Biomilq. E se a tecnologia tornar possível produzir leite materno fora do corpo?

Uma startup biotecnológica sediada na Carolina do Norte está a desenvolver uma forma de cultivar leite humano fora do corpo, através da recolha de células epiteliais mamárias de mulheres grávidas.

Ao longo do último ano, duas empreendedoras norte-americanas montaram uma startup que pretende revolucionar a indústria da nutrição infantil. A cientista Michelle Egger e a bióloga Leila Strickland são os cérebros por detrás da Biomilq, empresa que está a trabalhar numa técnica inovadora para cultivar leite humano.

"Usamos uma tecnologia proprietária para criar leite materno fora do corpo, da mesma forma que é criado no corpo humano mas usando a evolução das células epiteliais mamárias", explicou a CEO Michelle Egger, numa submissão em vídeo à competição de startups RBPC. A ideia foi também debatida na mais recente edição do evento FoodTech Live, durante a feira de tecnologia CES, que neste ano decorreu virtualmente por causa da pandemia de covid-19.

A ideia da startup, que foi fundada em janeiro de 2020 e levantou 3,5 milhões de dólares da firma de investimento de Bill Gates, é recolher uma amostra das células epiteliais mamárias de mulheres grávidas e cultivá-las para produzir leite humano equivalente ao materno, mais sustentável do que os suplementos para bebé - de origem animal ou vegetal - que estão disponíveis hoje.

Projeto para um serviço global

Ainda não há um calendário de lançamento do serviço, mas o processo passará pela recolha de uma amostra, cultivo das células num laboratório próprio, produção e teste do leite produzido e envio para o consumidor final.

"Como startup em fase inicial, temos de conduzir muita investigação e desenvolvimento antes de podermos lançar o nosso produto", explicou ao DN um representante da Biomilq. "Porque compreendemos como os bebés são preciosos, temos de nos submeter a processos de segurança e regulação rigorosos para garantir a qualidade e segurança do nosso produto." A Biomilq tem a intenção de oferecer o serviço globalmente, incluindo na Europa, e está neste momento a consultar especialistas em regulação para se familiarizar com os procedimentos de cada país.

"O nosso objetivo é oferecer um produto universalmente acessível, porque todos os novos pais merecem mais opções de alimentação dos bebés", disse a mesma fonte, referindo que um dos propósitos é dar mais escolhas. "Dado ser um produto personalizado, começará por ser mais caro mas estamos ativamente a olhar para formas de reduzir os custos."

"O nosso objetivo é fornecer um produto acessível, porque todos os novos pais merecem mais opções de alimentação dos bebés."

A amamentação exclusiva nos primeiros meses de vida do bebé é considerada a melhor opção, mas muitas mães não conseguem fazê-lo. "A AAP recomenda amamentar exclusivamente o bebé durante os primeiros seis meses de vida e continuação depois da introdução de alimentos complementares até pelo menos o primeiro ano", lê-se na declaração orientadora da Academia Americana de Pediatria. "Apesar das conhecidas vantagens do leite humano no início da vida, estima-se que 19% das crianças não recebem qualquer leite materno na infância e apenas 22% são amamentadas exclusivamente durante os seis meses recomendados."

É isto que a tecnologia da Biomilq pretende revolucionar. "Oferecemos um produto com a nutrição do leite materno e a praticidade da fórmula", disse Egger. "Como duas cientistas e cofundadoras, estamos muito entusiasmadas para levar esta tecnologia ao mundo e não apenas fornecer melhor nutrição aos bebés mas também um produto mais ético e sustentável."

A empresa descreve-se como uma facilitadora da produção de lactação mas fora do corpo, com vantagens sobre as alternativas baseadas em leite de vaca ou outros, que têm implicações negativas ao nível ambiental. "Não estamos a tentar substituir a amamentação. Estamos a tentar oferecer nutrição infantil suplementar", disse o representante ao DN.

Os desafios da amamentação

Nos Estados Unidos, onde a startup está sediada, o contexto social e legislativo dificulta a amamentação exclusiva dos bebés durante o período recomendado pela AAP. O país não oferece licença de maternidade paga e é habitual as mães regressarem ao trabalho entre cinco a seis semanas após o parto, o que interrompe o ritmo de amamentação e pode resultar, em muitos casos, na cessação.

A ideia da Biomilq está também a ser explorada numa altura em que há muitos projetos para o cultivo alternativo de alimentos em laboratório, de forma a minimizar o impacto ambiental negativo da sua produção em plena crise climática.

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