, é feito de exemplos. Muitos exemplos. Uma cooperativa fundada por cidadãos, em Copenhaga, na Dinamarca, produz a própria energia de fontes renováveis. Basileia, na Suíça, e Bristol, no Reino Unido, criaram moedas próprias que só valem nas respetivas cidades, mas que são motor para as economias locais e favorecem a qualidade de vida dos cidadãos. Em Detroit, no rescaldo da destruição económica provocada pela crise financeira de 2008, houve quem começasse a cultivar legumes em hortas urbanas para poder comer. A tendência alastrou, e ficou. E não apenas em Detroit.

De todos os exemplos em Amanhã - a equipa correu os quatro cantos do mundo em busca dessas alternativas que já são realidade para alguns -, fica um quadro inspirador para um mundo alternativo, diferente e possível.

Foi esse futuro que Cyril Dion quis mostrar, na esperança de que isso ajude a multiplicar os exemplos, como explicou ao DN (ver entrevista).

Não há casos de Portugal - na altura o realizador não conhecia muitos, confessa -, mas eles existem. Cyril Dion tenciona, aliás, vir ao nosso país, como conta ao DN, para mostrar alguns deles na série de TV que vai seguir-se ao filme, desta vez, a pedido da televisão francesa.

Energias renováveis

Em Portugal só existe, por exemplo, uma cooperativa de cidadãos a produzir energia renovável: é a Coopérnico, um projeto de inovação social para a produção energética em pequena escala. Fundada há três anos, nasceu para pôr em prática um novo paradigma energético: 100% de energia renovável, eficiência e produção descentralizada, baseada em projetos de produção local, para consumo local.

A aposta é no solar e nesta altura a cooperativa já produz energia equivalente à consumida por 150 famílias, através de projetos que utilizam os telhados de instituições de solidariedade social e que produzem para a rede na região de Lisboa e em Mangualde. Mas as coisas estão a crescer e já há mais projetos a começar, que vão permitir produzir a energia equivalente ao consumo de mais 50 famílias.

Este percurso valeu neste ano à Coopérnico a nomeação para o Prémio Europeu da Energia Sustentável na categoria de Consumidores - os Óscares europeus das energias renováveis.

"Conheço bem o caso da Dinamarca, da cooperativa para a produção de energias renováveis, mostrado no filme", diz Nuno Brito Jorge, engenheiro do ambiente, fundador da Coopérnico e atual presidente da direção da cooperativa. "Trabalhamos muito com eles na Federação Europeia das Cooperativas de Energias Renováveis, que integramos. Neste momento, temos até um projeto conjunto da União Europeia cujo objetivo é desenvolver mecanismos para que as pessoas consigam gastar menos eletricidade", explica.

A federação foi, aliás, um grande apoio para a cooperativa portuguesa quando as coisas estavam a arrancar. "Os nossos primeiros projetos foram financiados com a ajuda da federação", conta Nuno Brito Jorge. "Precisávamos de investir em painéis solares e não tínhamos verba suficiente, então a federação enviou uma carta a todos os membros e três cooperativas europeias disponibilizaram-se. Emprestaram-nos 82% da verba necessária e nós depois fomos devolvendo o dinheiro. Na banca isso nunca teria acontecido."

Nuno Brito Jorge já viu Amanhã e participou até num debate sobre o filme, organizado pela associação ambientalista Zero. "Gostei muito, é um filme inspirador", resume. "Devia ser quase de visualização obrigatória nas escolas e na Assembleia da República, porque mostra que há formas de fazer as coisas que beneficiam mais as pessoas, em que os cidadãos estão envolvidos, tal como fazemos na Coopérnico", explica. "Há alternativas a nascer, o filme mostra isso."

A difícil mobilização

Há cinco anos, Ricardo Marques, engenheiro do ambiente, decidiu mudar de vida. Vivia no Porto, geria projetos na área do ambiente na Quercus, mas um curso de permacultura mudou qualquer coisa essencial na sua visão das coisas. "Foi um click", conta. Havia uma propriedade de família abandonada perto de Tomar e ele e a mulher, Cláudia, viram a oportunidade. Hoje, Ricardo Marques é apicultor e faz uma agricultura caseira que lhe permite ter azeite, galinhas, legumes e fazer algumas trocas com os vizinhos, mas não é cem por cento autossuficiente. "A permacultura ainda é uma meta", afirma.

A nível energético sim, são totalmente autónomos: instalaram painéis solares e nem sequer estão ligados à rede - "nem nunca temos falhas de eletricidade", garante. Mas não deixa de haver contrassensos: quando vivia no Porto, Ricardo Marques só andava de transportes públicos, nem tinha carro. Agora, como apicultor, não pode dispensar o automóvel, uma carrinha grande de caixa aberta, porque precisa de transportar colmeias e materiais. Mas tem consciência de que esta é uma caminhada, que revês no filme. "É inspirador", reconhece. "Não há cenários de catástrofe, como noutros filmes sobre temas de ambiente, são duas horas de soluções focadas na organização comunitária, de associações de pessoas, de grupos de residentes, de organização espontânea e informal. Isso pode fazer a diferença e faz muito sentido." Mas não é necessariamente fácil. Da sua experiência como ativista, "pelo menos em Portugal, é muito difícil mobilizar as pessoas, talvez porque não existe uma extrema necessidade nem uma consciência ambiental que nos faça saltar do sofá".

Quanto ao filme, é ir ver. Como diz Francisco Ferreira, da Zero, "é uma fonte de motivação e mobilização para assegurarmos o Amanhã. Oxalá muitos decisores que têm obrigações e responsabilidades acrescidas tenham oportunidade de assistir ao filme e fiquem motivados para mudar".

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