Câmara quer videovigilância em mais zonas além do Bairro Alto

A questão voltou a ser falada depois de a Polícia Municipal de Lisboa ter admitido não ter um plano de combate ao tráfico de droga na cidade

A Câmara de Lisboa quer alargar a videovigilância na cidade, estando a equacionar a aplicação do sistema existente no Bairro Alto a outras zonas da cidade, mas ainda não sabe onde nem quando.

"O alargamento do sistema de câmaras de videovigilância é uma matéria que está a ser trabalhada pela Polícia Municipal e pela Polícia de Segurança Pública, dada a pretensão do município de alargar o sistema já existente no Bairro Alto a outras áreas da cidade", refere a autarquia, numa resposta escrita enviada à agência Lusa.

Segundo o município, "esta matéria já foi alvo de abordagem entre Câmara Municipal de Lisboa e o Ministério da Administração Interna, para a sua concretização, bem como, recentemente, a Associação de Turismo de Lisboa, que apresentou a disponibilidade para apoiar a implementação deste sistema".

Desde maio de 2014 que está em funcionamento no Bairro Alto um sistema de videovigilância com 27 câmaras que permitem a visualização de imagens em tempo real, entre as 18:00 e as 07:00, podendo servir como meio de identificação e prova.

Quando se decidiu avançar com esta medida, o município pensou também em aplicá-la em locais como a Baixa, Restauradores, Cais do Sodré, Martim Moniz e Intendente, num total de 50 câmaras de videovigilância, mas o plano nunca avançou.

Tendo esse projeto como "base do trabalho atual", a autarquia está a definir "a área abrangida" e a fazer a "avaliação de opções tecnológicas - até porque com a evolução técnica há novas soluções -, dos custos e da respetiva implementação em termos de calendário", segundo a informação enviada à Lusa.

"Ao mesmo tempo, está presente a necessidade da devida articulação e avaliação do projeto pela Comissão Nacional de Proteção de Dados", adianta a Câmara.

Também questionado pela Lusa, o Ministério da Administração Interna indica que "a decisão de instalar sistemas de videovigilância na via pública é das Câmaras Municipais, que articulam com a força de segurança territorialmente competente o modo de operacionalizar essa instalação".

"Definidas as condições de instalação, gestão e operação do sistema de videovigilância, é dado início ao procedimento de autorização pelo Ministério da Administração Interna, mas sujeito a parecer prévio da Comissão Nacional de Proteção de Dados", adianta a tutela, escusando-se a responder se já recebeu algum pedido da Câmara de Lisboa.

A questão da videovigilância voltou a ser falada depois de a Polícia Municipal de Lisboa ter admitido não ter um plano de combate ao tráfico de droga na cidade porque "não pode", já que está "vedada pela lei", que atribui a competência desta investigação criminal à PSP.

Falando numa reunião das comissões de Direitos Sociais e Cidadania e de Mobilidade e Segurança da Assembleia Municipal de Lisboa, o comandante da Polícia Municipal de Lisboa, Paulo Caldas, debruçava-se sobre a venda de droga em locais como a Avenida Almirante Reis e zona envolvente, freguesia de Arroios.

Também presente na ocasião, a presidente da Junta de Freguesia de Arroios, Margarida Martins, indicou que os moradores "sentem que não há controlo sobre a rua" e que "a situação está pior".

A autarca acrescentou que tem vindo a pedir à Câmara Municipal para colocar videovigilância no local, por entender que isso contribuiria para combater o tráfico de droga.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...