"Cansei-me de não ter vida. Acordava na China, jantava em Lisboa e almoçava em Nova Iorque"

Sandra Correia descobriu uma área de negócio ao fazer da cortiça moda, dando-lhe outros usos na fábrica de família que faz discos para rolhas. Criou a Pelcor, vendeu-a no ano passado a um investidor angolano. Entendeu que já tinha feito tudo na empresa e estava cansada de dormir em hotéis. Uma algarvia que continua a viver na terra, em Vilamoura, e que escolhe para a entrevista, em Lisboa, o espaço do Clube VII, no Parque Eduardo VII. Desportiva, simpática, trata as pessoas por tu ao primeiro contacto.

Deu um novo uso à cortiça, transformou-a numa moda, vendeu a Pelcor a um grande investidor, como é que chegou aqui?

Com muito sonho, muita visão, muita resiliência, muita persistência e também o acreditar no que sinto e no que posso fazer pelo mundo.

A Pelcor é a sua bandeira?

É. De tudo o que criei - eu e toda a equipa -, passou a ser o meu emblema no mundo empresarial, um grande emblema, porque é uma grande obra.

Facilitou ter nascido e crescido no meio da cortiça?

Sim, tive contacto com a cortiça muito cedo. Desde miúda que ia para a fábrica do meu avô, que ficava no centro da vila em São Brás de Alportel. O colégio era um pouco mais à frente e, sempre que ia para o colégio, passava por lá. E porquê? O meu pai trabalhava lá, a minha avó trabalhou lá muitos anos, e eu ia brincar.

Qual era a dimensão da fábrica?

Era uma fábrica média, devíamos ter uns 15 trabalhadores, mas para a época era bastante grande. Tinha um grande armazém para a cortiça e eu gostava do cheiro, de ver todo o processo. Temos de cozer a cortiça numa caldeira e, na altura, era tudo manual. A cortiça descia para a caldeira com os homens a puxar, hoje não, carrega-se num botão e é tudo automático, achava graça. Em minha casa houve sempre um corticeiro, cresci nesse ambiente.

Fábrica e casa na mesma vila.

Sim, só mais tarde é que fomos para Vilamoura, onde vivo atualmente. Em São Brás de Alportel só havia escola até ao 9. º ano, tínhamos de ir para Faro ou Loulé para fazer o 12.º ano. Os meus pais colocaram-me esta questão: "Sandra, queres ir para Faro estudar e depois ir para a universidade, ou ficar por aqui, casar, ter filhos e trabalhar"?

Só havia essas duas alternativas?

Era assim. Ia para Faro estudar e depois para a universidade, ou ficava com o 9.º ano, casava e tinha filhos. Foi há 32 anos, a sociedade evoluiu muito. Lembro-me que na minha turma, que tinha umas dez raparigas, fomos estudar só três ou quatro.

Era uma questão financeira?

Não, não. Algumas já namoravam, ou começavam a namorar, e o objetivo delas era ficar ali. O meu objetivo era ir em frente, para a universidade. Disse logo: "Vou para Faro, aqui não fico." Já estávamos em Vilamoura e era complicado ir para Faro, só havia um autocarro às sete da manhã, fiz lá o 10.º e o 11.º anos e o 12.º em Loulé. Depois vim para Lisboa, para a universidade, tinha 18 anos. A minha vida sempre foi de saltitante, para ir em frente.

Se não fosse a empresa da família teria tido mais dificuldades?

Depende das áreas e das pessoas com quem ia lidar. Tive uma vantagem porque era a filha do patrão e estava sempre protegida. O meu pai não era muito ativo no associativismo e comecei logo a aparecer, a lidar com os outros industriais e sempre senti um respeito muito grande, também junto da Apcor (Associação Portuguesa da Cortiça).

E o facto de ser mulher?

Não senti obstáculos e era um meio de homens, a maioria com mais de 60 anos. Um obstáculo foi o facto de ser muito jovem, não acreditavam em mim, não me levavam a sério, isso senti. Ajudou a minha maneira de ser, mais doce, gosto de tratar bem as pessoas.

Considera-se uma feminista?

Sim, porque luto pela igualdade de género, feminismo é exatamente isso, temos de ter uma sociedade equilibrada. Só com uma sociedade em que os homens e as mulheres têm igualdade é que podemos chegar a bom porto.

Quantos empregados tem a empresa?

