Casas velhas de Setúbal são autênticos paraísos para construtor francês

Laurent Maugé já recuperou e vendeu 47 imóveis antigos na capital do Sado e tem cada vez mais estrangeiros interessados

Comprar casas antigas nas ruas mais típicas do centro de Setúbal, mesmo que estejam em ruínas, recuperá-las respeitando a traça de outros tempos e voltar a vendê-las. Eis o negócio de Laurent Maugé, um construtor francês amante de barcos à vela, que há cinco anos se instalou com a família na capital sadina para estar próximo do mar. Já lá vão 47 imóveis transacionados. A maioria dos clientes são portugueses, mas acentua-se a procura entre estrangeiros, sobretudo em idade de reforma. É de França que estão a chegar mais interessados.

O que leva um francês que trabalha há mais de 30 anos na construção civil a investir nas casas degradadas de Setúbal? Laurent Maugé, hoje com 59 anos, tem a resposta na ponta da língua: "Não se encontra nada assim na Europa." Alude ao bom tempo, muito sol, praias, comida, vinho e um custo de vida "muito mais barato" face a França, por exemplo. "Uma casa custa metade do preço, um café custa 60 cêntimos e lá é um euro e meio", explica o gestor da empresa Elegante Critério, que conta com um sócio português conhecedor da região, descrevendo ainda a autenticidade que encontrou pelas ruas da baixa sadina como "incrível", tratando-se de um dos maiores argumentos na hora de convencer a clientela.

"Sobretudo os estrangeiros ficam encantados com as fachadas das casas e com a forma como as gentes de cá os recebem. Percebem que há aqui algo muito típico na arquitetura, coisas com mais de cem anos e isso é decisivo", explica o empresário. Admite que se deixa impressionar, sobretudo, com moradias a cair de velhas, cujas fachadas têm cerca de quatro metros de largura, com uma porta pequena que dá acesso a uma escadaria íngreme, mas que permite descobrir "autênticos paraísos. Parece mentira como é que ali dentro estão pátios tão bonitos e casas que dá para fazer tanta coisa. É de ficar de boca aberta", diz.

Revela que quem está a comprar no centro da cidade nem procura casas com grandes áreas. "Um T2 com 70 ou 80 metros quadrados já é suficiente", admite, perspetivando que o negócio cresça em breve. Isto numa altura em que, segundo diz, o passa-palavra sobre as vantagens portuguesas já funciona em França, de onde está a receber cada vez mais contactos de interessados em viver por cá. "Nem preciso de promover lá as casas. Trabalho com agências imobiliárias que tratam disso. Já há associações francesas criadas por bancos que ajudam os reformados a abrir contas em Portugal."

Laurent Maugé estima, perante a experiência dos últimos tempos, que "entre 2% e 3% dos turistas franceses" que visitem Setúbal decidam ficar aqui a viver. "Depois, ou compram ou alugam a casa", sublinha, associando o aumento da procura ao recente anúncio que transforma a zona ribeirinha num resort de luxo com marina e dois hotéis, através de um investimento na ordem dos 250 milhões de euros. Também por isto admite vir a intensificar a sua presença no mercado, mesmo enfrentando o obstáculo da "burocracia" que caracteriza os imóveis mais antigos e já bastante degradados da baixa sadina. "Há casas tão antigas que custa muitos entrar em contacto com os proprietários. Há herdeiros que já nem estão em Portugal, enquanto algumas casas só já mantêm as fachadas e são perigosas para a via pública", alerta.

Aliás, uma vistoria realizada pelos serviços camarários em 2011 apurou que o centro de Setúbal tem cerca de 400 imóveis cujos proprietários não eram conhecidos. "É uma pena, porque há coisas lindas que têm muita procura." Laurent tem um especialista para tratar dos casos mais bicudos, mas há processos que são morosos e caros, pelo que acabam por não justificar o investimento. "Há pessoas que receberam casas há 50 anos e que nunca fizeram nada", diz, havendo também quem tenha prédios antigos e quase a cair, mas que reclame valores proibitivos. "Alguém disse a essas pessoas que têm ali palácios", ironiza, antes de partir para a visita de um apartamento que se perfila como possível negócio. Se avançar será mais um para reformar, da canalização às janelas e à eletricidade. Demora cerca de dois meses, se correr pelo normal. "Gostava de ter capacidade económica para ficar com os imóveis e arrendar, mas ainda não consigo. Talvez um dia."

Já bateu a pé todas a ruas do centro de Setúbal, estando de olhos postos num edifício ali para os lados do Largo do Bocage que depois de restaurado vai permitir disponibilizar vários quartos para o turismo. Com calma, que neste ramo de atividade é preciso apostar no jogo da paciência.

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