Cancros do cólon e mama dos que mais passam de pais para filhos

Só 5% a 10% dos cancros são hereditários. Na clínica de risco do IPO de Lisboa já foram avaliadas mais de dez mil famílias. Plano de seguimento é feito de acordo com o risco avaliado

Maria de Jesus Moura recorda as palavras de uma jovem na casa dos 30 anos quando soube que tinha uma alteração genética que aumenta substancialmente o risco de cancro da mama. ""Ganhei um cartão de saúde". A partir do momento em que soube que tinha a mutação pôde fazer a cirurgia profilática para não vir a ter esta doença, com a consciência que poderia vir a ter outras." A psicóloga trabalha de perto com a clínica de risco familiar do IPO de Lisboa, unidade criada em 2006 dedicada ao risco de cancro familiar e com três consultas organizadas: mama e ovário, cólon e reto e melanoma. Entre 5% e 10% dos cancros são hereditários.

"A maioria é esporádico e dependente de fatores ambientais. Mas existem alguns casos, que rondarão entre os 5% e os 10%, em que há uma alteração genética que constitui uma doença hereditária. Os casos em que isto é mais frequente são os casos do cancro do cólon e reto e da mama. Um pouco por causa disso justifica-se a existência destas consultas de risco familiar", explica ao DN Isabel Claro, responsável pela consulta do cólon e uma das coordenadores da clínica do IPO de Lisboa.

O risco de cancro familiar está hoje em debate na Fundação Calouste Gulbenkian, numa conferência promovida pela Liga Portuguesa Contra o Cancro, que vai juntar especialistas nacionais e internais e pretende alertar profissionais de saúde e população em geral para a existência de alterações genéticas. O risco de transmissão à descendência é de 50%.

As consultas de risco familiar do cólon e da mama já existem desde a década de 1990 no IPO de Lisboa, a do melanoma desde 2011. Durante todo este tempo a unidade já avaliou mais de 10 mil famílias. Pesa a história de vida individual e a da família para decidir se o risco é baixo, moderado ou elevado e se se justifica um estudo genético. Na maioria dos casos o risco é baixo e por isso as pessoas são encaminhadas para o médico de família com um plano de seguimento adequado e com a indicação que perante qualquer alteração façam novo contacto. As pessoas com alterações genéticas são sempre seguidas na clínica. Percebe-se porquê. No caso do cólon há alterações genéticas que aumentam o risco de cancro para percentagens superiores a 50% quando o risco da população geral é de 5%.

O contacto com a clínica é feito por referenciação de um médico ou pelo próprio, através de email. A informação é avaliada, mas há critérios que servem de alerta. No caso da mama a existência de diagnósticos antes dos 40 ou dos 30 anos ou de cancro do ovário ou de cancros da mama com características especiais. No cólon, a existência de "um tumor abaixo dos 50 anos, três familiares na mesma geração com cancro do cólon ou duas gerações, um pai e um filho, um com menos de 50 anos. Já constitui critério para que possam haver situações hereditárias. Um terço das pessoas com cancro do cólon têm um familiar de primeiro ou segundo grau com este tipo de cancro, mas só cerca de 5% são hereditários", explica Isabel Claro.

Na consulta faz-se a história de pelo menos três gerações, sendo que os mais importantes são os familiares de primeiro grau: pais, irmãos e filhos. "A avaliação do risco familiar é um processo dinâmico. Dependemos de informação muito precisa e sempre que há uma alteração o grau de risco pode ser alterado". Tal como o facto de não ser identificada uma alteração genética, não quer dizer que não exista. Novos testes estão a permitir identificar genes suscetíveis de serem responsáveis por hereditariedade.

É a espera pelo resultado do teste genético um dos fatores de maior ansiedade. "De um lado dizem "eu já sabia que ia ter", mas depois há o outro lado da esperança. É 50-50 e talvez não haja nada", diz a psicóloga Maria de Jesus Moura, referindo que a maioria das pessoas reconhece que saber da mutação genética ajuda a lidar com adversidades que possam surgir e reforçar o sentimento que ao estar a ser seguida de perto por uma equipa especializada permite agir a tempo para o não aparecimento da doença ou pelo menos evitar grande sofrimento.

Há o stresse de reviver a doença ou de passar uma operação sem estar doente. E há sempre a preocupação dos filhos. "Não tem de se estar sempre a falar sobre o assunto, mas falar sobre o que aconteceu com algumas pessoas da família, o que acontece com os genes. Quando a criança tem curiosidade ir dando respostas. O importante é que a notícia chegue através dos pais. Não contar pode fazer com que a criança se sinta traída", refere a psicóloga.

Pelas mãos da enfermeira Paula Rodrigues já passaram avós, pais e netos de algumas famílias. É com elas que muitas vezes choram quando fazem a colheita de sangue para o teste ao falarem sobre a família. "Acabam por fazer o luto, porque muitos perderam os pais quando eram muito novos." Se o teste for positivo há sempre telefonemas para saber se precisam de alguma coisa, como estão a lidar com a informação. "Saber da mutação para algumas pessoas é um alívio, porque ficam a perceber porque houve tantos casos de cancro e de morte na família e assim podem conseguir, se não evitar o cancro, evitar a morte", diz a enfermeira.

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