Cerca de 40, mais mulheres do que homens e todos recebem igual. A Apcor foi das primeiras associações a conseguir o mesmo salário para o homem e para mulher, uma mulher broquista ganha o mesmo que um homem broquista.

A lei exige salários iguais para funções iguais.

A lei exige, mas depois há os acordos setoriais, na indústria da cortiça foram precisos oito anos para o conseguir. Durante oito anos o aumento salarial das mulheres foi superior ao dos homens até se chegar ao mesmo valor, o que é fantástico e um belo exemplo.

Mudou o conceito da cortiça, que era visto como um produto utilitário. Agora, é acessório, sapatos, enfim, moda. Tem essa noção.

Tenho, tenho perfeita noção do que criei para o mundo e para o setor, não víamos a cortiça assim. Existiam umas carteirinhas, tudo muito feio. Quando comecei, fiz a seguinte pergunta: "Porque é que nunca se criou design, uma marca, e se fez moda com a cortiça?" Na altura, não obtive resposta, agora penso que será: "Para tu fazeres." Mas a única justificação é que ninguém se lembrou. Tenho noção de que criei um setor de negócio que não existia em Portugal ou noutro país, abri caminho, o que me orgulha. Hoje temos bastantes marcas de artigos de cortiça, mas a Pelcor foi a primeira e continua a ser o Rolls-Royce, o Ferrari da cortiça. Algo que me deu muito trabalho mas que fiz com muito amor, muita paixão, muita resiliência, muita visão, o querer mesmo tornar a cortiça uma moda.

Quem é que se lembraria de fazer um chapéu-de-chuva de cortiça, a sua primeira peça?

Ninguém, mas eu só aproveitei as condições que tinha. A cortiça é impermeável e o fabricante estava lá em baixo [Algarve ], era o mais fácil de fazer.

A época era de crise e era preciso escoar a matéria-prima...

Tinha todas as condições. Na altura, levei esse guarda-chuva a uma feira em Espanha. Quando exponho o chapéu-dechuva ao lado do stand das rolhas as pessoas ficaram maravilhadas, nunca tinham visto design na cortiça. Aí, vi que tinha razão.

A fábrica estava preparada para essa transformação, porque a cortiça deverá ter um tratamento próprio.

Tem de ser laminada, ter um tratamento de impermeabilização.

Está patenteado?

A técnica de transformar a cortiça em pele já existia desde os anos 1930, o processo foi trabalhado por uma empresa norte-americana, a Armstrong, que a patenteou. Fazer uma patente é um investimento muito grande e basta mudar um pormenor para se dizer que não é a mesma coisa, era algo que não me interessava. E acho que tudo o que criei, os artigos, as cores, devem ser dados ao mercado para o utilizarem.

Hoje há uma overdose de artigos de cortiça, do mais caro ao mais barato. Não a incomoda esta vulgarização?

Fico triste por ver que querem tirar proveito de tudo e estragam o que temos de bom. Há marcas boas, duas ou três, que fazem coisas interessantes e uma grande parte faz umas carteirinhas, até os chineses têm. Isso estraga o produto e já se nota que as pessoas estão fartas da cortiça, estragaram o mercado. E quem vai ficar? As marcas, como a Pelcor, que está no topo, que continuem a estratégia de abrir caminhos na internacionalização. É a galinha dos ovos de ouro e todos a querem, estraga-se o mercado, há um afunilamento e só ficam algumas.

Quando criou o chapéu-de-chuva imaginava esta loucura.

As pessoas pensavam: "Esta maluca a fazer um chapéu-de-chuva", só que eu estava convicta. Queria ter algo meu e sempre gostei da área da moda, embora não tenha bases. E fiz aquilo que mais gosto de fazer, que é ter um mercado, pensar como vender, procurar os canais e, depois, ver o produto à venda naquele mercado conquistado por nós, é o que me dá mais prazer. Contratei uma equipa, criámos a marca, depois em 2012 contactei a Eduarda Abbondanza para ser a diretora criativa, criámos um gabinete de design. Todas as coleções são desenhadas dentro da empresa enquanto outros fabricam artigos que existem no mercado. É tudo feito na empresa, se bem que acabam por surgir produtos muito parecidos, o que até é bom, ajuda a vender.

Além da inovação, há aqui uma boa estratégia de marketing, ofereceu um conjunto de malas à Madonna.

