Assaltantes de carrinhas de valores. "É gente disposta a tudo"

São criminosos experientes em roubos, muitos cadastrados, dispostos a tudo. A maioria dos bandos especializados em valores foi presa em 2008 pela PJ. Crime ressurgiu este ano

Se os bandidos tivessem um currículo escrito organizado, podia-se dizer que chegar a assaltante de carrinha de valores é o topo da carreira dos roubos. O gangue de seis elementos que matou um condutor na A16 em Sintra, depois de um assalto algo confuso a uma carrinha de valores da Loomis, tem duas características padrão deste "ramo": são violentos e organizados, como descreve fonte policial. Na Unidade Nacional Contra Terrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária há uma forte pressão para identificar os autores do assalto de domingo, que poderão ser da zona de Sintra e os mesmos que fizeram mais três ataques a carrinhas de valores nos últimos dois meses.

"Assaltar carrinhas de valores requer planeamento e controlo. Desde arranjar as armas aos carros para o assalto, ao plano de fuga", descreve fonte policial conhecedora destes bandos de assaltantes. "É uma criminalidade violenta, organizada e perigosa". Muitos destes gangues integram cadastrados por roubos que já cumpriram uma ou mais penas de prisão e também elementos estrangeiros, do Leste europeu ou do Brasil. "É gente disposta a tudo para fugir do local do crime. Não quer dizer que planeiem matar quem se atravesse no caminho mas disparam se for preciso. É um trabalho sujo, nem todos os criminosos têm perfil para isto".

Na criminalidade violenta e organizada o roubo é considerado o topo. Não é como o crime de corrupção que implica um conhecimento intelectual das operações necessárias para limpar milhões sem ter de sujar as mãos.

O assalto é para tipos "da pesada", violentos e ousados mas não impulsivos. E que já passaram por roubos a bancos e a estações dos CTT, em muitos casos. No caso do gangue que atacou em Lourel, Sintra, a PJ suspeita que seja gente dos furtos qualificados que evoluiu para os roubos.

Não quer dizer que não entrem criminosos jovens e mais impulsivos nestes gangues que assaltam carrinhas de valores mas estão reservados às tarefas mais operacionais.

O período do apogeu do crime

Os elementos dos bandos que assaltaram dezenas de carrinhas de valores em 2008, no apogeu deste crime, estão todos presos. Foram detidos pela UNCT num período que representou uma vaga deste crime em Portugal, de norte a sul do país. Era apetecível: ganhavam-se muitos milhões em poucos segundos e não havia danos de maior a assinalar.

Mas foram tantos os casos, às dezenas, que obrigaram a um empenho extraordinário dos investigadores da UNCT e ao reforço de medidas de segurança das empresas que trabalham no transporte de valores. E em Portugal só são cinco as empresas nesse ramo, como confirmou ao DN o advogado Rogério Alves, presidente da Associação das Empresas de Segurança (AES). A Loomis-Portugal, alvo no assalto de domingo, e a Esegur, visada no assalto em Vialonga, na segunda-feira, são duas delas.

Após esse período da vaga de roubos, as carrinhas de transporte de valores precaveram-se com as malas do dinheiro, referiu fonte policial. As malas são por vezes trocadas para despistar os ladrões em caso de assalto.

O armamento que utilizam, que vai das pistolas aos revólveres e caçadeiras é normalmente resultado de assalto a espingardarias e residências.

Versáteis nos roubos

A UNCT deteve um bando de criminosos da "velha guarda" conhecidos pela sua versatilidade: andavam de mota a assaltar bancos e carrinhas e estações dos CTT. Já tinham mais de 50 anos de idade e tinham estado presos em 1993 por vários crimes. Voltaram a ser apanhados na nova vaga de roubos e foram condenados pelo tribunal de Sintra a penas de 25 anos cada um (a máxima, em Portugal). É um exemplo acabado do gangue com a experiência e o conhecimento certos nos roubos para assaltar no transporte de valores.

Houve estrangeiros com conhecimento de táticas militares metidos nos assaltos a carrinhas de valores em Portugal, de operacionais da Córsega, em Aveiro, a possíveis antigos militares e membros das forças de segurança do Leste europeu.

Foi com alguma surpresa que a PJ viu o regresso destes assaltos. Desde final de dezembro de 2015 até agora já aconteceram cinco, quatro deles poderão ter sido realizados pelo grupo que atacou a carrinha da Loomis junto ao hipermercado Continente/Modelo em Lourel. O Citroen em que fugiram ainda não foi localizado.

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