Cartas dos prisioneiros portugueses nunca chegaram ao destino

Revelam a fome os maus tratos a que estiveram sujeitos durante a I Guerra Mundial

Cartas com quase 100 anos que nunca chegaram ao destino, enviadas por jovens militares portugueses feitos prisioneiros na primeira Guerra Mundial, foram descobertas por uma investigadora e relatam a fome e os maus-tratos a que foram sujeitos.

Entre 1917 e 1919, mais de sete mil militares do Corpo Expedicionário Português estiveram presos em 81 campos de internamento e de trabalhos forçados na Alemanha, França e Bélgica.

A investigadora Maria José Oliveira encontrou em arquivos cartas censuradas dos expedicionários para as famílias e destas para os combatentes, a maioria tinha entre 25 e 30 anos.

Dezenas dessas cartas estão agora publicadas pela primeira vez na obra "Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial, Frente Europeia -- 1917/1918" (editora Saída de Emergência).

Com este trabalho, a autora pretende "atribuir aos prisioneiros de guerra portugueses a única justiça acessível: a memória".

A lei da censura prévia imposta à imprensa nacional logo a partir de março de 1916 (os portugueses começaram a partir para a guerra em janeiro de 1917), e o Serviço de Censura de Base que apreendia grande parte da correspondência contribuíram para este esquecimento.

Em 05 de maio de 1918, Domingos Fernandes, primeiro sargento do regimento de infantaria, capturado na batalha de La Lys em 09 de abril desse ano, e preso no campo de Dulmen (Alemanha), pedia que lhe mandassem "todas as semanas uma encomenda de comida". Em julho, foi transferido para o campo de Minden (Alemanha) e nesse mês e de novo em setembro reiterou os pedidos.

Numa carta de 02 de junho de 1918, José Gutierres, do batalhão de mineiros, preso em Munster I (Alemanha), pede alimentos e relata o abandono a que o Estado os vota: "isto aqui é muito triste. Entre milhares de prisioneiros de todas as classes, todos recebem do Governo menos os portugueses".

Segundo a autora, milhares de portugueses presos nos campos de internamento e de trabalhos forçados sobreviveram "graças à doação de víveres por parte dos seus companheiros de cárcere".

João Carlos Craveiro Lopes, tenente-coronel também capturado em La Lys, respondeu num inquérito a prisioneiros na frente europeia relatando que marchou até Lille (França) com "escassa alimentação" e que, depois, no campo de Rastatt (Alemanha) "enfrentaram a fome: muitos emagreceram de tal forma ('25 quilos') que estavam quase irreconhecíveis".

Noutro campo, em Breesen (Alemanha), "foram empregados na frente em serviços de guerra, abrindo trincheiras, transportando munições, precisamente nos lugares de risco, e isto depois de lhes terem arrancado as suas máscaras antigás".

Maria José Oliveira conclui que "na história dos prisioneiros de guerra portugueses, há um antes e um depois de La Lys".

"Esgotados, sujeitos a um clima impiedoso de chuva e frio, enterrados na lama das trincheiras -- foi neste estado que os expedicionários chegaram ao episódio tristemente célebre da participação portuguesa na Grande Guerra: a batalha de La Lys", da qual resultou "a primeira captura em larga escala de militares portugueses: 6585 dos quais 6315 eram praças e 270 oficiais", lê-se no livro.

A autora conta que "os oficiais tinham direito a cárceres especiais, com melhores alojamentos, soldo mensal e mais condições de higiene", enquanto "os praças eram encarcerados em campos lotados [com dezenas de milhares de homens] e em campos de trabalhos forçados".

"Mas nos últimos meses da guerra, a queixa mais recorrente era consensual: a fome", sublinha a investigadora.

Uma situação que devido à censura o país ignorava.

Com o fim da guerra, em 11 de novembro de 1918, o repatriamento não foi imediato.

Em 17 de fevereiro de 1919, imaginando que seriam recebidos em Lisboa como heróis -- a notícia do fim da guerra fora recebida na capital com festejos que duraram dois dias -- o antigo prisioneiro Afonso do Paço relatou a chegada: "Desembarcámos no meio da maior indiferença, no meio da maior apatia da população alfacinha (...). As tropas que chegavam da França, umas centenas de ex-prisioneiros e um batalhão (...) mereciam aos governantes e aos governados a mesma atenção que qualquer saloio que da Lourinhã vem vender um carro de nabiças à praça da Figueira".

"Foi esta a receção que tivemos em Portugal. Não valia a pena, para isto, tamanhos sacrifícios", acrescenta.

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