Foi em 2008. A Madonna vem a Portugal e o meu sonho era oferecer-lhe uma mala. Fui logo ajudada por alguém que me levou ao Álvaro Covões e é ele que lhe entrega a mala no concerto.

Um presente de fã ou de empresária?

Foi mesmo de fã, era um saco de ginásio e uma mala com um M desenhado. Se trouxesse algo mais, se ela aparecesse com a mala, a usasse, melhor, mas o meu objetivo era que conhecessem a matéria-prima e oferecer algo personalizado. Passado um mês recebo um telefonema, ou e-mail, de uma assistente a dizer que o manager da Madonna quer marcar uma conversa telefónica comigo, o que ficou agendado para um mês depois. Ele diz-me isto: "Sandra, a Madonna adorou, só que não vai poder utilizar porque tem contratos com outras marcas, que a pagam a peso de ouro." Respondi que percebia perfeitamente, mas ele quis saber o que era a cortiça, como era feita e eu expliquei. Dois anos depois, a Pelcor entra no MoMa [Museu de Arte Moderna em Nova Iorque] e eu mando uma mensagem ao manager a dizer que estava em Nova Iorque e fomos tomar um café, ficou muito interessado no que fazíamos. Já era um amigo e foi o meu grande mentor nos EUA, hoje é como um irmão, quem mais me ajudou. É um homem com muitos contactos, um investidor, e faço através dele a ligação com empreendedores portugueses.

Chegou a conhecer a Madonna?

Não, depois percebi que este meu sonho, esta minha visão para ela, foi uma forma de conhecer o seu manager, um investidor . E já não sou fã.

Foi substituída por quem?

Pela Pink, também lhe fiz uma mala, também a ofereci num concerto e tenho a foto dela com a mala.

E fez um vestido para a Lady Gaga.

Esse já foi numa parceria com a TM Collection e ela depois partilhou no Facebook, dizendo que era feito de cortiça.

A Pelcor é uma filha da Nova Cortiça ou é a prima que vai para Nova Iorque e se desliga da família?

A Pelcor foi criada na Nova Cortiça, ganha proporções tão grandes que a profissionalizámos em 2012/2013 quando criámos o gabinete de design. Tínhamos estado em tanto lado, no MoMa, que era a altura de investir na marca a sério. Ganha vida própria e resolvo autonomizar criando a minha empresa, a My Owen Label. Depois vendo 40% da empresa porque para apostar no mercado internacional é preciso um grande investimento em marketing e publicidade, é preciso smart money, esse investidor entrou e ao fim de oito meses vendo o resto, 60 %.

Não lhe custou vender um negócio que criou de raiz e com tanto sucesso?

Não. Vou explicar. Sou uma pessoa de desafios, de visões, de missões e tinha feito tudo na Pelcor, já não tinha aquela paixão, aquele amor. Era uma marca bastante conhecida, outras marcas foram criadas paralelamente ao caminho da Pelcor, tinha feito tudo o que havia para fazer. E estava muito cansada de não ter vida própria, nos últimos 13 anos tive uma vida louca. Acordava na China, vinha jantar a Lisboa, comia um frango assado e no outro dia estava a almoçar em Nova Iorque. É verdade que tive de fazer o desmame, de me desapegar, o que fiz primeiro e comigo própria. Apareceu um investidor e passados oito meses entreguei tudo. Estava na hora de fazer outras coisas.

Desligou-se completamente?

Fico supercontente com o caminho que estão a seguir, na mesma linha mas mais robustos, mas desliguei.

O que é que sentiu quando assinou o contrato?

Uma sensação de entrega e de missão cumprida. Regressei à Nova Cortiça, o meu irmão que é o administrador e faz a gestão com diretor-geral, o Nuno. A minha cunhada desenvolve a área do turismo - temos a Cork Factory Tour, em que as pessoas visitam a fábrica e no fim têm a loja -, que tem um crescimento de loucos, 300% de 2015 para 2016. Temos a área da inovação, mais para decoração - criámos um azulejo em 3D de cortiça que dá para fazer uma parede, uma floreira, já vendemos para o Brasil, EUA - e produzimos os discos para rolhas, que é a atividade principal. Regressei a casa, tenho a cargo a produção, que é o que gosto, gosto da matéria-prima, da cortiça. E permite-me ter tempo para desenvolver todas as outras coisas de que gosto.

E quando abre uma garrafa de champanhe fiscaliza a rolha?

Sim, sempre. Vejo sempre.

(LEIA AQUI A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA)

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